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"Sou Aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações."

30 de jun. de 2022
9 min de leitura

Atualizado: 13 de ago.

Pintura a óleo de Deus Pai em estilo clássico, envolto em nuvens e luz dourada, com gesto de bênção e manto vermelho. A imagem transmite majestade divina, amor e misericórdia, refletindo a mensagem espiritual do site Conteúdos Católicos.

Diálogos de Deus Pai com Santa Catarina de Sena:


Diz Deus:

«O que desejo do homem, como frutos da ação, é que prove suas virtudes na hora oportuna. Talvez ainda te recordes! Quando, há muito tempo, desejavas fazer grandes penitências por minha causa e perguntavas: "Que mortificações eu poderia fazer por Ti?", eu te respondi no pensamento: "Sou Aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações".


Então era minha intenção mostrar-te que não Me comprazo no homem que apenas me chama por palavras: "Senhor, Senhor, gostaria de fazer algo por Ti", ou naquele que pretende mortificar o corpo com muitas macerações, mas sem destruir a vontade própria. Queria dizer-te que desejo ações varonis e pacientes, bem como as virtudes internas, de que falei acima, as quais são todas elas operativas e produtoras de bons frutos na graça.


Ações baseadas em outros princípios constituem para Mim meras palavras, realizações passageiras. Eu, qual ser infinito, quero ações infinitas, amor infinito.

Desejo que as mortificações e demais exercícios corporais sejam considerados como meios, não como fins. Se neles repousar o inteiro afeto da pessoa, ser-me-ia dado algo de finito, à semelhança de uma palavra que, ao sair da boca, já não existe, quando é pronunciada sem amor. Só o amor produz e revela a virtude!


Quando uma ação, que chamei com o nome de "palavra", está embebida de caridade, então Me agrada; já não se apresenta sozinha, mas acompanhada de discernimento verdadeiro, isto é, como ato que é meio para se atingir um objetivo superior.


Não é exato olhar a penitência ou qualquer ato externo como base e finalidade principal; são obras limitadas, seja porque praticadas durante esta vida passageira, seja porque um dia a pessoa terá que deixa-las por resolução pessoal ou por ordem alheia. Umas vezes a abandonará o homem coagido pela impossibilidade de continuar o que começou, e isto acontece em situações diversas; outras vezes por obediência à ordem do superior. Aliás, neste caso, se as continuar não terá merecimento algum e cometerá até uma falta.


Como percebes, as mortificações são coisas finitas e como tais hão de ser praticadas. São meios, não finalidade. Quem as assume como finalidade, sentir-se-á vazio quando tiver de abandoná-las. Foi quanto ensinou o glorioso apóstolo Paulo ao vos convidar em sua carta (Cl 3,5) a mortificar o corpo e a destruir a vontade própria, ou seja, a refrear o corpo mortificando a carne, quando ela se opõe ao espírito.


A vontade própria deve ser destruída e submetida à Minha. Tal coisa é feita pela virtude do discernimento, como expliquei antes, com o desprezo do pecado e da sensualidade, por efeito do autoconhecimento. Eis a espada que mata e corta todo egoísmo; eis os servidores que não me apresentam somente "palavras", mas ações. Eles formam o Meu prazer. É em tal sentido que afirmava Eu que desejo poucas palavras e muitas ações!


Ao dizer "muitas", não me refiro à quantidade. É o desejo da alma, alicerçado no amor que vivifica as virtudes, que há de atingir o infinito. Também não quis manifestar desprezo pela palavra! Apenas afirmei que desejava "poucas palavras", a indicar que todas as ações externas são finitas. Indiquei-as com o termo "poucas", mas elas bem que Me agradam quando são feitas como meios para adquirir a virtude, sem a conotação de objetivo principal.


Não se deve considerar como mais perfeito o grande penitente que arrasa o seu corpo, ao fazer a comparação com alguém que se mortifica menos. Como já disse, seu merecimento não está nisso. Se assim fosse, mal estaria quem por razões legítimas não pode fazer atos de penitência externa e vive unicamente na prática do amor, sob a luz do discernimento, sem poder agir diversamente. O discernimento leva o homem a amar-Me sem limites, sem restrições, já que Sou a Verdade suma e eterna. É relativamente ao amor ao próximo, que o discernimento impõe limites e formas de amar.


Ao brotar da caridade, o discernimento faz amar o próximo ordenadamente. Pela caridade exercida com retidão, ninguém pode pecar, prejudicando-se sob pretexto de ser útil aos outros. Não seria caridade com discernimento se alguém cometesse um só pecado para salvar o mundo inteiro do inferno ou para adquirir um grande ato de virtude. Seria falta de discernimento, pois é ilícito fazer uma grande ação virtuosa ou beneficente através de um ato pecaminoso.


