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Os cinco degraus para a lectio divina - Parte 3


(Cont. da Parte 2 e final)


Essa situação inicial de desconforto é bem testemunhada na Escritura. Sabemos bem a situação dos habitantes de Jerusalém no dia de Pentecostes, depois do discurso de Pedro, cheio de reprovação para eles: "quando ouviram isso, ficaram com o coração compungido..." (At 2,37). Sabemos que Isaías, chamado à missão profética, ao perceber sua indignidade, lança-se ao chão e suplica: "Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros..." (Is 6,5).

Assim, cada um leva dentro de si as suas próprias fraquezas, debilidades, traições. E sente, antes de tudo, necessidade de pedir a Deus forças para se levantar.


Oração: falar a Deus com sua Palavra


b) Necessidade de agradecer. Entretanto, o projeto de salvação inaugurado por Deus está sob os meus olhos, eloquente, e arranca minha gratidão porque me sinto envolvido nele e beneficiado. Percebo que "tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8,28), e desejo dizer meu muito obrigado. Também, se for o caso, pelas coisas que andaram dando errado: porque tomo consciência de que Deus, mesmo assim, sabe escrever certo...


c) Necessidade de louvar. Porque descubro, com estupor, que é infinitamente adorável no seu projeto de amor.


d) Intercessão, necessidade de ajuda. Deus me chama para fazer a minha parte entre as pessoas; sinto-me solidário com elas, por elas rezo.

E sinto medo de não saber me comportar entre os meus irmãos, ajudando-os nas suas necessidades e respondendo aos desígnios de Deus.

Por isso, peço-Lhe também a ajuda da Sua graça para o meu empenho cotidiano.

Eis, portanto, a minha oração. Um diálogo com Deus, tendo como argumento a Sua Palavra. Teço o meu diálogo com o Senhor porque quero:


• agradecê-Lo pelo Seu projeto de amor, no qual estou envolvido;

• manifestar-Lhe a minha alegria, ao ver-me inserido e chamado a fazer minha parte no meio das outras pessoas;

• expressar-Lhe meu temor de não saber comportar-me entre os meus irmãos ajudando-os nas suas necessidades e em suas expectativas;

• pedir-Lhe a ajuda da sua graça para viver o compromisso cotidiano.


Minha oração acorda em mim a capacidade de adoração, a necessidade de me ajoelhar. É normal na Igreja, é especial em casa, no meu quarto: um ambiente que se torna sagrado pelo meu gesto.

Minha oração parte de um texto bíblico, e agora passa através de mim e se colore de minha experiência. Filtra as minhas realidades cotidianas, feitas de alegrias e tristezas, de sucessos e de derrotas.

Assim veremos mais adiante a oração tende a unir-se à ação.

Rezar não é sentimentalismo, mas encontro com a vontade de Deus, é dispor-se a cumpri-la com generosidade e alegria.


4 - Contemplação: a admiração pela Palavra

No terceiro degrau da lectio eu rezei. Mas toda oração verdadeira é adoração, é contemplação. Por isso, os mestres de espírito (e o abade Guigo, por primeiro) colocam como quarto degrau, depois da Oração, a Contemplação. E muitos tendem a considerá-la mais do que um momento da lectio - uma maneira de viver a própria lectio: "Enquanto

leio, rezo, e, enquanto rezo, contemplo", deixou escrito um monge do século XII. Portanto, a Contemplação como prosseguimento e recapitulação da oração.

De fato, essa experiência personalíssima de Deus, fruto do Espírito Santo, dom da graça divina, pela sua natureza, foge das sistematizações e classificações. É realmente difícil para nós, homens, enclausurar nos nossos cronogramas a iniciativa livre e imprevisível do Espírito.


