A vida eremítica em pleno século XXI
- Conteúdos Católicos

- 27 de mai. de 2022
- 6 min de leitura
Atualizado: 2 de abr.

Retirar-se para o deserto para passar ali a inteira existência é uma decisão que só pode tomar-se quando no coração arde a íntima certeza, mais ou menos bem formulada, de que no seio da solidão se esconde um AMOR incomparável que não pode ser igualado por nenhum outro amor.
(Monjas Cartuxas)
Falar de vida eremítica evoca tempos passados, ainda que seja uma vocação que com o passar dos anos se abandonou, ainda hoje, em pleno século XXI, é possível encontrar religiosos que optam por este estilo de vida.
Uma opção vocacional que está reconhecida pela Igreja Católica, como o recorda o Código de Direito Canônico em seu número 603: "A Igreja reconhece a vida eremítica ou anacorética, na qual os fiéis, com um apartamento mais estrito do mundo, o silêncio da solidão, a oração assídua e a penitência, dedicam sua vida o louvor de Deus e salvação do mundo".
"Um ermitão é reconhecido pelo direito como entregue a Deus dentro da vida consagrada, se professa publicamente os três conselhos evangélicos corroborados mediante voto ou outro vínculo sagrado, em mãos do Bispo diocesano, e segue sua forma própria de vida sob a direção deste", explica o Código de Direito Canônico.
Foi este estilo de vida que chamou a atenção do Irmão Rex, eremita da Irmandade 'Little Portion' da Diocese de Portland, Estados Unidos, quem fala de sua vocação e rompe alguns mitos sobre os ermitãos de hoje.
"A graça me atraiu a esta forma particular de discipulado. O exemplo dos Pais e Mães do Deserto me atraiu a esta vida. Também o exemplo de muitos dos grandes Santos ao longo da história, como Francisco de Assis, um santo conhecido que viveu como eremita por um tempo antes de ser chamado a fundar uma fraternidade religiosa de Irmãos", assinalou o religioso eremita em uma entrevista ao 'Catholic News Agency' (CNA).
Em um mundo onde o silêncio é escasso, onde há um constante movimento, e uma sociedade hiperconectada com as novas tecnologias, é estranho ter uma vida ermitã, mas a oração, o contato com Deus a partir da natureza é o que anima ao Irmão Rex a viver sua vocação, por isso não duvida em assinalar que o que mais lhe dá alegria é poder "passar longas temporadas no silêncio da solidão", e "estar na presença de Deus e do próximo através da oração".
Justamente um fator que enche a vida do religioso eremita é a oração, como narra o Irmão Rex: "Um aspeto alegre da minha vocação é que tenho a bênção de ser parte das vidas de outras pessoas, já que me convidam a unir-me a elas ao longo de sua vida através do ministério da oração intercessora".
Por isso, se levanta muito cedo, às 04h da manhã, para participar da Hora Santa entre as 05h e as 06h, e posteriormente assistir a Missa das 07h em uma paróquia local. Após tomar café da manhã, dedica o que lhe resta da manhã a Lectio Divina, e, em certas ocasiões, atender alguma pessoa para direção espiritual.
Conta que ora pelos católicos, pelos cristãos não católicos e a sociedade em geral: "Eles, como eu, viemos experimentar a liberdade, a felicidade e o gozo que provêm do submeter à própria vontade e vida ao amoroso senhorio de Jesus Cristo".
A tarde, após a oração do meio-dia e o almoço, o Irmão Rex dedica um tempo de trabalho, no qual responde e-mails e recebe pedidos de oração. Às 17h, reza as vésperas, janta cedo -às 17h30- e realiza a oração da noite às 19h, para ir descansar às 20h.
Como assegurou o eremita à CNA, "este horário é suficientemente rígido para proporcionar estabilidade à minha vocação no silêncio da solidão, mas suficientemente flexível como para fazer recados, encontros com o médico e realizar tarefas na ermita".
A vida eremítica é uma vocação toda especial. Sua prática é abissal na oração, jejum, meditação, leitura, contemplação, silêncio, solidão e nos mistérios do deserto em íntima comunhão com Deus. Numa sociedade ansiosa e depressiva, ocupada e preocupada com mil coisas, ou seja, sem Deus, ou sem tempo para Deus, o eremita ocupa esse espaço na profunda união com Deus intercedendo pela humanidade para que a paz, o amor, a solidariedade e a justiça sejam fundamentos do bem comum para todos. O mais importante que as pessoas tenham o bom Deus no centro de suas vidas.
O eremita é chamado ao deserto não apenas em prol da sua salvação e da ardente busca de Deus, mas também em favor da salvação da humanidade.
