Sofrem as almas do Purgatório? O fogo que purifica, segundo a Igreja
Sofrem as almas do Purgatório? A pergunta é antiga e vem muitas vezes acompanhada de palavras duras: chamas, tormentos, suplícios. Há quem sinta medo. Há quem sinta pena dos que já partiram. A Igreja responde com mais serenidade e com mais esperança do que essas palavras fazem supor. Ensina que há uma purificação, que ela é obra do amor de Deus e que termina na alegria do Céu. Vamos ver o que é de fé, o que são imagens e de que modo o nosso amor chega às almas.

O que diz a Igreja: há uma purificação
O Catecismo da Igreja Católica usa mesmo a palavra «sofrem». No n.º 1030 lê-se que os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda não totalmente purificados, «embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu».
Repare-se no que a frase diz. Quem passa por esta purificação já está salvo. Não está à espera de saber se se salva. O n.º 1031 acrescenta que o Purgatório é «absolutamente distinto do castigo dos condenados». Não é um Inferno mais curto. É o último passo de um caminho que Deus já começou.
Nestes números, o Catecismo não descreve tormentos concretos nem mede a dor. Diz que há purificação e diz para que serve. Por isso, quando ouvir pormenores (no Brasil, detalhes) muito precisos sobre o que as almas sofrem, convém perguntar de onde vêm.
Que sofrimento é este?
Bento XVI, na encíclica Spe Salvi (n.º 46), olha para as pessoas com realismo. Na maioria, supõe o Papa, perdura «no mais profundo da sua essência uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus». Mas essa abertura ficou muitas vezes coberta por escolhas erradas ao longo da vida. O que acontece a essas pessoas diante de Deus? Acontece a purificação.
O Catecismo (n.º 1472) explica a raiz. Todo o pecado, mesmo venial, «traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte». Soltar esse apego custa. Pense em largar um hábito antigo ou em pedir perdão a quem magoámos: dói e, ao mesmo tempo, liberta. É uma imagem simples, e não uma definição da Igreja. Ajuda a ver que este sofrimento não nasce de um Deus que se vinga. O mesmo número diz que estas penas não são «uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior», mas algo «decorrente da própria natureza do pecado».

O fogo: uma imagem para o que não vemos
A Tradição fala de um «fogo purificador» (Catecismo, n.º 1031). O Catecismo cita, a este propósito, São Gregório Magno, que fala de um fogo purificador, antes do julgamento, para certas faltas leves. E São Paulo escreve que alguém será salvo «como que através do fogo» (1 Coríntios 3, 12-15).
Que fogo é este? Bento XVI responde com humildade. São Paulo usa imagens que «querem exprimir o invisível, mas sem as podermos transformar em conceitos, pelo simples motivo de que não nos é possível entrever o mundo além da morte nem possuímos qualquer experiência dele» (Spe Salvi, n.º 46). O fogo diz-nos que a purificação é real e é séria. Não nos dá um retrato exato do que acontece lá.
Uma dor feliz
Bento XVI recorda que alguns teólogos recentes pensam que o fogo que ao mesmo tempo queima e salva é o próprio Cristo. Não é uma definição da Igreja, mas é uma luz bonita. Nessa leitura, é o encontro com Cristo que nos transforma. Diante do seu olhar, desfaz-se o que é falso. E o Papa escreve: «é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus» (Spe Salvi, n.º 47).
É isto que muda a pergunta. Em vez de imaginar apenas chamas que fazem sofrer, podemos imaginar um amor que cura. No mesmo número, Bento XVI diz que «a dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria».
Não estão sós: o amor chega às almas
Aqui está o consolo. As almas do Purgatório não estão esquecidas nem separadas de nós. O Catecismo (n.º 1475) fala de «um constante laço de amor e uma abundante permuta de todos os bens» entre os fiéis que estão no Céu, os que se purificam e os que ainda caminham na terra. É a comunhão dos santos.
Por isso a Igreja reza pelos defuntos desde os primeiros tempos, oferecendo sufrágios, «particularmente o Sacrifício eucarístico» (n.º 1032). Sufrágio é uma oração ou uma obra boa oferecida por quem morreu. O Catecismo cita ainda São João Crisóstomo: «Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações».
Bento XVI chama «uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos» à certeza de que o amor pode chegar além da morte, e acrescenta que ainda hoje é «uma experiência reconfortante». Lembra também que «ninguém vive só» e que «ninguém se salva sozinho» (Spe Salvi, n.º 48). Não sabemos de que modo Deus acolhe cada oração. Confiamos na Sua misericórdia.

Como ajudar as almas do Purgatório
Assistir à Santa Missa e oferecê-la por um falecido, ou pedir uma Missa pela sua intenção.
Rezar por eles: o terço ou uma oração breve ao longo do dia.
Dar esmola e fazer um gesto de caridade em memória de quem partiu.
Oferecer pequenas obras de penitência, como um sacrifício do dia, por essa intenção.
Obter indulgências, nas condições estabelecidas pela Igreja, e oferecê-las pelos defuntos (Catecismo, n.º 1479).
Visitar o cemitério e rezar junto das sepulturas.
Para saber mais sobre as indulgências, leia As indulgências e o Purgatório e Indulgência plenária.
A purificação começa já nesta vida
O Catecismo (n.º 1473) pede ao cristão que procure «aceitar, como uma graça, estas penas temporais do pecado, suportando pacientemente os sofrimentos e as provações de toda a espécie». Fá-lo pelas obras de misericórdia e de caridade, pela oração e pela penitência. Quem vive assim já deixa que Deus lhe purifique o coração. Não se trata de viver com medo do Purgatório, mas de viver já em esperança.
Finados e novembro
A 2 de novembro, a Igreja celebra a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (Dia de Finados). Em novembro, os cemitérios enchem-se de flores e de orações. É um bom tempo para ir à Missa, visitar a sepultura de um familiar e rezar por quem já partiu. A saudade não precisa de ser escondida. Pode ser entregue a Deus e transformada em oração.

Uma oração pelos falecidos
Senhor, que sois misericórdia e verdade, acolhei as almas dos nossos falecidos. Curai neles o que ainda os prende, purificai-os com o fogo do vosso amor e levai-os à alegria do vosso Reino. Dai-nos a nós a esperança de quem sabe que o amor não termina com a morte. Ámen (no Brasil, Amém).






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