Santos e pessoas virtuosas que tiveram o dom da inédia
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- 31 de mai. de 2022
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Atualizado: há 22 horas

Inédia significa a total abstinência de alimento e inediata é a pessoa que vive sem comer e até sem beber. São casos realmente raros e, quando autênticos, associados a graças extraordinárias concedidas por Deus para bem da própria pessoa e edificação do próximo. O juízo sobre a autenticidade e heroicidade das virtudes das pessoas em questão só pode ser emitido pela Santa Igreja. Segue-se uma relação de casos de inédia, ou de pessoas que se alimentavam muito pouco. 1 - LUISA PICCARRETA (23/4/1865-4/3/1947) Corato, Itália Provavelmente o caso mais extraordinário de inédia é o da Sra. Piccarreta. Ela permaneceu nada menos que 64 anos alimentando‑se tão somente da Santa Eucaristia. Há depoimentos de contemporâneos que presenciaram esta “Pequena Filha da Vontade Divina”. Além de não se alimentar, quando tentaram alimentá-la verificaram que ela “devolveu” toda a comida servida, “intacta e cheirosa, como se tivesse acabado de ser servida naquele instante…” Embora não tivesse educação formal, deixou‑nos 36 volumes de escritos espirituais profundos onde é narrada toda a sua experiência de convívio diário com Jesus. Em 1994, por solicitação do Papa João Paulo II e do Cardeal Ratzinger, o Cardeal Felici, Prefeito da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos, instruiu o Arcebispo Carmelo Cassati, Presidente do Tribunal Eclesiástico pela Causa de Beatificação a iniciar o Processo da sua Beatificação. Os seus biógrafos citam ainda fatos extraordinários mesmo após a sua morte: permaneceu livre da corrupção e rigidez cadavérica e repleta de “odor de santidade”. 2 - MARTHE ROBIN (13/03/1902-06/02/1981) Chateauneuf‑de‑Galaure, França Marthe permaneceu 50 anos alimentando‑se tão somente da Santa Comunhão. Em 25 de outubro de 1925, então com 23 anos, consagrou toda a sua vida a Deus num “ato de entrega ao amor e vontade de Deus”: -”Senhor meu Deus, pedistes tudo da sua vil serva; tomai‑a e recebei tudo. Neste dia, entrego‑me a Vós sem reserva e sem retorno".
Nos anos seguintes, tomada pela paralisia dos membros inferiores, e depois dos superiores, foi obrigada a permanecer no leito. Não mais comia, nem bebia, e nem dormia. Em 1930, recebeu os estigmas de Cristo e a cada semana experimentava a Sua Paixão.
Em 1940 perdeu a visão, que ofereceu de bom grado pela França. Inspirou a fundação das Casas de Caridade que se espalharam pelo mundo (aproximadamente 60 atualmente). Em 23 de maio de 1991, foi aberto o processo da sua Beatificação pelo Bispo Marchand de Valence. O resultado do inquérito foi entregue à Congregação para a Causa dos Santos em Roma na Festa de Pentecostes em 1996.