Disse o eremita do Deserto do Saara Charles de Foucauld: “O amor de Deus, o amor dos homens é toda a minha vida e será sempre a minha vida... eis o que espero” (Carta a Henri Duveyrier, 24/04/1892).
Frei Inácio José do Vale (Professor, Conferencista e Sociólogo em Ciências da Religião)
Fraternidade do Bem-aventurado Charles de Foucauld
✅ Síntese do Conteúdo
A Vida Eremítica em Pleno Século XXI.
Uma Confissão em Primeira Pessoa
Retirar-me para o deserto, jamais foi um gesto de fuga, foi antes, a única resposta possível a um chamado que me ultrapassava. No mais profundo do meu coração, uma certeza começou a arder com suavidade e firmeza: no silêncio da solidão habita um Amor absoluto, um Amor que nenhum afeto humano consegue igualar. Esse Amor aproximou-se de mim com uma delicadeza irresistível; inquietou-me, provocou-me, seduziu-me com sua luz silenciosa, até que já não pude, nem quis resistir.
Quando falo de vida eremítica, muitos imaginam algo ultrapassado, um eco distante dos primeiros séculos do cristianismo. No entanto, eu vivo essa vocação aqui e agora, em pleno século XXI, no meio de uma sociedade hiperconectada, barulhenta e ansiosa. E é justamente por isso que ela se torna ainda mais necessária.
A Igreja, em sua sabedoria, reconhece a vida eremítica como forma legítima de consagração. O Código de Direito Canônico descreve com precisão aquilo que vivo diariamente:
- separação mais estrita do mundo,
- silêncio da solidão,
- oração assídua,
- penitência,
- vida dedicada ao louvor de Deus e à salvação do mundo.
Quando professei publicamente os conselhos evangélicos diante do meu bispo, compreendi que não estava apenas escolhendo um estilo de vida, mas entregando-me totalmente ao Senhor, para que Ele fizesse de mim um espaço de intercessão.
Minha rotina é simples, mas profundamente estruturada. Acordo às 4h da manhã, quando o mundo ainda dorme, e deixo que o silêncio me desperte. Entre 5h e 6h, permaneço diante do Santíssimo, permitindo que a luz de Cristo modele meu coração. Às 7h, participo da Missa, fonte e cume de tudo o que sou.
As manhãs são dedicadas à Lectio Divina, à escuta amorosa da Palavra, e, quando necessário, ao acompanhamento espiritual de quem me procura. Rezo por católicos, por cristãos não católicos, por todos os que caminham na busca da liberdade e da alegria que brotam da entrega a Cristo.
À tarde, após a oração do meio-dia, trabalho, respondo e-mails, acolho pedidos de oração, ofereço minha presença silenciosa a quem precisa. Às 17h, rezo as vésperas, às 19h, a oração da noite e às 20h recolho-me, deixando que Deus continue Sua obra em mim enquanto descanso.
Essa disciplina não me aprisiona, ela me liberta. É o espaço onde Deus me encontra e me transforma.
Viver como eremita hoje é, inevitavelmente, um gesto profético. Em um mundo saturado de estímulos, onde o silêncio é quase inexistente, minha vida se torna um lembrete de que Deus ainda fala e fala no silêncio.
Não vivo isolado por desprezo ao mundo, mas por amor a ele. Minha solidão não é ruptura, mas intercessão. Carrego no coração as dores, as angústias e as esperanças da humanidade. Rezo para que a paz, a justiça e a caridade sejam realidades concretas, não apenas ideais distantes.
O deserto que habito é também o deserto interior de tantos que perderam o sentido, que vivem fragmentados, que não encontram tempo para Deus. Minha vocação ocupa esse espaço vazio, oferecendo-o a Deus para que Ele o preencha com Sua misericórdia.
O amor que me move, é a herança dos Santos do deserto, sou profundamente inspirado pelos Pais e Mães do Deserto, por Francisco de Assis, e por tantos santos que encontraram Deus na solidão. Mas uma frase de Charles de Foucauld resume tudo o que vivo:
“O amor de Deus, o amor dos homens é toda a minha vida e será sempre a minha vida... eis o que espero.”
Na minha conclusão, defino como um Deserto, como lugar de encontro. A vida eremítica não é um anacronismo. É uma resposta atual, urgente e profundamente humana. No silêncio, descubro quem sou diante de Deus. Na solidão, encontro Aquele que nunca me deixa só. Na oração, abraço o mundo inteiro.
Se há algo que desejo testemunhar é isto:
o deserto continua sendo fértil.
E Deus continua chamando, mesmo no século XXI, aqueles que ousam escutar.
Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos e Finalização de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
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