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O Perdão

  • Foto do escritor: Conteúdos Católicos
    Conteúdos Católicos
  • há 3 dias
  • 9 min de leitura
Dois homens em gesto de perdão e compaixão, com composição horizontal, fundo quente e pinceladas suaves em estilo clássico religioso.

O QUE SIGNIFICA PERDOAR?


Comecemos dizendo que perdoar não é mero ato de civilidade ou uma polida regra de boas maneiras. Também não se presta ao cultivo de relações de interesse ou à manutenção de uma boa aparência. Não se trata, simplesmente, de repelir a mágoa ou o rancor que pode despontar de um coração ferido e desiludido. Nem é suficiente - ainda que seja importante fazê-lo - desterrar do

próprio interior o ímpeto de revanche ou a sede de vingança. Com efeito, esvaziar-se de tudo isso corresponde apenas aos primeiros movimentos de uma sinuosa estrada do perdão. De fato, o perdão, significa lançar fora, dispensar, liberar; perdoar inclui o desfazer-se do

ressentimento e da mágoa, recusando-se a entrar na espiral da agressividade, quebrando a engrenagem do ódio.

Entretanto, a pessoa que se dispõe a perdoar deve ir além, de modo a ser capaz de querer que o outro viva bem, feliz e reconciliado, apesar do prejuízo que ele lhe causou.


Quem, honestamente, se mostra capaz de desejar o melhor

a seu ofensor, não obstante a gravidade do mal perpetrado, experimenta em si mesmo, a paz que o perdão promete e que só um coração verdadeiramente livre pode hospedar. Tal disposição não supõe ou exige o arrependimento e a emenda alheia como condições prévias à decisão de perdoar. Antes, ao contrário, quem perdoa deve fazê-lo na esperança de ver superadas as insinuações do mal e as marcas do pecado na vida do outro. Perdoa para

ajudar o outro a ser melhor. Em outros termos, o perdão não entra na lógica do custo-benefício, não cobra méritos e não vai à procura de recompensas.

Perdão é o amor que se doa além da justiça do mérito. É atitude de absoluta liberdade, expansão de um coração que não se deixa condicionar pela avareza das convenções e conveniências.

O efeito regenerador da gratuidade do perdão pode ser contemplado de modo paradigmático na atitude misericordiosa de Jesus para com os pecadores.


Atitudes que desencadeavam neles propósitos de conversão e mudança de vida:


  • O paralítico que recupera a consciência de sua dignidade (Mc 2,1-13);


  • A mulher arrependida que demonstra muito amor (Lc 7,36-50);


  • Zaqueu que promete repartir os bens que acumulou e reparar suas possíveis fraudes (Lc 19,1-10), etc.


Na perspectiva cristã, portanto, perdão é sempre dom, expressão

de uma fé amadurecida, oferta de amor incondicional e efetivo, como aquele que o Pai nos dá (S1 103(102),3; Dn 9,9; Ef 4,32), como aquele que Jesus de Nazaré tantas vezes comunicou (Mc 2,1-13; Jo 8,1-11), como o perdão que Ele pediu para Seus algozes no alto da cruz, manifestando toda potência da misericórdia (Lc 23,34).


O perdão supremo oferecido a quem o crucificou mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Por isso mesmo, no abraço do Crucificado, descobrimos a verdadeira medida do amor que nos foi oferecido e do amor que devemos oferecer, inclusive, àqueles que não advertem o bem que lhes procuramos fazer, que não se revelam agradecidos pela solicitude que lhes prodigalizamos ou que jamais se retratam pelas faltas que cometeram. Há, portanto, momentos em que se faz necessário: aprender a sofrer, num abraço

com Jesus Crucificado, quando recebemos agressões injustas ou ingratidões, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade.

O perdão, longe de ser uma conveniência ou interesse, nasce de uma convicção profunda, de uma autêntica experiência de fé, de um apelo de amor.

Assim, não se limita aos esquemas da justiça e da equidade, ultrapassando-os pela lógica da misericórdia, fora da qual o perdão pareceria uma concessão absurda. Na expressão do teólogo protestante Paul Tillich (1886-1965): "perdoar consiste em aceitar o inaceitável. Mas sempre de modo progressivo".

De fato, a paz profunda que nasce do perdão não é regulada pelo consentimento ou pela recusa proveniente daquele a quem se deseja perdoar. A disposição de fazê-lo e o empenho na busca da reconciliação já são acompanhados da serenidade e do vigor que o coração compassivo é capaz de aninhar.


Por outro lado, o simples pedido de perdão ou sua humilde aceitação pode proporcionar a quem ofendeu uma consciência mais aguda de sua necessidade de mudança, bem como a coragem de efetuá-la.