O verdadeiro discernimento ordena-se da seguinte forma: faz o homem orientar todas as suas faculdades a Me servirem com virilidade e solicitude; amar o próximo realmente, mesmo sacrificando mil vezes a vida corporal, se fosse possível, para a salvação alheia; suportar dificuldades e aflições para que o outro possua a vida da graça; colocar os seus bens materiais a serviço do outro. Eis quanto realiza o discernimento na medida em que procede do amor.


Compreendes, assim, que o homem que deseja ter a graça, com discernimento tributar-Me-á amor infinito, sem restrições; quanto ao próximo, ter-lhe-á juntamente com esse amor infinito uma caridade ordenada, não se prejudicando com pecados sob pretexto de ajuda-lo. A esse respeito vos advertiu São Paulo (1Cor 13,1ss) que a caridade deve começar por si mesmo, pois de outra forma não seria de perfeita utilidade para os demais.


No caso de imperfeição interior, imperfeitas serão as obras feitas para si e para o próximo. Não é certo que alguém para salvar pessoas finitas e criadas por Mim, viesse a ofender-Me enquanto Bem infinito. Seria mais grave e de maiores proporções a culpa que o efeito decorrente. Por motivo algum, portanto, deves cometer o pecado. Sabe disto a caridade verdadeira, a qual possui a iluminação do discernimento santo.


O discernimento é uma luz que dissolve a escuridão, afasta a ignorância e alimenta as virtudes, bem como as ações externas que conduzem à virtude. Ele constitui uma atitude prudente que não padece enganos, uma atitude perseverante que não pode ser vencida.

O discernimento estende-se do céu à terra, isto é, do conhecimento do Meu ser até o conhecimento do próprio ser, do Meu amor ao amor pelo próximo. E sempre com humildade. Prudentemente ele evita e sai ileso de todos os laços do demônio e dos homens. Sem outras armas além da paciência, ele superou o demônio. Mediante essa doce e gloriosa iluminação, a carne reconheceu a própria fraqueza; desprezou-se; venceu o mundo; submeteu-o a um amor maior; envileceu-o; como senhor, dele fez caçoada!


Devido ao discernimento, os seguidores do mundo são incapazes de destruir as virtudes internas; ao contrário, suas perseguições até as fazem aumentar, servindo-lhes de prova. Como indiquei, as virtudes são concebidas interiormente no amor e depois se revelam, exteriorizam-se através do próximo. Assim, se as virtudes não se mostrarem, agindo exteriormente no tempo da perseguição, é sinal de que não se tratava de verdadeira virtude interna.


Já disse e expliquei que uma virtude não será perfeita, nem frutificará, senão em benefício dos homens. Acontece como para a mulher que concebeu um filho; enquanto não der à luz a criança, de modo que a veja a sociedade, seu marido não dirá que tem um filho. Sucede o mesmo Comigo, esposo da alma; até que a pessoa não exteriorize sua virtude no amor do homem, revelando-a de acordo com as urgências em geral ou em particular, afirmo que na realidade não é interiormente virtuosa. O mesmo afirmo quanto aos vícios, pois todos eles são cometidos contra os homens.

