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Os cinco degraus para a lectio divina - Parte 2

Atualizado: 17 de dez. de 2022


(Cont. da Parte 1)


e) Um método recomendado é ler a Bíblia com a Bíblia. Coloco meu texto em confronto com o seu contexto imediato, com um contexto mais amplo, os assim chamados passos paralelos, a Bíblia toda.

Muitas Bíblias, como a Bíblia de Jerusalém indicam, à margem, as principais passagens paralelas, e no rodapé oferecem notas ricas de informações.


Posso recorrer ao subsídio de comentários bíblicos. Talvez eu tenha também um livro de concordâncias, uma sinopse: subsídios que me ajudam a compreender melhor o significado genuíno da linguagem bíblica, dos gêneros literários usados pelos autores inspirados. Hoje, graças a Deus, nas livrarias e bibliotecas se encontram muitas obras sérias, de tipo exegético. Com essa ajuda evitarei entender mal a mensagem.


f) A lectio exige que eu seja um exegeta de profissão? Se eu o for, tanto melhor. Dizia Santa Teresa de Lisieux: "Se eu me tornasse padre, teria estudado a fundo o hebraico e o grego, para conhecer o pensamento divino como Deus se dignou exprimi-lo em linguagem humana", (pensamento que M. Zerwick colocou como citação ao seu famoso texto de análise filológica do Novo Testamento).


E se estou dando os primeiros passos no conhecimento da Bíblia?


Poderia estar numa situação - diríamos assim - de analfabetismo bíblico, ou quase, como se na questão da cultura religiosa estivesse ainda de "calça curta". Não faz mal, Aquele em que me encontro é o ponto de partida e um convite para crescer. Eu me armarei de paciência e tenacidade. Pensando em quanto, normalmente, custa adquirir competência em qualquer setor das ciências. Se, porém, me encontro inserido num

ambiente de vida cristã, olharei para os lados e procurarei encontrar um guia que me oriente no trabalho.

Assim, no silêncio e no recolhimento vigilante, posso colocar-me à escuta Daquele que me fala.

2 - Meditação: como ruminar a Palavra

A leitura me tornou familiar o texto, mas poderia ter conseguido um conhecimento somente exterior, filológico, histórico, técnico. Poderia ter feito da Bíblia "um objeto de especulação", ou de "conhecimento pelo conhecimento"; e essa é uma atividade que também um ateu pode realizar..." (Bianchi). Se, ao invés, leio como crente, o texto, em certo sentido, torna-se um pouco palavra minha, como se também eu fosse autor (Cassiano).

Ora, na segunda fase da lectio divina pretendo meditar o texto. Tomá-lo em consideração de modo intensivo e prolongado. Uma atividade que mobiliza em mim a inteligência, a memória, a fantasia e também a afetividade. Com um empenho de memorização, reflexão, interpretação, penetração do sentido. Em suma, de plena assimilação.


No meditar a Palavra, Deus me envolve mais diretamente e também me propõe como ao profeta Ezequiel: "Põe em teu coração as palavras que eu te disser" (Ez 3,10). Tomo consciência de que não se trata simplesmente de um entender em nível intelectual. Agora faço minha a atitude do salmista: "Ouvirei o que diz o Senhor Deus" (Sl 85,9). A

atitude de Maria, que me precedeu com o exemplo: Lucas nos recordou, por duas vezes, que Maria, assistindo estupefata às vicissitudes do Seu filho Jesus, "guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração" (Lc 2,19 e 2,51).


a) Ruminar, mastigar. Os antigos mestres de espírito descreveram a meditação com uma linguagem fantasiosa, mas expressiva. Falavam, por exemplo, de ruminação. Cesário de Arles (470-542) considerava o comportamento do ruminar como uma virtude purificante: curiosamente segundo os israelitas - os ruminantes eram considerados os "animais puros", portanto aptos ao culto divino; Cesário dizia que a ruminação das Escrituras era plenamente adequada aos monges (mas também para cada cristão). Eles refletem sobre o que compreenderam ao ler, e na prática o conservam por bom tempo "na boca de seus corações".