“O sofrimento (em expiação) é a escola incomparável do verdadeiro Amor”. (Marthe Robin) 3 - THERESE NEUMANN (9/4/1898-18/9/1962) A mística alemã nascida numa Sexta‑feira Santa, curada da cegueira, paralisia, apendicite, pneumonia, surdez e problemas digestivos, através da intercessão de Sta. Teresinha do Menino Jesus, de quem era devota, permaneceu nada menos que 36 anos sem água ou alimentação, vivendo apenas com a Santa Eucaristia. As investigações posteriores mostraram que o seu estômago havia atrofiado. Houve muitas pesquisas científicas para detectar uma possível fraude. Entretanto, foi motivo de casos concretos de conversão como a do Dr. Fritz Gerlick e de testemunho positivo do “yogi” Paramahansa Yogananda, que a conheceu em 1935. 4 - BEATA ANNE CATHERINE EMMERICH (8/9/1774-9/2/1824) Esta religiosa agostiniana, nascida em Flamske, Westfália, Alemanha, tinha o uso da razão desde o seu nascimento e pode entender o Latim litúrgico desde a sua primeira Missa a que assistiu, em sua tenra idade. Viveu seus últimos 12 anos somente da Santa Eucaristia e um pouco de água. Possuía o dom da profecia, lia os corações, e via em detalhes os fatos da Fé Católica. Em 1802 recebeu os estigmas da Coroa de Espinhos de Jesus, tendo sido contemplada com todos os outros estigmas a partir de 1812. 5 - LOUISE LATEAU (1850-1883) Belga, de Bois d´Haine, se consagrou aos dezesseis anos para se dedicar ao auxílio às vítimas de cólera da sua Paróquia, abandonadas por familiares e amigos. Aos dezoito, tornou‑se visionária e estigmatizada. Viveu 12 anos somente da Comunhão Semanal e 3 ou 4 copos de água por semana. Nunca dormia, passando suas noites em contemplação e oração, ajoelhada aos pés da sua cama. 6 - MARIE‑JULIE JAHENNY DE LA FRAUDAIS (12/2/1850-4/3/1941) Conhecida como a “estigmatizada bretã”, nasceu numa cidadezinha chamada Blain, na região da Bretanha. Mais velha dos cinco irmãos, seus pais eram simples, porém devotos. Teve as primeiras graças na época da sua Primeira Comunhão, às quais retribuiu com maior devoção. Ingressou na Ordem Terceira Franciscana aproximadamente com vinte anos para se santificar ao mundo. Em 1873 recebeu os estigmas que carregou por 60 anos. Tinha freqüentemente visões de Jesus e Maria Santíssima, assim como dom da profecia. Sobreviveu por cinco anos apenas com a Santa Comunhão a partir de 28 de dezembro de 1875. Segundo relatório de Dr. Imbert‑Gourbeyre, durante todo esse período não houve excreções líquidas ou sólidas. Durante seus êxtases era totalmente insensível às dores, luzes intensas, chegando às vezes à levitação. Foi acompanhada continuamente por uma comissão médica. 7 - SANTA LIDWINA DE SCHIEDAM (18/4/1380-14/4/1433) Holandesa. Seu pai era um nobre empobrecido e sua mãe, plebéia. Já na tenra idade Ludwina mostrava grande devoção à Nossa Senhora de Schiedam. Ferida num acidente de patinação de gelo aos 16 anos, a sua costela fraturada causou gangrena que teve que suportar por décadas. Visionária, os milagres aconteciam próximos ao seu leito. Algumas vezes foi acusada de estar possessa e examinada pelos Sacerdotes. A sua última visão foi de Cristo administrando‑lhe os últimos Sacramentos. Conta‑se que o seu único alimento nos seus últimos 19 anos era a Sagrada Eucaristia. Canonizada em 14 de março de 1890 pelo Papa Leão XIII. A sua biografia foi escrita pelo Tomás de Kempis. 8 - SÃO NICHOLAS von FLUE (1417-1487) Casado com Dorothea Wissling, pai de 10 filhos, embora leigo, atuou como um verdadeiro mediador de Deus no caso da deposição do Papa Eugênio IV em 1439 pelos Cardeais rebeldes que elegeram o anti‑papa Felipe V. Aos 50 anos, com o consentimento da esposa e dos filhos recebeu permissão especial para se tornar eremita, e passou 19 anos alimentando‑se somente da Sagrada Eucaristia em reparação por tudo que se cometia contra a Santa Igreja Católica. Canonizado em 1947. Memorial em 21 de março. 