De fato, a Contemplação é algo que vai muito além do ruído cotidiano e me relança para o meu futuro em Deus. Nasce espontaneamente a pergunta: "O que devo esperar?". E a resposta é a realização da história no futuro de Deus. Então a Bíblia, que medito, se apresenta como o grande livro da esperança, um convite "a voltar o olhar para o outro lado da vida, um reavivar o desejo da vida eterna" (Adalbert de Vogüé). Assim, chego

a assimilar plenamente, como meu, o sentido escatológico ou anagógico do texto, o seu abrir-se às realidades últimas da esperança cristã.


E me acontece que abandono (finalmente?) o raciocinar demais, para uma experiência serena de adoração, quase sem palavras.

Como acontece isso, não é fácil explicar. Até os mestres de espírito o experimentaram. Com eles, experimentemos também nós.


a) A Palavra saboreada com o coração. A oração desemboca na Contemplação: é o vértice, quando as minhas palavras terminam, e começo a saborear a Palavra com o coração. Fica-se ligado a Cristo, atraído por Ele: "... e quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim" (Jo 12,32). É uma experiência por si indizível, na qual tudo foi vivido

na máxima gratuidade.

Trata-se de demorar-se amorosamente sobre o texto: ou de escorregar do texto, e da sua mensagem, para a intimidade com Aquele que fala através de cada página da Bíblia: Jesus, o Filho do Pai, que nos ama e nos doa o Espírito.


Contemplação: a admiração pela Palavra


Um sair de mim mesmo, um entrar, consciente e cheio de admiração, naquele mistério que envolve a minha vida. E não me preocuparei de chegar lá: não depende de mim, é dom do Espírito. Deus, quando quiser, me introduzirá para contemplar o Seu mistério.


b) A iniciativa de Deus. Diz Guigo, com uma linguagem lírica, que o Senhor "não espera nem mesmo que a oração (a terceira fase). esteja concluída, mas intervindo no próprio curso dela se apressa em entrar na alma que o procura com desejo...". E tem para cada um de nós uma operação apropriada: "Recria a alma fatigada, sustém a que está sedenta, nutre a que tem fome, faz esquecer todas as coisas da terra, vivifica-a tornando-a admiravelmente esquecida de si, e inebriando-a a torna sóbria...". Em suma, "o homem torna-se completamente espiritual".

Se me é dado subir a esse degrau, então descobrirei com o coração - não com a mente quanto a minha vida e o meu mistério estão inseridos naquele de Deus Pai, Filho, Espírito Santo. Verei maravilhado a incrível prova de amor que me é oferecida por aquele Deus de quem me sinto filho.

Nasce daí, então, um diálogo de simplicidade, adoração, conhecimento e experiência desse Pai que me ama. Sinto necessidade de repousar nele, de abrir-me ao Seu amor por mim, de acolher o Reino dentro de mim, com a certeza de estar em comunhão de vida com Deus.


c) Dois modelos: as duas Marias. Maria, antes, as duas Marias me servem de modelo na contemplação. Antes de tudo, a Mãe de Jesus é o ícone mais belo e perfeito da lectio divina. Ela que, na Anunciação, escuta a promessa, dá o seu sim incondicionado, abandona-se com confiança, acolhe o dom e gera a Palavra.

Mas também a outra Maria - a irmã de Marta, que em Betânia ficou acocorada aos pés de Jesus e bebia de Suas palavras - nos sugere como devemos fazer: Jesus informa à irmã Marta, e a nós com ela, que a segunda Maria, com a sua escuta contemplativa, "havia escolhido a melhor parte".


d) Escatologia e ação. Definitivamente, com a contemplação o homem se torna, ele mesmo, Palavra viva. Além disso, a lectio me predispõe à ação, à evangelização, à caridade, feita de serviço (sob o modelo ainda de Maria, que vai depressa ter com Isabel), ao encontro com os homens, para comunicar-lhes Deus e os valores do mundo do espírito. Assim, o meu meditar se faz escatologia e, ao mesmo tempo, ação: "produz aquele fruto acelera o evento final, a volta de Cristo, e é, ao mesmo tempo, que

profecia dele" (Enzo Bianchi).

