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JUVENTUDE ALIENADA - Infância corrompida

10 de jun. de 2022
10 min de leitura

Atualizado: 30 de jul.

Pintura a óleo em formato 16:9 dividida entre escuridão e luz. À esquerda, três jovens sentados e absorvidos pelos telemóveis, rodeados por sombras e pela figura de um demónio, simbolizando alienação digital e vazio espiritual. À direita, a cena transforma-se em luz dourada, onde Jesus de braços abertos acolhe pessoas diante de uma igreja, representando esperança, presença divina e caminho de redenção. A composição destaca o contraste entre a distração moderna e a verdadeira luz de Cristo.


Há alguns anos, após tecer algumas considerações sobre o fenômeno do Orkut, primeira "rede social" a se espalhar de modo universal, atingindo particularmente o Brasil, lancei uma campanha aconselhando ao leitor apagar sua conta naquele sistema de escravidão. Os e-mails recebidos na época indicaram cerca de 150 pessoas que tomaram a iniciativa de apagar sua conta e de escrever à Permanência comunicando este fato.


Analisando este número de corajosos leitores, considerei um resultado muito bom, diante dos meios de que dispomos e, sobretudo, diante dos motivos espirituais e civilizacionais oferecidos como incentivo para se tomar decisão aparentemente tão sofrida e difícil.


O diabo não dá ponto sem nó, como se diz, e logo surgiu fenômeno mais amplo e pernicioso do que o primeiro. Contam que o Facebook começou como um sistema de reconhecimento dos rostos dos alunos em certa universidade. Basta conhecer um pouco a natureza humana para compreender porque milhões de pessoas pelo mundo foram contaminados com a Síndrome da Bruxa Má, da Branca de Neve! "Espelho, espelho meu". O engenhoso "crachá" eletrônico é como a "imagem da besta", que aparece no Apocalipse. O joguete do dragão adquiriu tanto movimento que ele fala, escreve, e vai variando sua bela imagem, cativando a todos e gozando dessa imensa felicidade: "digam-me se há mais bela do que eu".


Há pouco tempo eu recebi um e-mail de um leitor que dizia: "Na prática, é uma imensa fogueira de vaidades. Você posta uma opinião qualquer, aguarda ansiosamente pelos elogios e se inflama constantemente com as críticas. Cada vez que alguém aperta num botãozinho "curtir" se sente um verdadeiro deleite no Amor Próprio. Cada vez que alguém lhe critica, o Amor Próprio chora como se a mulher amada o tivesse rejeitado".


Alguns dias antes eu já tinha recebido, de outra pessoa, pensamentos semelhantes: "Confesso que fiz muitos amigos. Mas, se por um lado me serviu de benfeitor, por outro me acorrentou em muitos pecados contra o próximo. Quantas injúrias, quantas maledicências, quantas pragas roguei contra os que eu chamava de inimigos. Tudo por motivos fúteis. E, pior, com um orgulho tão vigoroso quanto detestável. Quantos inimigos tenho hoje, sem sequer conhecê-los pessoalmente. Uma vergonha. Um ultraje ao meu Batismo".


Essas duas citações tocam nesse aspeto natural decadente dos frequentadores do Facebook. A mesma fábrica de vaidades que assinalei nos artigos contra o Orkut, foram levadas ao extremo, em crescimento exponencial, gerando uma vida falsa, duplamente falsa. Muitos daqueles que se reviram no lixo e na imundície de tantos pecados, como o leitor corajosamente denunciou de si mesmo, garantem de pés juntos, que não eram eles que escreviam e se comunicavam ali. O Orkut inventou a ideia de se forjar um "avatar", personagem fictício, que assumia sua personalidade, num mundo livre de moral, de religião, de família e de verdade. O Facebook aperfeiçoou o mal, e convenceu seus seguidores de que no Reino do Além do Espelho Meu, podem ser livres de tudo e de todos, e nem mesmo Deus os estaria vigiando com sua Onipresença.

