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Sofrem as almas do Purgatório? O fogo que purifica, segundo a Igreja

há 2 horas
5 min de leitura

Sofrem as almas do Purgatório? A pergunta é antiga e vem muitas vezes acompanhada de palavras duras: chamas, tormentos, suplícios. Há quem sinta medo. Há quem sinta pena dos que já partiram. A Igreja responde com mais serenidade e com mais esperança do que essas palavras fazem supor. Ensina que há uma purificação, que ela é obra do amor de Deus e que termina na alegria do Céu. Vamos ver o que é de fé, o que são imagens e de que modo o nosso amor chega às almas.

Pintura de Nossa Senhora com o Menino sob um manto vermelho aberto por anjos; em baixo, almas entre chamas e dois anjos.
Nossa Senhora do Carmo salva as almas do Purgatório, círculo de Diego Quispe Tito, final do século XVII. Brooklyn Museum. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O que diz a Igreja: há uma purificação


O Catecismo da Igreja Católica usa mesmo a palavra «sofrem». No n.º 1030 lê-se que os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas ainda não totalmente purificados, «embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu».

Repare-se no que a frase diz. Quem passa por esta purificação já está salvo. Não está à espera de saber se se salva. O n.º 1031 acrescenta que o Purgatório é «absolutamente distinto do castigo dos condenados». Não é um Inferno mais curto. É o último passo de um caminho que Deus já começou.

Nestes números, o Catecismo não descreve tormentos concretos nem mede a dor. Diz que há purificação e diz para que serve. Por isso, quando ouvir pormenores (no Brasil, detalhes) muito precisos sobre o que as almas sofrem, convém perguntar de onde vêm.


Que sofrimento é este?


Bento XVI, na encíclica Spe Salvi (n.º 46), olha para as pessoas com realismo. Na maioria, supõe o Papa, perdura «no mais profundo da sua essência uma derradeira abertura interior para a verdade, para o amor, para Deus». Mas essa abertura ficou muitas vezes coberta por escolhas erradas ao longo da vida. O que acontece a essas pessoas diante de Deus? Acontece a purificação.

O Catecismo (n.º 1472) explica a raiz. Todo o pecado, mesmo venial, «traz consigo um apego desordenado às criaturas, o qual precisa de ser purificado, quer nesta vida quer depois da morte». Soltar esse apego custa. Pense em largar um hábito antigo ou em pedir perdão a quem magoámos: dói e, ao mesmo tempo, liberta. É uma imagem simples, e não uma definição da Igreja. Ajuda a ver que este sofrimento não nasce de um Deus que se vinga. O mesmo número diz que estas penas não são «uma espécie de vingança, infligida por Deus, do exterior», mas algo «decorrente da própria natureza do pecado».

Pintura em tons de azul com uma multidão de rostos envoltos em névoa; em primeiro plano, um homem de olhar erguido.
Entrada do Purgatório (Eingang zum Purgatorium), de Theo Schmuz-Baudiß, 1892. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O fogo: uma imagem para o que não vemos


A Tradição fala de um «fogo purificador» (Catecismo, n.º 1031). O Catecismo cita, a este propósito, São Gregório Magno, que fala de um fogo purificador, antes do julgamento, para certas faltas leves. E São Paulo escreve que alguém será salvo «como que através do fogo» (1 Coríntios 3, 12-15).

Que fogo é este? Bento XVI responde com humildade. São Paulo usa imagens que «querem exprimir o invisível, mas sem as podermos transformar em conceitos, pelo simples motivo de que não nos é possível entrever o mundo além da morte nem possuímos qualquer experiência dele» (Spe Salvi, n.º 46). O fogo diz-nos que a purificação é real e é séria. Não nos dá um retrato exato do que acontece lá.