9 - BEM‑AVENTURADA ALPAIS DE CUDOT (+1211) Camponesa pobre, nascida em Cudot, Sens, França, viveu presa ao leito por causa da lepra. Assistia às Missas num cubículo especialmente preparado para ela. Por muitos anos viveu somente da Comunhão. Foi conselheira da Rainha Adela da França e na hora da sua morte foi milagrosamente curada pela intercessão da Nossa Senhora. Beatificada em 1874 pelo Papa Pio IX. 10 - SÃO MAXIMILIANO MARIA KOLBE São Maximiliano Kolbe morreu no campo nazista de Auschwitz em 14 de agosto de 1941, após ser deixado no “bunker” para morrer de inanição por mais de duas semanas, tomando o lugar de um jovem soldado, pai de família. Os nazistas vendo que ele surpreendentemente resistia, apesar de nenhuma alimentação, aplicaram‑lhe uma injeção letal. Assim como Santo Estanislau Kotska, São Maximiliano foi levado ao Céu para participar da Festa da Assunção da Nossa Senhora, ou seja, no dia 15 de agosto. 11 - SÃO PAULO, O EREMITA OU DE TEBAS
Nasceu em 230, numa família cristã de classe alta. Foi bem‑educado. Seus pais faleceram quando ele tinha 15 anos. Fugiu para o deserto para escapar da perseguição de Décio e das maquinações dos parentes que cobiçavam os seus bens. Permaneceu ali o resto dos seus 112 anos, vivendo somente de frutas e água, vestindo‑se de folhas e em oração constante. Conheceu e conviveu com Santo Antônio, o Abade. A sua biografia foi escrita por São Jerônimo. Faleceu em 5 de janeiro de 342.
✅ Síntese do Conteúdo
A Eucaristia Como Vida: Minha Meditação Sobre a Inédia dos Santos
Ao aprofundar‑me no mistério da inédia, descubro-me diante de um fenômeno que ultrapassa qualquer explicação natural. Para mim, a inédia, essa abstinência total de alimento é por vezes, até de água, não é apenas um fato extraordinário, mas um sinal concreto de que Deus, quando quer, suspende as leis ordinárias da natureza para revelar algo de Si mesmo. Ao contemplar esses testemunhos, percebo que não se trata de curiosidades espirituais, mas de manifestações de uma intimidade radical entre a criatura e o Criador, sempre orientadas para a edificação da Igreja e para a conversão dos corações.
Quando leio sobre essas vidas, sinto-me provocado a rever a minha própria relação com o corpo, com o sofrimento, com a graça e com a Eucaristia. Cada um desses homens e mulheres viveu algo que, humanamente, seria impossível e no entanto, Deus os sustentou de modo direto, como que antecipando a realidade da vida eterna, onde Ele será tudo em todos.
Minha contemplação pessoal sobre os testemunhos dos santos que viveram o dom da inédia.
Ao conhecer a história de Luisa Piccarreta, impressiono-me profundamente. Imagino o que significaria viver 64 anos alimentando-me apenas da Eucaristia, incapaz de reter qualquer alimento comum, devolvendo-o intacto. Para mim, isso revela uma união tão íntima com Cristo que o próprio corpo passa a depender exclusivamente d’Ele. O fato de ela ter deixado 36 volumes de escritos espirituais, mesmo sem educação formal, reforça em mim a convicção de que Deus capacita quem Ele escolhe. Sua vida inteira me fala de abandono total à Vontade Divina.
Ao meditar sobre Marthe Robin, sinto-me tocado por sua entrega absoluta. Ela não apenas deixou de comer e beber, mas também deixou de dormir, vivendo décadas imersa em oração e sofrimento oferecido. Imagino o que seria experimentar semanalmente a Paixão de Cristo, receber estigmas, perder a visão e ainda assim oferecer tudo pela França. A frase dela “O sofrimento é a escola incomparável do verdadeiro Amor”, ressoa em mim como um chamado à maturidade espiritual.
A vida de Therese Neumann me confronta com a força da graça. Curada de múltiplas doenças pela intercessão de Santa Teresinha, ela viveu 36 anos sem água ou alimento, sustentada apenas pela Eucaristia. Ao imaginar seu estômago atrofiado e ainda assim, sua vitalidade espiritual, percebo que a lógica divina não se submete às limitações biológicas. Sua vida foi tão impactante que até estudiosos e buscadores espirituais de outras tradições reconheceram nela algo sobrenatural.