Na medida em que se avança na estrada do perdão, pouco a pouco, a atmosfera vai se tornando mais leve, possibilitando às pessoas implicadas reconsiderar com tranquilidade e falar sem ressentimentos de experiências e situações que, antes as perturbavam e fragilizavam. Seja como for, assim como

as feridas precisam de tempo para cicatrizar, aquele que pede perdão deve saber esperar até que o outro esteja em condições de aceitar a reconciliação e disposto a comprometer-se com esse processo, ao perdoar, aquele que seu próprio fracasso pessoal, de modo a não lhe obstruir definitivamente o futuro. É uma difícil

forma de amor, pois quem perdoa deve vencer seu natural instinto de vingança. É um grande ato de amor, um modo de amor ao inimigo. Por tudo isso, é uma manifestação importante do

espírito cristão, realização da simples e sublime exigência de Jesus:


«Sede perfeitos, como o Pai celeste é perfeito» (Mt 5,48). É mediação da benignidade e gratuidade de Deus. Sendo assim,

toda espiritualidade cristã tem de levar a sério o perdão pessoal ao pecador que nos ofende.

As experiências mais profundas e significativas da existência, antes de se efetivarem na prática, exigem um processo gradual de interiorização e assimilação, a ponto de se traduzirem em convicção (consciência) e atitude (sensibilidade), e, assim, engendrarem decisões, opções e ações (práxis).

Com o perdão não é diferente: nasce de uma arraigada convicção a respeito de seu valor e dilata-se em um paciente exercício de generosa gratuidade; possível apenas a quem descobriu que o amor é o esteio da vida.

Um impactante exemplo dessa desconcertante gratuidade que emoldura o perdão transparece em uma oração encontrada entre os pertences de um judeu morto em um campo de concentração nazista:


«Senhor, quando vieres em Tua glória, não Te lembres somente dos homens de boa vontade.

Lembra-Te também dos homens de má vontade. E, no dia do Juízo, não Te lembres só das crueldades e da violência que cometeram. Lembra-Te também dos frutos que demos por causa do que eles nos

fizeram. Lembra-Te da paciência, da coragem, da confraternização, da humildade, da grandeza de alma e da fidelidade que nossos verdugos conseguiram despertar em cada um de nós. Permite, então, Senhor, que esses frutos possam servir também para salvar a

esses homens».


Também posso citar o testemunho do Padre Christian de Chergé, prior do mosteiro cisterciense de Tibhirine (Argélia), sequestrado e assassinado por terroristas islâmicos em 1996, juntamente com seis de seus monges, decididos a correr os riscos de uma incondicional solidariedade com o povo daquele vilarejo assolado pela guerra fratricida que grassava no país.

Naquele que foi considerado seu testamento espiritual, padre Chergé se refere a seu ainda desconhecido algoz como amigo do "último instante"; perdoa-o expressamente e manifesta sua

esperança de contemplá-lo com os olhos misericordiosos do Pai e vê-lo reconciliado no paraíso.


Todos Precisamos de Perdão


A principal motivação para perdoar é a solidariedade humana na fraqueza, nossa comum necessidade de compreensão, paciência e perdão (Mt 7,1-5;Rm 5,12-21). Todos trazemos em nossos rostos as cicatrizes do pecado. E não ousamos condenar nem mesmo a quem nos ofendeu, se temos uma consciência lúcida a respeito de nossa própria condição humana e dos quais ela nos expõe.

Com efeito, não ser misericordioso é não ter ainda uma consciência sincera da própria humanidade. Foi precisamente isso que Jesus demonstrou àqueles que, instrumentalizando a lei, exigiam a

condenação da mulher surpreendida em adultério: «Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra» (Jo 8,7).


Enquanto o olhar presunçoso daqueles homens reduz a mulher ao tamanho de seu delito, fechando-lhe todas as possibilidades de vida, o olhar compassivo de Jesus, através do qual o Pai nos vê, penetra o coração, enxerga a totalidade da pessoa, apela ao arrependimento e abre nova estrada de conversão e paz:

«Nem Eu Te condeno. Vai e não tornes a pecar» (Jo 8.11). Assim, a miséria do pecado foi revestida com a misericórdia do amor.


