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As Tentações da Carne

  • 24 de jun. de 2022
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Pintura a óleo representando a ventania da carne: um homem atormentado cercado por figuras demoníacas e tentações sensuais, enquanto ao fundo surge uma colina iluminada com uma cruz, símbolo da vitória espiritual sobre o pecado.

«A terceira ventania consiste na tentação da carne. Ela espalha um mau cheiro intolerável, não apenas para Deus, mas também para os demônios, tornando a pessoa bestial. Torna-se como os animais, sem vergonha. Como o porco, a pessoa revolve-se na lama, na lama da desonestidade. Em qualquer estado de vida esteja, arruína-se. Se é casada, envenena o amor matrimonial. O que deve fazer com temor de Deus, ela o faz com amor desordenado e pouco honesto. Essas miseráveis pessoas não pensam na grande dignidade a que chegou a própria carne humana na união com Deus em Cristo. Se refletissem, prefeririam morrer e não se entregarem a tão grande baixeza.»


«Sabes a que ponto chega esse mau hálito, que envenena todos os que de tal pessoa se aproximam? O coração da pessoa se torna suspeito, a língua murmura e blasfema, achando que existe nos outros a mesma coisa que existe nela. A pessoa assemelha-se a um doente, que estragou o próprio estômago. Ela acha ruim, como algo estragado, não somente o alimento normal, mas também aquele que o médico lhe prescreveu. E maravilha-se de que uma pessoa sadia, que come seu alimento, não sinta o mesmo sabor que ela sente. Assim os pecadores, que se entregam ao prazer da carne, arruínam a própria sensibilidade e a da comunidade dos que vivem no mesmo vício, e ficam escandalizados relativamente aos justos. Escandalizam-se até do próprio matrimônio, que Deus lhes deu como condescendência à sua frágil enfermidade, a própria esposa. Tendo um coração desordenado, até o amor da esposa lhe faz mal. Ciúmes e suspeitas fazem tais pessoas julgar má uma pessoa reta, e passam a odiar e desprezar o que deveria ser um justo amor. Em tal pessoa há um modo de ver. É seu olho que está doente. Não fosse assim, julgaria de outro modo».


«Oh! Quantos defeitos e inconvenientes procedem dessa ventania da carne! É algo que corrói por dentro. Como o mau hálito sai da boca, assim a pessoa julga mal a própria esposa. Disso deriva um outro defeito: se por inspiração divina ocorre à pessoa um bom desejo de corrigir-se e de viver bem o matrimônio, o verme da suspeita já penetrou no seu corpo e apaga o perfume da virtude, e sua podridão renasce. O que antes agradava à pessoa, passa a desagradar-lhe. Não tem constância, nem perseverança na virtude. A pessoa volta atrás, não examina o próprio erro e a própria doença (espiritual). E tudo isso sucede porque falta ao pecador o alicerce na rocha viva ao ser atingido e forçado pela ventania da carne. É preciso que a pessoa se livre do apodrecido alicerce da impureza, fundamentando-se na rocha viva, Cristo. Então, a ventania da carne não a prejudicará. Ao contrário, poderá resistir com a virtude da continência e da pureza, disciplinando a vontade mediante a razão e o desejo santo, dizendo a si mesma: “Envergonha-te minha alma, por enfeares o teu rosto e corromperes teu corpo na impureza. Foste feita à imagem e semelhança de Deus. E tu, carne, foste elevada a uma altíssima dignidade na união da natureza divina com a humana (em Cristo) e foste elevada acima de todos os coros dos anjos”. Então a pessoa sentirá o perfume da virtude e o desejo de remediar com a vigília de oração e o conhecimento de si mesma».


«Ninguém se oponha ao conhecimento de si mesmo, mergulhando a mente em fortes imaginações e movimentos físicos que ocorreram. O conhecimento de si será uma água que apagará a chama dos movimentos impuros. Que a pessoa não tenha medo de pegar a Cruz, nela apoiar-se e navegar com os meios acenados antes, fundamentando-os na rocha viva, com firmeza e perseverança até a morte. Todos percebem que a perseverança é a que obtém a coroa».

Deus Pai a Santa Catarina de Sena


Texto transcrito e elaboração textual de Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos


Síntese do Conteúdo

O Matrimônio como Remédio e Caminho de Santificação


Quando a graça cura o amor ferido pela ventania da carne


Há temas espirituais que não podem ser ignorados, porque tocam o ponto mais vulnerável e mais decisivo da vida humana. Entre eles está a ventania da carne , quando encontra o coração desprevenido, não destrói apenas a pureza interior, mas fere também o matrimônio, que Deus instituiu como remédio para a fragilidade humana e como caminho seguro de santificação. O artigo nos ensina que, quando a alma se entrega ao desregramento, “envenena o amor matrimonial” e passa a olhar com suspeita até mesmo aquilo que Deus lhe deu como condescendência à sua fraqueza. O coração, adoecido, já não reconhece o dom que recebeu, aquilo que deveria ser lugar de cura torna-se motivo de inquietação, porque o olhar corrompido transforma até o amor legítimo em peso e amargura. Mas quando a graça começa a agir, a pessoa percebe que o matrimônio não é obstáculo à vida espiritual, mas sacramento que purifica, disciplina e eleva, desde que vivido com o coração apoiado na rocha viva.