Ao refletir sobre Emmerich, sinto-me diante de uma alma que vivia simultaneamente na terra e no céu. Ela compreendia o latim litúrgico desde criança, tinha visões detalhadas da vida de Cristo e recebeu estigmas profundos. Viver seus últimos 12 anos apenas com a Eucaristia e um pouco de água me faz pensar na profundidade de sua missão profética e na seriedade com que Deus a escolheu para revelar mistérios ocultos.
A história de Louise Lateau me inspira pela simplicidade e pela caridade. Uma jovem que se dedicou aos doentes de cólera e que, aos 18 anos, tornou-se visionária e estigmatizada. Imagino o que seria passar noites inteiras ajoelhado, sem dormir, em contemplação. Sua vida me ensina que a santidade não exige notoriedade, mas fidelidade.
Ao contemplar Marie‑Julie, percebo uma alma marcada pela cruz. Carregar estigmas por 60 anos, sobreviver cinco anos apenas com a Comunhão e viver êxtases acompanhados por médicos me faz reconhecer que Deus, às vezes, transforma o sofrimento em um sacramento vivo. Sua insensibilidade à dor durante os êxtases e até episódios de levitação me lembram que o sobrenatural não é fantasia, mas realidade para quem vive unido a Cristo.
A vida de Santa Lidwina me toca pela perseverança. Ferida aos 16 anos, viveu décadas de sofrimento físico extremo, mas transformou seu leito em altar. Saber que seus últimos 19 anos foram sustentados apenas pela Eucaristia me faz refletir sobre a força da graça em meio à dor. Sua canonização e sua biografia escrita por Tomás de Kempis reforçam a autenticidade de sua vida mística.
Ao pensar em Nicholas, vejo um homem de família que, mesmo casado e pai de dez filhos, foi chamado a uma vida eremítica. Viver 19 anos apenas da Eucaristia, oferecendo-se pela Igreja, me faz perceber que a santidade assume formas diversas. Sua atuação como mediador em crises eclesiais mostra que a contemplação verdadeira sempre transborda em missão.
A história da Beata Alpais de Cudot, me revela a força da humildade. Uma camponesa leprosa, presa ao leito, que viveu anos apenas da Comunhão e ainda assim aconselhou até a realeza. Imagino o que significa ser curada milagrosamente no momento da morte, um sinal de que Deus honra os pequenos e os escondidos.
São Maximiliano Kolbe, me confronta com o amor mais radical: dar a vida pelo outro. Mesmo no bunker da fome em Auschwitz, resistiu semanas sem alimento, sustentado pela graça. Para mim, sua morte não foi derrota, mas triunfo, ele entrou no céu no dia da Assunção, como se Nossa Senhora o tivesse conduzido pela mão.
Ao refletir sobre São Paulo de Tebas, vejo o arquétipo do eremita cristão. Fugindo da perseguição, viveu 112 anos no deserto, alimentando-se apenas de frutas e água. Sua vida me lembra que a santidade pode florescer no silêncio, longe dos olhares humanos, mas sempre sob o olhar de Deus.
Ao reunir esses testemunhos, reconheço que a inédia jamais se apresenta como um ponto de chegada, mas como um sinal luminoso, um sacramento vivo, uma linguagem pela qual Deus rompe os limites do natural para revelar que:
- A Eucaristia é alimento real, capaz de sustentar o corpo e a alma;
- A graça pode superar as leis naturais quando isso serve ao bem das almas;
- O sofrimento, unido a Cristo, torna-se fecundo;
- A santidade assume formas diversas, mas sempre nasce da entrega total.
Ao contemplar essas vidas, sinto-me chamado a aprofundar minha fé, a rever minha relação com a Eucaristia e buscar uma união mais íntima com Deus, mesmo sabendo que Ele não me pede inédia, mas fidelidade.
Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel e Conclusão de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
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