Da paz de espírito
- Conteúdos Católicos

- 19 de dez. de 2022
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Atualizado: há 5 horas

Tratemos do céu terrenal, que é a bem-aventurada tranquilidade, isto é, a perfeição e ressurreição espiritual da alma antes da comum ressurreição. Aqui haveis de ver como nós, estando em um profundíssimo lago de ignorância, e postos no meio de perturbações e da sombra da morte deste miserável corpo, com grande atrevimento e ousadia, queremos filosofar sobre este céu terrenal.
Este céu, que vemos, está aformoseado com estrelas, e não menos está adornada esta bem-aventurada tranquilidade com o ornamento das virtudes; pois, nenhuma outra coisa penso que seja esta tranquilidade senão um íntimo e espiritual céu de nossa alma, onde não chegam as impressões peregrinas e turbulentas que se criam na média região de nossa sensualidade, no qual céu, posta a alma do varão perfeito, despreza ele todos os enganos dos demônios como coisa de escárnio. Possui, pois, verdadeira e propriamente, esta tranquilidade ou impassibilidade, aquele que purgou já sua carne de toda a mácula de corrupção; levantando seu espírito sobre todas as criaturas, olvidando-se de todas elas, sujeitou a si todos os seus sentidos, não usando deles senão conforme a razão; e assistindo sempre com sua alma ante a face do Senhor, trabalha, mesmo além da medida de suas forças, por chegar-se mais e mais a Ele, fazendo tudo, tudo, tudo por amor, contemplação e imitação Dele. Outros há que, definindo esta bem-aventurada tranquilidade, dizem ser ela a ressurreição da alma antes da ressurreição do corpo; e explicam que este estado nada mais é do que um traslado e imitação daquela pureza e vida dos bem-aventurados, tanto quanto segundo a condição desta mortalidade é possível. Outros dizem que esta virtude é um perfeito conhecimento de Deus, conhecimento tão alto que tem o segundo lugar depois do conhecimento dos anjos.
Esta perfeita perfeição dos perfeitos de tal maneira santifica o homem, e assim o arrebata sobre todas as coisas terrenas, que, depois de haver ele entrado neste porto celestial, a maior parte desta vida carnal gasta em estar absorto e extasiado em Deus, como se a sua conversação, como disse o Apóstolo, já fosse nos céus. Deste estado fala muito bem aquele que o experimentara: «Grandemente, Senhor, hão sido levantados e exaltados os deuses fortes da terra, denominando deuses a esses homens divinais que estão levantados sobre todas as criaturas do mundo.» Tal foi um daqueles Santos Padres do Egito, de quem se escreve que, quando algumas vezes, orando em companhia de outros, não ousava levantar as mãos, conservando-as postas, porém inclinadas, para baixo. Há entre estes bem-aventurados uns mais perfeitos que outros; porque uns há que aborrecem grandemente os vícios, e outros há que insaciavelmente estão enriquecidos de virtudes.
Também a castidade se chama, de certo modo, tranquilidade; e com razão, porque é como umas primícias da comum ressurreição e da incorrupção das coisas corruptíveis. Esta tranquilidade mostrou o Apóstolo, quando disse que possuía em sua alma o sentido do Senhor.
E esta mesma ensinou que a possuía aquele glorioso Antônio, quando disse que não tinha medo de Deus; porque a perfeita caridade tinha-lhe lançado fora o temor. E o mesmo mostrou que tinha aquele glorioso padre Effren, da Síria, o qual, vendo-se neste estado, rogou a Deus que volvesse-lhe e renovasse-lhe as batalhas antigas, para não perder a ocasião e matéria de coroas. Quem, como este sírio, entre aqueles padres gloriosos, alcançou essa tranquilidade antes da glória futura? O rei Davi, sendo entre os profetas tão esclarecido, disse: «Concede-me, Senhor, um pouco de refrigério»; mas, aquele glorioso cavaleiro achava-se muitas vezes tão cheio deste celestial refrigério, que, não podendo a fraqueza do sujeito sofrer a grandeza desta consolação dizia: «Detém, Senhor, um pouco as ondas de Tua graça.»
Tem chegado à posse desta virtude aquela alma que está tão transformada, tão inclinada e afeiçoada às virtudes, como os homens muito viciosos a seus vícios. Por aí se vê que, se o cúmulo do vício da gula é chegar a tal extremo que, sem ter apetite ou gana alguma de comer, se incite o homem a comer e a romper o ventre com manjares, o fim da abstinência será ter chegado a tão grande temperança, que, mesmo tendo fome, se abstenha do manjar, quando o pede a razão, por estar já a natureza livre e não sujeita a desordenados apetites. E se o cúmulo da luxúria é chegar o homem a tão grande furor e incêndio da carne, que se afeiçoe a bestas mudas e a pinturas sem alma, será sem dúvida o fim da perfeita e heroica castidade guardar seus sentidos tão inocentes em todas as coisas que veja, como se carecesse de alma.