Ninguém é tão mal que não possa ser recuperado. De fato, no núcleo mais profundo do ser humano, inclusive no pecador mais empedernido, há uma zona incontaminada, que nada poderá

cancelar ou manchar, porque nessa "terra de ninguém somente Deus passeia, fazendo desabrochar as mais belas potencialidades humanas". Cabe-nos, portanto, dar-lhe atenção. E daí, pois, que provém o que de melhor se pode esperar de uma pessoa, as intenções mais retas, os sentimentos mais puros, as atitudes mais nobres, os gestos mais magnânimos, as mais surpreendentes

mudanças. Ninguém menos que Thomas Merton descreveu assim essa zona virginal de humanidade:


«No centro de nosso ser, há um ponto que nada está tocado pelo pecado, um ponto de pura verdade, um ponto ou centelha que pertence inteiramente a Deus, que nunca está a nossa disposição, a partir do qual Deus dispõe de nossas vidas, e que é inacessível às fantasias de nossa mente e às brutalidades de nossa vontade. Esse pontinho de nada e de absoluta pobreza é a pura glória de Deus em nós. É como um diamante puro, fulgurando com a invisível luz do céu. Está em todos e, se pudéssemos vê-lo, veríamos esses

milhares de milhões de pontos de luz reunindo-se no fulgor do sol que desvaneceria por completo todas as trevas e toda a crueldade da vida».


O coração que perdoa enxerga o essencial, vai além das aparências,

considerando a pessoa a partir de sua dignidade, captando sua riqueza escondida e estimulando sua capacidade de ser melhor. É próprio do perdão ultrapassar a materialidade dos atos e fixar-se no mais profundo, acordando no outro dinamismo de regeneração. Isso supõe a disposição de ver o outro muito além de sua culpa e de sua condição de ofensor, bem como a de ver a si mesmo não apenas como vítima, mas também como alguém capaz de elevar-se

acima da ofensa, renunciar à vingança e mitigar a mágoa com a decisão de perdoar. E, assim, "quem aprende a compreender o outro e a acreditar nele, ajuda-lhe a compreender-se e a acreditar no que tem de mais belo e nobre".

Está claro que só quem perdoa demonstra ter consciência da própria

limitação e abre-se com largueza ao mesmo perdão que não receia pedir, vendo mesmo como um "curador ferido" (C. Jung). Todos podemos assumir essa perspectiva marcadamente antropológica:


Perdoar é igualar-se e considerar que, se um errou, pertence à minha espécie. O fato de eu não cometer aquele erro em particular apenas torna o erro alheio distinto dos meus, não me torna melhor dito de outro modo. Aquele que perdoa vai ao encontro de seu ofensor com uma compaixão que brota da consciência das próprias tendências negativas. De fato, o reconhecimento das próprias faltas favorece o propósito de perdoar. Assim como não há pecador sem futuro de santidade, não há também santo sem passado de pecador. Carentes de perdão, somos todos, sem exceção! Com efeito, perdoa mais generosamente quem passou pela experiência de ter sido perdoado. Às vezes, resulta mais exigente deixar que o outro nos perdoe. E é precisamente essa experiência de ser humanamente

perdoados que sinaliza para nós o perdão maior recebido de Deus. Perdão que nos irmana e iguala a todos.

Quando enfrentamos e assumimos nossa própria fraqueza, não cedemos.

Aprendemos a perdoar autenticamente quando reconhecermos nossa própria pecabilidade e nos permitirmos experimentar o perdão divino, pedindo e acolhendo o perdão de nossos irmãos e

facilmente de condenar à tentação de não nos recusarmos ao perdão. No horizonte da fé, a evidência se impõe ainda mais robusta:

A estrutura própria do sacramento da Reconciliação, com sua exigência de humildade e confiança, contrição e absolvição, apresenta-se como uma luminosa inspiração a quem deseja percorrer as sendas do perdão, dando-o e recebendo-o. A nobre virtude da humildade requer coragem para romper com as idealizações que fazemos a nosso respeito e para descer dos pedestais em que nos colocamos. Assim, podemos tocar de perto o húmus de nossa existência e torná-la mais fecunda, porque receptiva às exigências do amor.


Meditando com o texto acima, se chega à conclusão de que perdoar é um ato divino. Se Cristo nos perdoa, estando cada um, verdadeiramente arrependido e necessitado deste perdão, mudará a sua vivência diária, pois houve a aceitação do perdão de Deus. Isso é divino.

A graça do Senhor agirá naquele que se submeteu ao perdão e acentuadamente, sua vida transcorrerá mais leve, libertadora e sem o peso que decorre da falta de perdão.

Não importa se o outro não liberou o perdão, o que importa é quem decide perdoar. Está nele o amor de Deus e a partir daí, sua vida será melhor, mais abundante das graças e seu coração será curado e livre dos ressentimentos que paralisam o progresso espiritual.

Viver na perfeição de vida, nos exige não somente receber perdão, mas também, oferecê-lo gratuitamente por Jesus. E é Ele quem nos ensina esse ato heroico, virtuoso - ao perdoar todos os que O traíram e O mataram - pois a nossa natureza pecadora tende a se contrariar, enquanto não perceber que é humano errar; no entanto, dar o perdão, independentemente da gravidade do erro que o outro causou á quem perdoa, é divino.


Organização textual e finalização de Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos


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