Como sacerdote tive a oportunidade de separar graves situações criadas nesse mundo paralelo, onde todos se dizem amigos, onde todos fingem se amar, e onde, na realidade, amam a si próprios. O Facebook é um aprendizado do Inferno.


A primeira lição dessa "escola" é a perda de toda concentração na vida das obrigações e das virtudes. A febre toma conta da pessoa e ela não consegue mais resistir à tentação de dar um pulinho no outro mundo, deixando de lado suas obrigações. Se está no computador do trabalho, passa o tempo ligado nas mensagens que vão chegando o dia todo, as quais são rapidamente respondidas, os links visitados, e o tempo devido ao trabalho remunerado pelo patrão, passa dedicado a esta vida paralela. Se a pessoa é jovem e está na escola, é pelo celular que a praga funciona. Senão durante as aulas, ao menos nos intervalos ou imediatamente ao sair da escola (nos raros casos em que a escola proíbe o celular). A boa educação já desapareceu, e esses jovens vivem de cabeça baixa olhando uma telinha, sem o mínimo respeito pelas pessoas em sua volta. Em nome da mais alta comunicação com o Reino do Espelho Meu, cortam o mínimo olhar e interesse por seus familiares e amigos do mundo real.


Não conheço nenhum usuário dessa droga que tenha vida de oração. Nunca vejo essa gente com um livro na mão, nunca ouço conversas deles que não sejam banalidades da internet. Parecem saber de tudo, conhecem a vida de todos, mergulhados que estão na curiosidade desse ócio pecaminoso, que eles se desculpam tranquilamente. Os pecados do outro mundo não valem para o mundo de cá, de modo que todos continuam comungando sem medo do castigo de Deus. Ouçamos novamente um dos nossos leitores:


"É como achar que se pode ir constantemente numa casa de tolerância e sair de lá santo. Eu mesmo sabia e, mesmo assim me peguei inúmeras vezes pensando mal daquele comunista que me fez uma provocação ou em como poderia ofender aquele outro defensor do aborto. Com o tempo, a sensação é de que o orgulho vai se inflando no mesmo passo que a alma seca. Tenho um medo sincero de haver pecado."


Essa declaração vai no mesmo sentido deste outro desabafo: "Os bate-papos do Facebook são um desafio terrível, que pode me custar caro. Ainda não estou preparado para lidar com os homens. Preciso me retirar desse mundo virtual, o quanto possível. Preciso aprender ainda muito a viver como um bom cristão, a agir em conformidade com o meu batismo. E nada disso posso fazer se continuo me submetendo a todo esse esgoto virtual."


Em outro lugar lemos o seguinte: "As imagens e recados bonitinhos dos tradicionalistas que tenho como amigos só diferem em conteúdo dos esquerdistas mais empedernidos. Ao invés de fotos de manifestantes e intelectuais da esquerda chique com seus comentários absurdos, são imagens de S. Pio X com frases de efeitos sobre a Missa. Na forma, são iguais. Na intenção e no sentimento também. Todo mundo só quer uma curtida, um compartilhamento. Um afago no Amor Próprio. Todo mundo se ofende enormemente quando provocado. Todo mundo acha que está com a Razão. No final, só o diabo que ri."


Além dessa questão da troca de mensagens, da conexão em tempo real da sua vida, vulgarmente "compartilhada" com um mundo de gente, muitas delas desconhecidas, invadiu a cabeça das pessoas a troca de fotos de si próprio. E como a vida moral não faz parte da vida bruxa da imagem da besta, as pessoas vão postando fotos as mais à vontade, sem nenhuma preocupação com um mínimo de compostura, de pudor, ou de modéstia. Essa questão, na verdade, não entra muito na minha cabeça: como as pessoas perderam a noção básica do feio, do esculachado, da vergonha. Estão tão mergulhados nos critérios do Espelho Meu, que não percebem que na vida real, onde pecado é ofensa e Inferno queima, nossos atos têm consequências morais, e deverão ser pagos com os critérios da natureza e com a Santa Lei de Deus. A multiplicação de suas fotos, mostrando mil Facetas da sua cara linda é outro indício da finalidade insana desse maldito Book.