E se o cúmulo da avareza é nunca ver-se o homem farto, nem deixar de amontoar, ainda que se veja muito rico, será o fim da perfeita pobreza não fazer caso, nem afligir-se de modo algum pela falta das coisas ainda mais necessárias ao corpo. E se o cúmulo da ira é carecer de paciência em qualquer descanso e repouso que o homem tenha, o fim da paciência será que, em qualquer tribulação em que se achar, pense que tem descanso. E se o cúmulo da vanglória é fingir o homem mostras e figuras de santidade (ainda que não esteja presente ninguém que o louve), o fim de perfeita humildade será não alterar-se nosso coração com movimentos de vanglória, em presença dos que nos estão orando e louvando. E se o pélago da ira é embravecer-se o homem consigo mesmo, ainda que não haja quem o provoque à ira, será o abismo da longanimidade conservar a mesma tranquilidade de ânimo, tanto com a presença, como com a ausência, dos que nos desonram e maldizem. E se é espécie de perdição, ou de soberba, orgulhar-se o homem com um hábito vil, argumento será de muito saudável humildade conservar a alma inalterada no meio das grandes dignidades e feitos ilustres. E se é argumento de homem completamente vicioso obedecer ao Demônio em todas as coisas que nos propõe, será indício de beatíssima tranquilidade poder dizer com eficácia: «Não conhecia eu ao maligno, nem quando se desviava de mim, nem quando vinha para mim; porque para todas as suas coisas estava já como insensível.»
Aquele que mereceu chegar a este estado, vivendo na carne, não se torna impecável; mas tem Deus dentro de si, para regê-lo e governá-lo em todas as suas palavras, e obras, e pensamentos, conforme a Sua santíssima lei. E este tal pode já com o Profeta dizer: «Ouvirei falar em Mim, o Senhor Deus, cuja doutrina está acima de todas as ciências e doutrinas.» E ensinado e afetado desta maneira, dizer com o mesmo Profeta: «Quando aparecerei ante a face de meu Deus?» E isto porque já não suporta a força e eficácia deste desejo e, assim, busca aquela imortal formosura, que Deus, com o barro desta carne, determinou dar à nossa alma, quando a criou.
Quem em tal estado vive, vive Ele, mas já não ele, porque vive em Jesus Cristo, como disse aquele que havia combatido o bom combate, e acabado sua carreira, e guardado sua fé. Não basta uma só pedra preciosa para fazer uma coroa real; mas, aqui, não bastam todas as virtudes para alcançar esta tranquilidade, se em uma só formos negligentes. Imaginemos que a tranquilidade é o mesmo palácio real, que está no céu, e que dentro de tão nobre cidade, ao redor do palácio, estão muitos aposentos e habitações; o muro desta celestial Jerusalém é o perdão dos pecados, porque quem a ele chega está perdoado. Corramos, pois, irmãos, corramos, para que mereçamos gozar da entrada e aposento neste palácio real; mas, se for tão grande nossa miséria, que, impedidos por alguma carga, ou paixão nossa, não possamos lá chegar, ao menos trabalhemos por ocupar alguma morada perto deste tálamo e palácio divino. E se ainda isto nos impede nossa tibieza, ao menos procuremos ser recebidos dentro deste sagrado muro; pois, aquele que, antes do fim da vida, não entrar nele, depois virá a morar no deserto e soledade dos demônios e dos vícios.
Por isso, orava aquele santo que dizia: «Com o favor de Deus passarei o muro»; e outro, que em pessoa de Deus dizia: «Vossos pecados atravessarão um muro entre vós e Deus.»
Rompamos, irmãos, este muro edificado com a nossa desobediência; procuremos receber a quitação de nossas dívidas, porque no inferno não há quem as salde, nem quem as possa perdoar. Demo-nos pressa, pois, irmãos, e entendamos no negócio da nossa profissão, porque estamos inscritos no recrutamento do nosso Celestial Imperador, para pelejar nesta guerra. Não nos escusemos com a carga de nosso corpo, nem com a condição do tempo, nem com o ser tão desprezível, a nossa natureza; pois, todos nós, que fomos lavados e regenerados no Batismo, recebemos poder para fazer-nos filhos de Deus. «Conhecei, diz o Senhor, «que Eu sou Deus, Eu sou vossa tranquilidade e redenção dos pecados.» Esta santa tranquilidade levanta da terra e do esterco dos vícios os espíritos humildes; e a caridade os junta com os príncipes do povo do Senhor, e os assenta com os espíritos angélicos.