No mesmo sentido, São Gregório Magno recorria a outro sinônimo: masticatio (mastigação). Mastigar o texto por bom tempo para fazer emergir todo o seu valor, em confronto pessoal com a própria vida.



b) A formiga, a abelha, a peneira. Os antigos mestres de espírito recorriam também a outras imagens pitorescas, tomadas de empréstimo segundo os israelitas - os ruminantes eram considerados os da natureza e da Bíblia. E com elas indicavam os três momentos em que se pode articular a meditação.

O primeiro momento é o da coleta diligente das particularidades do texto, que me levarão a formular a mensagem central do mesmo texto.

Cabe a mim fazer como a formiga, que acumula o alimento, ajunta-o com diligência e o amontoa no seu celeiro (cf. Pr 6,6-11).

O segundo momento é aquele em que, a partir da coleta feita anteriormente, saberei tirar minhas reflexões: como a abelha operária, que depois de haver pousado sobre cada flor para retirar o pólen, agora, com paciência metódica, o transforma em mel. Curiosa a história das palavras: o verbo grego meletào assume esses dois significados: "fazer o mel" e "meditar". Meditar torna-se assim um agir cuidadosamente - a exemplo das abelhas - ao redor da Palavra, para transformá-la em algo vital para mim.

O terceiro momento é exatamente o tempo no qual realizo o confronto da Palavra com a minha vida. Sirvo-me da peneira, que me permite separar o grão da palha, a mensagem do que é secundário. A Palavra, assim selecionada, torna-se toda calor, luz e força: sinto que me esquenta e me orienta no caminho da vida, vivida segundo Deus.


c) Fora da linguagem poética dos padres, com a meditação chego a perceber os significados espirituais da passagem. Segundo a antiga "doutrina dos quatro sentidos da Escritura", lanço-me além do sentido fundamental, o literal, e procuro colher os três outros sentidos espirituais dos quais já havíamos falado, o sentido alegórico: se meditada com atenção, posso encontrar, em cada página da Bíblia, uma mensagem referente a Cristo e à sua Igreja (Martinho Lutero, um enamorado da Bíblia, escreveu: "Como uma

mãe que se aproxima do berço unicamente para aí encontrar seu filho, assim nós nos aproximamos da Bíblia unicamente para aí encontrar Cristo"); depois, o sentido moral: lanço um olhar sobre a minha vida e encontro na perícope em que medito o convite a viver melhor minha fé, a converter-me, a um agir mais cristão; por fim, o sentido anagógico: percebo como última meta da minha vida a necessidade de realizar, com os outros, o projeto de Deus para o mundo.


d) Concretamente, posso facilitar minha meditação com uma série de perguntas, que colocarei sobre a página lida: "Que relação esta passagem pode ter com o tempo que estou vivendo? De que modo me diz respeito? Isto é, me interpela por algum acontecimento pessoal passado, ou pela minha visão do mundo, ou pelos programas que, talvez, esteja projetando? Como sou provocado pelos grandes valores que estão por trás das ações descritas, das palavras pronunciadas, dos sujeitos em ação?

Com qual personagem do texto estou em consonância ou me sinto em posição antagônica? Como poderei, da minha parte, exprimir esses sentimentos com a minha vida?"

Assim, abrem-se para mim espaços de reflexão imprevisíveis, de uma amplitude vertiginosa. Não mais meramente ciência, mas sabedoria, busca do sabor no Espírito. Sinto meu coração em sintonia com o coração de Deus.


e) Também para a meditação posso me fazer ajudar por comentários à Palavra de Deus, agora não somente exegéticos, mas sobretudo de estilo espiritual; e também eles são numerosos nas livrarias, se já não fazem parte da minha biblioteca particular.

A primeira fonte da qual se valer são os Santos Padres, com um material imenso.