Outro dia um conhecido meu resolveu contar o tempo que levava no Facebook, esforçando-se para manter o mesmo ritmo de sempre. Eis a conclusão: "Calculei, por baixo, que a overdose dessa semana deve ter custado umas 8h da minha vida, "estrategicamente" divididas em acessos aparentemente curtos que, se somados, configuram um turno inteiro de trabalho. E não creio que tenha mexido particularmente mais que a média das pessoas que conheço."


Não deixa de ter certa graça o modo como ele encerrou a Auto pesquisa que se impôs: "De repente, dei por mim da armadilha, e selecionei a opção de excluir permanentemente. Segui todas as instruções e ainda me deparei com uma mensagem que dizia que minha conta seria eliminada em 14 dias, durante os quais teria toda a possibilidade de voltar atrás nesse ato tão impensado e perigoso. 14 dias com o Amor Próprio agonizando. Nem para encerrar conta de banco precisa de tanto."


Tenho para mim que o pecado no qual os católicos estão incorrendo não é o fato de terem uma conta no Facebook, no Instagram ou coisa parecida. O pecado da vaidade e o orgulho da vida são excitados ao extremo por uma ferramenta que tem a aparência de coisa boa, neutra, isenta de mal. Mais uma vez vemos essa máquina infernal, qual epidemia universal, derrubar a todos, em todos os lugares, em todas as famílias, formando uma civilização contrária em tudo ao Cristianismo. A Civilização do anticristo, que está dominando a humanidade inteira através de uma ferramenta Auto eficiente, que uma vez usada, não precisa de outra orientação senão a do amor-próprio. É altamente enganador, é genial, é diabólico.


Acredite leitor: é possível viver sem ele. Há outros meios de comunicação virtual que seguem ritmo menos febril e que diminuem muito o impacto da vaidade. É bom darmos tempo antes de recebermos uma resposta, antes de respondermos a uma mensagem, sobretudo quando se trata de alguma discórdia ou opinião contrária. Quanto mais o mundo se agita em coisas vãs, mais necessária se faz a sabedoria que nos faz refletir antes de falar, que nos leva a desprezar os bens desse mundo louco, e que nos conduzem a leituras bem mais interessantes e duráveis do que o rasteiro mundo do Facebook.


Como buscarei na Terra outro olhar senão o Vosso, Senhor? Como poderei eu, buscar um livro inteiro de rostos vazios, mãos geladas de cadáveres virtuais, se para tanto tiver de afastar de minha alma a Vossa Santa Face! "Vultum tuum Domine, requerem – a Vossa Face, Senhor, buscarei". Porque é disso que se trata: quem multiplica rostos no Facebook, silencia seu coração do diálogo de amor que mantemos com Jesus Cristo: "Tibi dixit cor meum – O meu coração falou a Vós, os meus olhos vos procuraram, hei de buscar Vosso Rosto, Senhor; não aparteis de mim a Vossa Face!" (Sl.26,8).


Comece logo sua trezena de preparação para apagar o Facebook. Durante 13 dias o combate será rude, as tentações de toda sorte serão lançadas, como mísseis, contra a alma corajosa. O escudo da Fé, a couraça da fidelidade, abaterão os dardos inflamados do inimigo. No décimo quarto dia, nascerá o sol num dia real, o Espelho Meu se quebrará, e você, caro leitor, poderá restaurar sua verdadeira personalidade.