Da obra: O Diálogo de Santa Catarina de Sena


Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos


✅ Síntese do Conteúdo

A Força das Ações que Nascem do Amor: Uma Leitura Teológica da Vida Interior


Em uma época caracterizada pela abundância de discursos e pela escassez de ações consistentes, impõe-se a necessidade de restaurar uma visão espiritual que reconduza o ser humano à verdade do seu chamado: uma vida coerente, fecunda e capaz de gerar transformação. A frase divina dirigida a Santa Catarina de Sena, “Sou Aquele que gosta de poucas palavras e de muitas ações” não é apenas uma advertência mística, é um princípio de vida que confronta a superficialidade, purificando intenções e que orienta o coração para uma caridade madura. O artigo que analisei, oferece uma pedagogia profunda sobre o valor das ações, o papel das mortificações, a centralidade do amor e a luz indispensável do discernimento. Esta apresentação procura demonstrar como cada elemento dessa revelação compõe uma verdadeira arquitetura espiritual, capaz de formar homens e mulheres que não apenas falam de Deus, mas O encarnam nas suas escolhas. A afirmação divina dirigida a Catarina apresenta-se como resposta ao ardente desejo da santa de empreender severas penitências por amor a Deus, contudo, o Senhor corrige a inclinação humana de identificar exterioridade com santidade, esclarecendo que não encontra verdadeira complacência no indivíduo que recorre apenas à invocação verbal ou que submete o corpo a mortificações sem antes ordenar e renunciar a sua própria vontade. Aqui se delineia o primeiro eixo desta reflexão: a verdadeira ação brota da transformação interior e não da mera multiplicação de gestos visíveis. Deus deseja ações “varonis e pacientes”, isto é, atos que brotam das virtudes internas e produzem frutos na graça. Ações baseadas em princípios errados são meras palavras, passageiras e vazias. Sendo Deus infinito, Ele deseja ações infinitas, não em quantidade, mas em qualidade, porque só o amor infinito pode vivificar a virtude. Este ponto é decisivo: a ação que agrada a Deus não é medida pelo esforço corporal, mas pela intensidade da caridade que a anima. As mortificações corporais são apresentadas como meios, nunca como fins. Quando o afeto repousa inteiramente nelas, o homem oferece a Deus algo finito, semelhante a uma palavra que se dissipa ao ser pronunciada sem amor. A penitência só é agradável quando embebida de caridade e discernimento, orientada para um objetivo superior, por isso, não se deve considerar a penitência como base da perfeição, pois é limitada e pode ser abandonada por impossibilidade ou obediência, sem que isso diminua o mérito espiritual. O desenvolvimento desta reflexão, evidencia que aquele que transforma a mortificação no seu objetivo, será inevitavelmente e experimentará o vazio ao abandoná-la. São Paulo ensina que a autêntica mortificação consiste na destruição da vontade própria e na sua submissão à vontade divina, conforme exorta na carta aos Colossenses (Cl 3,5), ao convidar os fiéis a mortificar o corpo e a extirpar tudo aquilo que se opõe à vida nova em Cristo. Tal submissão nasce do discernimento, fruto do autoconhecimento, que conduz ao desprezo do pecado e da sensualidade. Desse modo, revela-se o segundo eixo desta análise: a santidade é uma obra interior que exige lucidez, humildade e um combate constante contra o egoísmo. O discernimento é apresentado como espada que corta todo egoísmo e distingue os verdadeiros servidores de Deus, aqueles que não oferecem apenas palavras, mas ações. Quando Deus afirma desejar “poucas palavras e muitas ações”, Ele não despreza a palavra, mas indica que todas as ações externas são finitas e só têm valor quando ordenadas à virtude. A comparação entre penitentes reforça que o mérito não está na quantidade de mortificações, mas na caridade iluminada pelo discernimento. Quem não pode realizar penitências externas, mas vive no amor, não está em desvantagem espiritual. O discernimento conduz o ser humano a amar Deus sem limites e o próximo segundo limites justos, impedindo que alguém peque sob o pretexto de fazer o bem, por isso, ninguém pode justificar um pecado nem mesmo para salvar o mundo inteiro, pois tal atitude constituiria falta de discernimento e ofensa ao Bem infinito. É o discernimento que ordena todas as faculdades para o serviço de Deus com firmeza interior, para o amor ao próximo até ao sacrifício e para a reta administração dos bens materiais em favor dos outros. Ele dissipa a ignorância, alimenta as virtudes e preserva o homem dos enganos do demônio e das ilusões humanas, formando a paciência que vence o inimigo, reconhece a fragilidade da carne e submete o mundo ao primado de um amor maior. As virtudes, concebidas no interior, devem manifestar-se no amor ao próximo, caso contrário, permanecem incompletas e não podem ser consideradas verdadeiras virtudes. Assim como uma mulher só é reconhecida como mãe quando dá à luz, também Deus reconhece a virtude apenas quando ela se exterioriza em obras concretas de caridade. Do mesmo modo, os vícios revelam inevitavelmente a sua presença através de ações que ferem o próximo, evidenciando que a vida moral é inseparável da relação com os outros.


Faço a minha conclusão afirmando que esta reflexão evidencia uma espiritualidade profundamente encarnada, que desmascara a ilusão de uma fé reduzida a palavras ou a práticas exteriores. Deus chama o ser humano a uma existência configurada pela caridade, iluminada pelo discernimento e purificada do egoísmo, para que cada ação seja expressão viva da graça. A santidade autêntica não se mede pela quantidade de penitências, mas pela qualidade do amor, não se define pela aparência das obras, mas pela sua raiz interior e não se apoia na vontade própria, mas na conformidade amorosa com a vontade divina. Este artigo revela que o caminho cristão é uma caminhada harmoniosa entre interioridade e exterioridade, entre contemplação e ação, entre o amor infinito a Deus e a caridade ordenada ao próximo. Acolher e viver esta verdade é decisivo para quem deseja uma fé madura, coerente e transformadora. Por isso, o conteúdo exposto não é apenas edificante, é uma exigência essencial para todos os que procuram uma vida espiritual autêntica, capaz de unir poucas palavras e muitas ações.


Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos


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