São João Clímaco
Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos
✅ Síntese do Conteúdo
A Paz de Espírito como Céu Terrenal: Quando a Alma Ressuscita Antes do Corpo
Há uma promessa escondida no coração da vida espiritual, a alma pode experimentar ainda nesta vida, algo da ressurreição futura. Não se trata de metáfora, nem de consolo psicológico, mas de uma transformação real, profunda, luminosa. Os antigos chamavam isso de bem‑aventurada tranquilidade, um estado interior tão pleno de Deus que se torna um verdadeiro céu terrenal.
Vivemos, porém, num mundo que parece o oposto disso. Estamos mergulhados num “profundíssimo lago de ignorância”, cercados por perturbações, distrações, medos e paixões que nos arrastam para baixo, mesmo assim, ousamos falar de paz. Ousamos desejar o impossível. Ousamos crer que a alma pode ser elevada acima de si mesma.
Mas essa ousadia não é presunção. É vocação.
Assim como o firmamento é adornado de estrelas, também a alma pode ser adornada de virtudes. A tranquilidade verdadeira não é ausência de problemas, mas presença de Deus. É um céu interior onde as tempestades da sensibilidade já não chegam. A alma que entra nesse estado não se torna insensível, mas livre; não se torna fria, mas ardente; não se torna neutra, mas profundamente ordenada.
A paz de espírito é, antes de tudo, uma forma de ressurreição, a alma se levanta da morte interior, recupera sua forma original, reencontra sua harmonia perdida. É também imitação da vida dos bem‑aventurados, porque quem vive nessa paz já participa, de algum modo, daquilo que os santos vivem plenamente no céu. E é, ainda, conhecimento profundo de Deus, um conhecimento que não nasce de livros, mas de intimidade.
Os santos que alcançaram essa tranquilidade viviam como se já conversassem nos céus. Não porque fugissem do mundo, mas porque o viam a partir de Deus. Um monge egípcio, tomado de reverência, não ousava levantar as mãos na oração. Outros permaneciam tão cheios da graça que pediam a Deus que diminuísse o “refrigério celestial”, pois o corpo não suportava tanta consolação.
A paz de espírito não é conquista humana. É dom. Mas é um dom que exige cooperação. Exige purificação da carne, elevação do espírito e união amorosa com Deus. Exige que a alma se coloque “ante a face do Senhor” e ali permaneça.
O artigo, nos oferece uma visão surpreendente: cada virtude tem um “fim” um extremo santo, que corresponde ao extremo vicioso que ela combate:
- Se a gula leva o homem a comer sem fome, a abstinência perfeita leva a abster‑se mesmo com fome.
- Se a luxúria leva a amar bestas e imagens, a castidade perfeita leva a olhar tudo com inocência.
- Se a avareza nunca se sacia, a pobreza perfeita não se inquieta nem com a falta do necessário.
- Se a ira explode sem motivo, a paciência perfeita encontra descanso na tribulação.
- Se a vanglória busca louvor mesmo sem plateia, a humildade perfeita permanece serena mesmo diante de elogios.
A tranquilidade bem‑aventurada é o ponto em que todas essas virtudes se encontram e se tornam estáveis. É o ápice da vida moral e o início da vida contemplativa.
A alma tranquila pode dizer: “Não conhecia eu ao maligno.” Não porque ignore sua existência, mas porque já não é afetada por suas sugestões. O mal perde o poder de perturbar. A alma torna‑se como uma rocha no mar, as ondas batem, mas não a movem.
No centro dessa estabilidade, está Deus. A alma tranquila não é autossuficiente, é habitada. Deus governa suas palavras, pensamentos e obras. Por isso, ela deseja ardentemente ver a Deus, pois já não suporta a distância. A paz de espírito é desejo inflamado, não apatia.
A tranquilidade é, no fundo, vida em Cristo. Quem a alcança pode dizer com São Paulo: “Vivo, mas já não eu; é Cristo que vive em mim.” Não basta uma virtude isolada, é preciso o conjunto. A tranquilidade é o palácio real onde Deus habita. As virtudes são os aposentos ao redor. O perdão dos pecados é o muro que cerca a cidade.
A vida espiritual é arquitetura divina: Deus constrói, mas o homem coopera.
Faço um apelo urgente, terminando o artigo como um chamado direto: romper o muro da desobediência, saldar as dívidas antes da morte, empenhar‑se na guerra espiritual. Não nos desculpar com a fragilidade humana. Todos os batizados receberam poder para se tornarem filhos de Deus. Todos são chamados à tranquilidade. Deus mesmo diz: “Eu sou vossa tranquilidade.”
A paz não é algo que Deus dá.
A paz é Deus.
A tranquilidade levanta os humildes do esterco dos vícios e os assenta entre os príncipes do povo do Senhor. É o céu começando dentro de nós.
Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
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