Uma dor feliz


Bento XVI recorda que alguns teólogos recentes pensam que o fogo que ao mesmo tempo queima e salva é o próprio Cristo. Não é uma definição da Igreja, mas é uma luz bonita. Nessa leitura, é o encontro com Cristo que nos transforma. Diante do seu olhar, desfaz-se o que é falso. E o Papa escreve: «é uma dor feliz, em que o poder santo do seu amor nos penetra como chama, consentindo-nos no final sermos totalmente nós mesmos e, por isso mesmo totalmente de Deus» (Spe Salvi, n.º 47).

É isto que muda a pergunta. Em vez de imaginar apenas chamas que fazem sofrer, podemos imaginar um amor que cura. No mesmo número, Bento XVI diz que «a dor do amor torna-se a nossa salvação e a nossa alegria».


Não estão sós: o amor chega às almas


Aqui está o consolo. As almas do Purgatório não estão esquecidas nem separadas de nós. O Catecismo (n.º 1475) fala de «um constante laço de amor e uma abundante permuta de todos os bens» entre os fiéis que estão no Céu, os que se purificam e os que ainda caminham na terra. É a comunhão dos santos.

Por isso a Igreja reza pelos defuntos desde os primeiros tempos, oferecendo sufrágios, «particularmente o Sacrifício eucarístico» (n.º 1032). Sufrágio é uma oração ou uma obra boa oferecida por quem morreu. O Catecismo cita ainda São João Crisóstomo: «Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações».

Bento XVI chama «uma convicção fundamental do cristianismo através de todos os séculos» à certeza de que o amor pode chegar além da morte, e acrescenta que ainda hoje é «uma experiência reconfortante». Lembra também que «ninguém vive só» e que «ninguém se salva sozinho» (Spe Salvi, n.º 48). Não sabemos de que modo Deus acolhe cada oração. Confiamos na Sua misericórdia.

Pintura de Cristo sobre nuvens, entre anjos; em baixo, almas entre chamas erguem os braços e figuras ajoelhadas rezam.
A libertação das almas do Purgatório, de Ercole Ramazzani, 1586. Igreja de San Francesco, Matelica. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Como ajudar as almas do Purgatório

  • Assistir à Santa Missa e oferecê-la por um falecido, ou pedir uma Missa pela sua intenção.

  • Rezar por eles: o terço ou uma oração breve ao longo do dia.

  • Dar esmola e fazer um gesto de caridade em memória de quem partiu.

  • Oferecer pequenas obras de penitência, como um sacrifício do dia, por essa intenção.

  • Obter indulgências, nas condições estabelecidas pela Igreja, e oferecê-las pelos defuntos (Catecismo, n.º 1479).

  • Visitar o cemitério e rezar junto das sepulturas.

Para saber mais sobre as indulgências, leia As indulgências e o Purgatório e Indulgência plenária.


A purificação começa já nesta vida


O Catecismo (n.º 1473) pede ao cristão que procure «aceitar, como uma graça, estas penas temporais do pecado, suportando pacientemente os sofrimentos e as provações de toda a espécie». Fá-lo pelas obras de misericórdia e de caridade, pela oração e pela penitência. Quem vive assim já deixa que Deus lhe purifique o coração. Não se trata de viver com medo do Purgatório, mas de viver já em esperança.


Finados e novembro


A 2 de novembro, a Igreja celebra a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (Dia de Finados). Em novembro, os cemitérios enchem-se de flores e de orações. É um bom tempo para ir à Missa, visitar a sepultura de um familiar e rezar por quem já partiu. A saudade não precisa de ser escondida. Pode ser entregue a Deus e transformada em oração.

Pintura de anjos de branco numa nuvem de luz; em baixo, pessoas abatidas, uma com o rosto nas mãos, junto de uma cruz.
As almas no Purgatório (Les âmes dans le purgatoire), de Louis Boulanger, 1850. Igreja de Saint-Roch, Paris. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Uma oração pelos falecidos


Senhor, que sois misericórdia e verdade, acolhei as almas dos nossos falecidos. Curai neles o que ainda os prende, purificai-os com o fogo do vosso amor e levai-os à alegria do vosso Reino. Dai-nos a nós a esperança de quem sabe que o amor não termina com a morte. Ámen (no Brasil, Amém).


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