Sábias palavras de um Sacerdote brasileiro que anteviu a febre das redes sociais


Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos


Síntese do Conteúdo

A Geração do Espelho Partido: Juventude Ferida num Mundo de Ilusões


A nova geração cresce diante de um cenário que, embora envolto em luzes, telas e promessas de conexão ilimitada, revela uma profunda sombra sobre a formação humana. Nunca houve tanto acesso, tanta exposição, tanta velocidade e paradoxalmente, nunca houve tanta solidão espiritual. Os jovens caminham com o olhar preso a uma pequena tela, como se ali estivesse o mundo inteiro, mas o que encontram é apenas o reflexo fragmentado de si mesmos, multiplicado em imagens, curtidas e comentários que alimentam um ciclo de vaidade e inquietação interior. O artigo inspira esta reflexão e descreve com precisão esse fenômeno, mostrando como as redes sociais se tornaram uma “fogueira de vaidades”, onde cada elogio inflama o orgulho e cada crítica fere como uma rejeição amorosa. A juventude esta seduzida por esse espelho digital, vai perdendo o sentido da presença real, da convivência, da escuta, da oração, da disciplina, da vida concreta que exige esforço e entrega. O problema não está apenas no uso das plataformas, mas na forma como elas moldam o coração, criam um mundo paralelo onde todos fingem amar, mas apenas amam a si próprios, como afirma o autor ao dizer que esse ambiente se tornou “um aprendizado do Inferno”. A consequência é uma geração que se afasta das virtudes, das obrigações, da concentração, da leitura, da vida interior, substituindo tudo isso por uma curiosidade incessante, por conversas vazias, por uma exposição contínua que elimina o pudor e a modéstia. O jovem moderno, mergulhado nesse fluxo, acredita saber de tudo, mas conhece apenas fragmentos desconexos, acredita estar conectado a todos, mas não sustenta vínculos profundos; acredita ser livre, mas vive acorrentado ao desejo de aprovação. E o mais grave, perde o silêncio necessário para ouvir a voz de Deus, pois quem multiplica rostos no espelho digital silencia o coração para o diálogo de amor com Cristo. A infância, por sua vez, é corrompida antes mesmo de florescer. Crianças que deveriam aprender a contemplar o mundo, a brincar, a imaginar, a construir relações reais, são introduzidas precocemente nesse universo de estímulos artificiais, onde a identidade é moldada por algoritmos e não pela família, pela fé ou pela experiência concreta. Crescem sem saber esperar, sem saber ouvir, sem saber renunciar, sem saber sofrer, sem saber amar. Tornam-se adolescentes incapazes de lidar com frustrações, adultos frágeis diante de qualquer contrariedade, almas inquietas que buscam incessantemente um afago no amor-próprio, como descreve o artigo ao afirmar que “todo mundo só quer uma curtida, um compartilhamento”. A sociedade inteira, fascinada por essa máquina, vai se transformando numa civilização contrária ao Cristianismo, movida pelo orgulho e pela vaidade, como alerta o autor ao falar de uma “civilização do anticristo” que domina pela aparência de bem. Diante desse quadro, torna-se urgente recuperar o olhar para o essencial: a presença, a oração, a leitura, o silêncio, a vida interior, a relação verdadeira com Deus e com o próximo. É preciso ensinar aos jovens que a liberdade não está em fazer tudo, mas em escolher o bem; que a beleza não está na imagem, mas na verdade; que a felicidade não está na aprovação dos outros, mas na fidelidade ao próprio chamado. E é preciso que cada leitor, adulto ou jovem, se pergunte honestamente: quanto gasto do meu tempo, da minha atenção, da minha alma, tenho entregado a esse espelho que me afasta de mim mesmo e de Deus? Talvez seja necessário, como sugere o artigo, um combate espiritual, uma trezena de renúncia, um gesto concreto de libertação, para que o coração reencontre o caminho da autenticidade e da graça. No fim, a pergunta que permanece é simples e profunda: que rosto desejo contemplar, será o meu, multiplicado em mil imagens vazias, ou o rosto de Cristo, que dá sentido à minha existência? Convido-o, leitor, a refletir com sinceridade sobre este assunto delicado, não como quem observa um problema distante, mas como quem reconhece que a batalha pela alma da juventude começa dentro de cada um de nós.


Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos


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