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Palavras sem vida interior

Atualizado: 14 de set. de 2022




As palavras que brotam desses corações são "ociosas" porque do coração vazio nada se consegue tirar e, em consequência, nada de válido se pode expressar nem transmitir; só palavras "vãs". Não estará precisamente aí o segredo do crescente vazio verbal, reflexo do vazio espiritual, que é patente em muitos homens e mulheres; e a explicação da progressiva redução do vocabulário empregado nas conversas habituais? Se, como é fácil comprovar, cada vez se usam menos palavras e se usam de modo mais banal e redutivo, é porque há no interior dos homens pouca riqueza de ideias, valores, reflexões, sentimentos e ideais; é porque o egoísmo predominante num mundo materialista está a espalhar na sociedade como na História Sem Fim do escritor Michael Ende, o império do Nada, que tudo devora e reduz a si mesmo: a nada!


E neste ponto que se torna urgente falar no silêncio, matriz fecunda da palavra. Há pobreza de palavras porque há pobreza de silêncio. Toda a palavra vale aquilo que valer a sua raiz, que é o silêncio. Pois só são grandes e valiosas as palavras que se geraram no silêncio reflexivo, amoroso e orante.

Muitos são os que mergulham no silêncio apenas para "fugir", para dormir; ou utilizam mil técnicas a fim de atingir um silêncio simplesmente relaxante; ou exercitam a "meditação" com o pensamento bloqueado, suspenso num vácuo silencioso, em que julgam elevar-se e apenas dormitam. Sem darem por isso, buscam a paz do espírito na cinza, isto é, no vazio. Quando, na realidade, é preciso buscá-la no Fogo, ou seja, na Verdade e no Amor que vêm de Deus.

Só somos ricos se o formos diante de Deus, se não formos do gênero daquele rico miserável de quem Cristo dizia que entesoura para si mesmo e não é rico aos olhos de Deus (Lc 12, 21).


Como andamos de riqueza interior? Que amadureceu, dentro de nós, no silêncio fecundo da reflexão, da leitura, da oração? É nesse seio escondido que se vai formando com a graça de Deus e o nosso empenho - o verdadeiro "eu" de cada um de nós. Aí, no íntimo da alma do cristão que sabe orar, é que se elaboram em forma de critérios claros as luzes de Deus; aí, no silêncio sagrado do coração que reza, formam-se as convicções e enraízam-se as virtudes; aí se definem as linhas mestras da luta pessoal por melhorar cada dia um pouco mais; aí instala o seu laboratório permanente o amor, mestre de alquimias que transformam penas em alegrias, dificuldades em estímulos e mágoas em perdão. Quando um homem ou uma mulher, por terem amadurecido no silêncio, se vão tornando ricos aos olhos de Deus, desse "bom tesouro" podem ir tirando, sem ficarem pobres nem serem nunca monótonos, palavras eternamente vivas, que são como ramos viçosos a irromper em frutos, pela seiva de amor, verdade e Graça que os vivifica.


Um grande conhecedor da grandeza inefável do silêncio com Deus, Ernest Psichari,

escrevia: "A esses grandes espaços de silêncio que atravessaram a minha vida, devo eu afinal tudo o que em mim possa haver de bom. Pobres daqueles que não conheceram o silêncio! O silêncio, que faz mal e que faz bem, que faz bem com o mal! O silêncio que desliza como um grande rio sem escolhos. Por muitas vezes ele veio ter comigo, como um mestre bem-amado, e parecia ser um pouco de céu que descia até o homem para o tornar melhor. Então, eu parava cheio de amor e de respeito, porque o silêncio é também o mestre do amor."


Desses sagrados abismos de silêncio sai a palavra que dá vida, por ser reflexo e irradiação de Cristo, a Palavra que é Vida. Quem dera que pudéssemos dizer como São Paulo: Cristo vive em mim! (Gal 2, 20), porque então também Cristo falaria pela nossa boca.




Trechos do livro "A Língua" de Francisco Faus

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