O matrimônio é uma escola de verdade, onde a pessoa é chamada a abandonar ilusões e confrontar, dia após dia, a própria miséria e grandeza. Ali aprende que o amor não é sentimento passageiro, mas decisão perseverante; não é posse, mas entrega; não é busca de prazer, mas serviço mútuo. E quando essa verdade penetra, a alma compreende que Deus, ao permitir o matrimônio, não o fez para satisfazer caprichos, mas para ordenar os afetos, curar as feridas da carne e ensinar a amar com pureza e constância. Falar da ventania da carne é falar da luta mais íntima, aquela que decide a saúde do coração, a paz do matrimônio e a fidelidade a Deus. Por isso, este artigo não é apenas uma reflexão, é um chamado à vigilância, à cura e à restauração da dignidade da carne humana, elevada por Cristo acima dos anjos e ferida quando se afasta da pureza que lhe corresponde. A tentação tenta sempre corromper esse dom, soprando ciúmes e suspeitas, como o artigo descreve ao afirmar que o coração desordenado “julga má uma pessoa reta”. Mas quando a alma se apoia em Cristo, ela começa a ver que o matrimônio é precisamente o lugar onde essas tentações podem ser vencidas, porque ali se aprende a purificar o olhar, disciplinar a imaginação, ordenar os desejos e transformar a própria carne em instrumento de caridade.


O matrimônio é sacramento e por isso é sustentado pela graça. A união dos esposos não depende apenas da força humana, mas da fidelidade de Deus, que permanece mesmo quando o coração vacila. Cristo, que elevou a união humana à dignidade sacramental, permanece no centro da vida conjugal como rocha viva, sustentando, purificando e iluminando. Assim, aquilo que parecia apenas acordo entre duas vontades revela-se como participação no amor esponsal de Cristo pela Igreja. Cada gesto de paciência, cada renúncia silenciosa, cada perdão oferecido, cada disciplina dos sentidos torna-se matéria de graça, porque o sacramento transforma o cotidiano em altar. A cruz que antes parecia amarga torna-se doce, porque é carregada com Cristo; a renúncia que parecia perda torna-se ganho; a fidelidade que parecia exigência torna-se liberdade.


É nesse contexto que a castidade conjugal se revela como uma das mais altas expressões do amor cristão. Ela ordena o desejo, purifica o olhar e restitui ao matrimônio o perfume da virtude que o verme da suspeita havia apagado. A castidade conjugal não renuncia ao amor, mas ao amor desordenado; não rejeita a união dos corpos, mas a união sem verdade; não foge da carne, mas disciplina a carne para que ela sirva ao espírito. Quando vivida com fé, ela cura o olhar doente, cura o coração inquieto, cura a imaginação que se deixa levar por sombras, cura a vontade que oscila entre o desejo e o arrependimento. A castidade conjugal devolve ao matrimônio sua dignidade sacramental, porque faz com que os esposos se aproximem um do outro não como quem busca saciar um impulso, mas como quem deseja honrar a imagem de Deus presente no corpo do outro, corpo que foi elevado por Cristo a uma dignidade acima dos anjos.


Quando a castidade conjugal é vivida, a ventania da carne perde sua força, porque o coração aprende a amar com ordem e a vontade aprende a servir com liberdade. A união dos corpos, iluminada pela graça, torna-se oração silenciosa, entrega recíproca, sacramento vivido no cotidiano. E aquilo que antes era motivo de queda torna-se ocasião de mérito, porque a pessoa já não se deixa arrastar pelos impulsos, mas oferece a Deus cada gesto, cada renúncia, cada disciplina interior. A castidade conjugal transforma o matrimônio em altar, onde os esposos aprendem a oferecer-se mutuamente com respeito, paciência e verdade. E é nesse altar que Deus cura as feridas abertas pela ventania da carne, cura a desconfiança, cura o ciúme, cura a inquietação, cura a inconstância que o artigo denuncia ao afirmar que o pecador “não tem constância, nem perseverança na virtude”.


Assim, o matrimônio, vivido como sacramento, torna-se combate santo, onde a vitória não consiste em dominar o outro, mas em dominar a si mesmo; não consiste em exigir, mas em oferecer; não consiste em buscar prazer, mas em buscar o bem do outro; não consiste em fugir da cruz, mas em abraçá-la com confiança. E quando essa verdade se torna vida, a ventania da carne já não encontra espaço para devastar, porque a alma está protegida pela graça recebida no altar. O matrimônio torna-se, então, caminho seguro para o céu, porque nele a pessoa aprende a perseverar e a perseverança, como ensina o artigo, “é a que obtém a coroa”.


Se este ensinamento tocou o teu coração, não o deixes escapar. Olha para o teu matrimônio com novos olhos, pede a graça da castidade conjugal, restaura o perfume da virtude e firma os teus passos na rocha viva, Cristo. A ventania da carne não tem a última palavra: a graça tem. E quem persevera no amor, mesmo entre lutas, alcança a coroa.


Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos


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