Os 12 graus do silêncio
- Conteúdos Católicos

- 18 de dez. de 2025
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1°- Falar pouco às criaturas e muito a Deus
Este é o primeiro passo, mas indispensável, nas vias solitárias do silêncio.
Nesta escola é onde se ensinam os elementos que dispõe à união divina.
Aqui a alma estuda e aprofunda esta virtude, no espírito do Evangelho, no espírito da Regra que abraçou, respeitando os lugares consagrados, as pessoas, e sobretudo esta língua na qual tão frequentemente descansa o Verbo ou a Palavra do Pai, o Verbo feito carne. Silêncio ao mundo, silêncio às notícias, silêncio com as almas mais justas: a voz de um Anjo turbou Maria...
2º- Silêncio no trabalho, nos movimentos
Silêncio no porte; silêncio dos olhos, dos ouvidos, da voz; silêncio de todo o ser exterior, que prepara a alma para passar a Deus. A alma merece tanto quanto pode, por estes primeiros esforços em escutar a voz do Senhor. Que bem recompensado é este primeiro passo! Deus a chama ao deserto, e por isso, neste segundo estado, a alma aparta tudo o que poderia distraí-la; se distancia do ruído, e foge sozinha Àquele que somente é. Ali ela saboreará as primícias da união divina e o zelo de seu Deus. É o silêncio do recolhimento, ou o recolhimento do silêncio.
3°- Silêncio da imaginação
Esta faculdade é a primeira em chamar à porta fechada do jardim do
Esposo; com ela vêm as emoções alheias, as vagas impressões, as tristezas.
Mas neste lugar retirado, a alma dará ao Bem Amado provas de seu amor.
Apresentará a esta potência, que não pode ser destruída, as belezas do céu, os encantos de seu Senhor, as cenas do Calvário, as perfeições de seu Deus.
Então, também ela permanecerá no silêncio, e será a servente silenciosa do Amor divino.
4°- Silêncio da memória
Silêncio ao passado... esquecimento. Há que saturar esta faculdade com a recordação das misericórdias de Deus... É o agradecimento no silêncio, é o silêncio da ação de graças.
5°- Silêncio às criaturas
Oh, miséria de nossa condição presente! Com frequência a alma, atenta a si mesma, se surpreende conversando interiormente com as criaturas, respondendo em seu nome. Oh, humilhação que fez gemer os santos! Nesse momento esta alma deve retirar-se docemente às mais íntimas profundezas deste lugar escondido, onde descansa a Majestade inacessível do Santo dos santos, e onde Jesus, seu consolador e seu Deus, se descobrirá a ela, lhe revelará Seus segredos, e a fará provar a bem-aventurança futura. Então lhe
dará um amargo desgosto para tudo o que não é Ele, e tudo o que é da terra deixará pouco a pouco de distraí-la.
6°- Silêncio do coração
Se a língua está muda, se os sentidos se encontram na calma, se a
imaginação, a memória e as criaturas se calam e fazem silêncio, se não ao redor, ao menos no íntimo desta alma de esposa, o coração fará pouco ruído. Silêncio dos afetos, das antipatias, silêncio dos desejos no que tem de demasiado ardente, silêncio do zelo no que tem de indiscreto; silêncio do fervor no que tem de exagerado; silêncio até nos suspiros... Silêncio do amor no que tem de exaltado, não dessa exaltação da qual Deus é autor, senão daquela na qual se mistura a natureza. O silêncio do amor, é o amor no silêncio...
É o silêncio diante de Deus, suma beleza, bondade, perfeição... Silêncio que não tem nada de chateado, de forçado; este silêncio não danifica a ternura, o vigor deste amor, de modo semelhante a como o reconhecimento das faltas não danifica tampouco o silêncio da humildade, nem o bater das asas dos anjos de que fala o profeta o silêncio de sua obediência, nem o fiat o silêncio de Getsemani, nem o Sanctus eterno o silêncio dos serafins...
Um coração no silêncio é um coração de virgem, é uma melodia para o coração de Deus. A lâmpada se consome sem ruído diante do Sacrário, e o incenso sobe em silêncio até o trono do Salvador: assim é o silêncio do amor. Nos graus precedentes, o silêncio era ainda a queixa da terra; neste a alma, por sua pureza, começa a aprender a primeira nota deste cântico sagrado que é o cântico dos céus.
7°- Silêncio da natureza, do amor próprio
Silêncio à vista da própria corrupção, da própria incapacidade. Silêncio da alma que se compraz na sua baixeza. Silêncio aos louvores, à estima.