Assim a Contemplação se coloca em estreita relação com a ação, da qual se torna, no cristão, a alma e o princípio inspirador. E da pergunta inicial: "O que deverei esperar?", segue-se-lhe esta outra: "O que devo fazer?". É a última fase que podemos apontar para a lectio: a Ação.


5 - Ação: procuro realizar a Palavra


"A Ação é postulada pela Contemplação. O ver Jesus exige reconhecer que ele nos manda e nos pede que amemos como ele amou. A Palavra lida, meditada, pregada e contemplada opera por nosso meio e nos transforma, e aos outros, em Cristo" (cf. Pacômio, 44).

De fato, a lectio produz em mim um enriquecimento interior, com os frutos do Espírito: dá-me uma alegria íntima, faz-me provar o gosto pela Escritura, torna-me capaz de discernir entre o que é obra do mal e o que é essencial e obra de Deus. E sinto que me dá a coragem da escolha e da ação concreta, por amor.

Como dizia limpidamente Santo Ambrósio, "a lectio divina nos leva à prática de boas ações”.

Conheço a bem-aventurança do Senhor: "Felizes são os que ouvem a Palavra de Deus e a colocam em prática" (Lc 11,28). Sinto que não posso considerar concluído o itinerário da lectio com a Contemplação: a minha estrutura psicológica agora me conduz espontaneamente a agir.

A Palavra se fez para mim escola de vida, a lectio divina me orienta para a ação. Sinto que, se falta essa tradução nos fatos, a Palavra - como disse o cardeal Martini - "murcha e morre em nós".

Recordo Jesus: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a colocam em prática" (Lc 8,21). Recordo Seu ensinamento: "... o maior entre vós seja como o mais novo, e o que manda, como quem está servindo. Afinal, quem é o maior: o que está à mesa ou o que está servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve" (Lc 22,26-27).


Conclusão: agradecimento pelo dom da Palavra


Assim, no fim da lectio divina me vem espontaneamente um empenho prático para ser realizado, que me ajude a crescer na vida cristã e se torne útil também para quem está ao meu lado no corre-corre cotidiano.

O agir que conclui a lectio essencialmente é um comportamento segundo Deus, que nasce espontâneo no cristão guiado pelo Espírito. Não um agir qualquer, mas um opus Dei, uma obra segundo Deus. Sua especificação será realizada de acordo com a consciência cristã, com as catorze obras de misericórdia, chamadas por sua vez opera Christi, as obras de Cristo. Primeiro, texto de teologia moral cristã com uma abordagem

inteiramente positiva, com o elenco das coisas que deviam ser feitas, e não proibições.

Com a Ação o círculo se fecha. A Ação impede que a lectio se reduza ao documento, mas faz irromper a Palavra na minha vida. Agora sinto claramente que a lectio não é simples leitura (uma pura atividade da mente), mas que a Palavra amolda-se à minha existência e exige que eu saiba encarná-la, agindo no cotidiano.


Conclusão: agradecimento pelo dom da Palavra


Por fim, ao término da lectio, dizemos com simplicidade a Deus: um muito obrigado pelo dom da Palavra que hoje recebi; ter vontade de cumprir com empenho o que me propus; sentir a alegria de poder levar a minha pedrinha para a construção do Reino.

Em primeiro lugar agradeço pelo dom da lectio, que me fez encontrar-me com Deus.


Com a Leitura eu O ouvi na Sua Palavra; com a Meditação escutei a Sua mensagem no meu coração; com a Oração dialoguei pessoalmente com Ele; com a Contemplação entrei para a festa do Seu mistério; com a Ação vou testemunhá-lo com a vida.


Como agradecer? Existem tantos modos, mas vou preferir uma oração espontânea, voltada para Aquele que me falou: uma oração que seja também o meu modo de resumir tudo e de renovar a vontade de viver a Palavra.

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