Silêncio diante dos desprezos, das preferências, das murmurações; é o silêncio da doçura e da humildade. Silêncio da natureza diante das alegrias ou dos prazeres. A flor se abre no silêncio e seu perfume louva em silêncio ao criador: a alma interior deve fazer o mesmo. Silêncio da natureza na pena ou na contradição. Silêncio nos jejuns, nas vigílias, nas fadigas, no frio e no calor. Silêncio na saúde, na enfermidade, na privação de todas as coisas: é o silêncio eloquente da verdadeira pobreza e da penitência; é o silêncio tão amável da morte a todo o criado e humano. É o silêncio do eu humano transformando-se no querer divino. Os estremecimentos da
natureza não poderiam turbar este silêncio, porque está acima da natureza.
8°- Silêncio do espírito
Fazer calar os pensamentos inúteis, os pensamentos agradáveis naturais; só estes danificam o silêncio do espírito, e não o pensamento em si mesmo, que não pode deixar de existir. Nosso espírito quer a verdade, e nós lhe damos a mentira! Agora bem, a verdade essencial é Deus! Deus é o bastante à Sua própria inteligência divina, e não basta à pobre inteligência humana!
No que concerne a uma contemplação de Deus perene e imediata, não é possível na debilidade da carne, a não ser que Deus conceda um puro dom de Sua bondade; mas o silêncio nos exercícios próprios do espírito consiste, em relação à fé, em contentar-se com sua luz escura. Silêncio aos raciocínios sutis que debilitam a vontade e dissecam o amor. Silêncio na intenção: pureza, simplicidade; silêncio às buscas pessoais; na meditação, silêncio à curiosidade; na oração, silêncio às próprias operações, que não fazem mais que entravar a obra de Deus. Silêncio ao orgulho que se busca em tudo, sempre e em todas as partes; que quer o belo, o bem, o sublime; é
o silêncio da santa simplicidade, do desprendimento total, da retidão.
Um espírito que combate contra tais inimigos é semelhante a esses anjos que veem sem cessar a Face de Deus. Esta é a inteligência, sempre no silêncio, que Deus eleva a Si.
9°- Silêncio do juízo
Silêncio quanto às pessoas, silêncio quanto às coisas. Não julgar, não
deixar ver a própria opinião. Não ter opinião às vezes, ou seja, ceder com simplicidade, sem nada se opor a ele por prudência ou por caridade. É o silêncio da bem-aventurada e santa infância, é o silêncio dos perfeitos, o silêncio dos anjos e dos arcanjos, quando seguem as ordens de Deus. É o silêncio do Verbo encarnado!
10°- Silêncio da vontade
O silêncio aos mandamentos, o silêncio às santas leis da regra, não é, por dizer assim, mais que o silêncio exterior da própria vontade. O Senhor tem algo que ensinar-nos de mais profundo e de mais difícil: o silêncio do escravo sob os golpes de seu amo. Mas, feliz escravo, pois o Amo é Deus!
Este silêncio é o da vítima sobre o altar, é o silêncio do cordeiro que é despojado de sua pele, é o silêncio nas trevas, silêncio que impede pedir a luz, ao menos a que alegra.
É o silêncio nas angústias do coração, nas dores da alma; o silêncio de uma alma que se viu favorecida por seu Deus, e que, sentindo-se rechaçada por Ele, não pronuncia nem sequer estas palavras: Por que? Até quando? É o silêncio no abandono, o silêncio sob a severidade do olhar de Deus, sob o peso de Sua mão divina; o silêncio sem outra queixa que a do amor. É o silêncio da crucifixão, é mais que o silêncio dos mártires, é o silêncio da agonia de Jesus Cristo. Se este silêncio é seu divino silêncio e nada é comparável à sua voz, nada resiste à sua oração, nada é mais digno de Deus
que esta classe de louvor na dor, que este fiat no sofrimento, que este silêncio no trabalho da morte.
Enquanto esta vontade humilde e livre, verdadeiro holocausto de amor, se despedaça e se destrói para a glória do nome de Deus, Ele a transforma em Sua vontade divina. Então o que falta para sua perfeição? O que requer ainda para a união? O que falta para que Cristo seja acabado nesta alma?
Duas coisas: a primeira é o último suspiro do ser humano; a segunda é uma doce atenção ao Bem Amado cujo beijo divino é a inefável recompensa.
11°- Silêncio consigo mesmo
Não falar-se interiormente, não escutar-se, não queixar-se nem consolar-se.
Em uma palavra, calar-se consigo mesmo, esquecer-se de si mesmo,
deixar-se só, completamente só com Deus; fugir, separar-se de si mesmo.
Este é o silêncio mais difícil, e sem embargo é essencial para unir-se a Deus tão perfeitamente como possa fazê-lo uma pobre criatura que, com a graça, chega com frequência até aqui, mas se detém neste grau, porque não o compreende e o pratica menos ainda. É o silêncio do nada. É mais heroico que o silêncio da morte.
12°- Silêncio com Deus
No começo Deus dizia à alma: «Fala pouco às criaturas e muito comigo».
Aqui lhe diz: «Não me fales mais». O silêncio com Deus é aderir-se a Deus, apresentar-se e expor-se diante de Deus, oferecer-se a Ele, aniquilar-se diante dEle, adorá-Lo, amá-Lo, escutá-Lo, ouvi-Lo, descansar nEle. É o silêncio da eternidade, é a união da alma com Deus.
✅ Síntese do Conteúdo
Os 12 Graus do Silêncio: Minha Jornada Interior
Ao longo da minha caminhada espiritual, descobri que o silêncio não é ausência, mas presença, não é vazio, mas plenitude. O silêncio é a linguagem de Deus. E ao aprender a escutá‑Lo, percebi que precisava atravessar graus sucessivos de purificação, desapego e entrega. Cada grau tornou-se para mim uma porta aberta para uma união mais íntima com o Senhor. O que partilho aqui é a minha experiência pessoal, um itinerário interior que transformou a minha forma de rezar, de viver e de amar.
O primeiro passo foi reconhecer que eu falava demais ao mundo e de menos ao meu Criador. Quando comecei a reduzir o ruído exterior, descobri que o silêncio é uma escola. Ali aprendi a recolher-me, a honrar a Palavra que se fez carne e a deixar que Deus fosse o primeiro a falar ao meu coração.
Percebi que não bastava calar a língua, era preciso silenciar o corpo. Passei a vigiar meus gestos, meus olhares, meus passos. Ao mover-me com sobriedade, senti Deus chamar-me ao deserto interior, onde só Ele habita. Ali experimentei uma paz nova e um zelo renovado.
A imaginação foi a primeira a rebelar-se. Trazia imagens, medos, lembranças. Mas, ao invés de expulsá-la, aprendi a orientá-la. Ofereci-lhe Cristo, o céu, o Calvário. Aos poucos, ela se calou, não por força, mas por encanto. Tornou-se serva do Amor.
A memória insistia em trazer o passado. Mas recordar sem Deus é reviver sem sentido. Comecei a preenchê-la com as misericórdias divinas. O passado deixou de ser peso e tornou-se louvor. O silêncio da memória é gratidão.
Mesmo recolhido, percebi que dentro de mim ainda conversava com pessoas ausentes. Foi uma humilhação reconhecer isso. Mas, ao voltar-me para o Santo dos santos dentro de mim, encontrei Jesus, que me deu um desgosto profundo por tudo o que não é Ele. As criaturas perderam o poder de me distrair.
Quando tudo ao redor se calou, descobri que o coração ainda fazia ruído. Afetos desordenados, desejos ardentes, zelos exagerados… tudo precisava ser purificado. O silêncio do coração é o amor no seu estado mais puro, amor que adora, que contempla, que repousa.
Aqui enfrentei minha própria miséria. Precisei silenciar diante dos elogios e das críticas, das preferências e das injustiças. Aprendi a aceitar minha baixeza com doçura. A verdadeira pobreza é desapego interior. O silêncio tornou-se morte para o ego e nascimento para Deus.
Enfrentei meus pensamentos. Silenciei raciocínios inúteis, curiosidades estéreis, buscas de brilho intelectual. Aceitei a luz escura da fé. O silêncio do espírito é simplicidade, pureza de intenção, retidão. É a inteligência que contempla sem querer possuir.
Aprendi a não julgar. A não emitir opinião quando não necessário. A ceder por caridade. O silêncio do juízo é a infância espiritual, confiança, docilidade, humildade. É o silêncio do próprio Cristo diante dos seus acusadores.
Este foi um dos graus mais dolorosos. Silenciar a vontade é entregar-se como vítima no altar. É aceitar a noite sem pedir luz. É sofrer sem perguntar “por quê?”. É o silêncio da crucifixão. Aqui compreendi que minha vontade, despedaçada por amor, é transformada na vontade divina.
Descobri que ainda falava comigo mesmo, justificava-me, consolava-me, queixava-me. Precisava calar até isso. O silêncio comigo mesmo é o mais difícil, porque exige esquecer-me totalmente. É o silêncio do nada. É morrer para o próprio eu.
Por fim, alcancei o silêncio supremo, não falar mais nem mesmo com Deus. Não pedir, não explicar, não argumentar. Apenas estar. Apenas amar. Apenas adorar. É o silêncio da eternidade. É a união da alma com Deus. Aqui, o silêncio não é esforço, mas graça, não é conquista, mas dom.
Percorrer estes doze graus, compreendi que o silêncio é a morada da união. Ele é o espaço onde a alma respira, onde o amor amadurece, onde a graça floresce. O silêncio tornou-se minha pátria interior, meu altar, meu descanso e minha missão.
Finalização de Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos
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