Outra fonte a ser considerada é o vastíssimo conjunto dos escritos dos santos. E "a Me-

ditação vai se beneficiar também da utilização daqueles autênticos mestres de espírito, dos tempos recentes, que recebem o nome de novos Padres, isto é, teólogos que souberam colocar em destaque as constantes espirituais das Escrituras". Como por exemplo: Pascal, Maritain, Péguy, Guardini, Balthasar, de Lubac, Congar, Chenu, Newman...


Mas pode-se ainda falar de lectio contida em apenas uma hora?


f) Atualização. Feita a Meditação - ruminação ou mastigação, como se queira dizer - colho um objetivo fundamental: a atualização do texto.

Se a lectio pedia um calar-se no passado, agora retorno ao presente. É o convite do salmista: "Quem dera que hoje ouvísseis sua voz" (Sl 95,8).


3 - Oração: falar a Deus com sua Palavra


Do passado até hoje, ao meu hoje. Procuro colocar o texto bíblico no horizonte da minha existência, da minha realidade pessoal e social.

Nessa operação decisiva para o êxito da lectio, Jesus é meu modelo.

Jesus na sinagoga de Nazaré lê um trecho do profeta Isaías, e depois, com referência explícita a si mesmo, declara: "Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura".

Pois bem, "é isso o que devemos fazer, toda vez que participamos de uma lectio divina. De outra forma nos colocamos num plano meramente especulativo, quando não arqueológico... Cada crente... tem em Cristo a capacidade de atualizar o texto"(Bianchi).

Assim a Palavra, que é força de Deus, me ajuda a julgar minha situação, meu hoje. Confronto o texto com minha vida e encontro nele uma verdade escondida que não é só ciência, mas "sabor da Palavra" para mim, neste momento. E orientará minha lectio para a ação.


g) Terei uma comprovação de ter feito bem meu trabalho, durante o dia, ou depois, em circunstâncias particulares da vida, se me vier espontaneamente à mente o que conclui meditando, e se tornará útil para as minhas escolhas. A página ruminada se funde assim com a experiência precedente amadurecida com os anos, enriquece-a e me projeta com realismo para o futuro. Porque as verdades de Deus - oportunamente por mim meditadas - têm como escopo último jorrar na minha vida.

Santo Agostinho ensinava: "Quando você lê a sagrada Escritura, Deus lhe fala. Quando você reza, você fala a Deus". Minha Meditação benfeita me leva espontaneamente à Oração. Como poderia subtrair-me a esse colóquio? É uma necessidade de todo o meu ser, uma orientação do coração humano.

Todas as religiões têm a sua forma de oração. O mundo hebraico exprime-o exteriormente na sinagoga ou junto ao muro das lamentações.

O mundo árabe, nas mesquitas, no ramadã. Conhecemos as experiências hinduístas, budistas e as do mundo antigo indo-americano. E eu, como cristão, sinto que a necessidade de rezar se torna um imperativo quando meditei a Palavra de Deus.


A Bíblia, com suas páginas ricas de sentido, é a minha escola.

Ensina-me a relacionar-me com o Senhor, orienta minha atenção para Ele, faz Dele o centro do meu interesse. Descubro no Pai aquele que ouve o grito do pobre, não deixa calar a voz da viúva, veste os lírios do campo, dá o alimento aos pássaros do céu. Assim, sinto nascer em mim uma dependência confiante, serena e libertadora; um reconhecimento espontâneo, genuíno; a necessidade de agradecer, louvar, pedir, doar-me.


Com a Meditação descobri o que Deus me diz no segredo da consciência; agora quero responder à sua Palavra e a resposta é a oração. Sinto necessidade de fechar os livros e abrir-me ao diálogo. De dizer sim à vontade de Deus, ao seu projeto sobre a minha existência e sobre o mundo.

Como farei? Falarei a Deus com a Sua Palavra. Voltarei a atenção para os motivos de orar que me foram sugeridos pelo texto meditado.

Eles é que me dirão o quê e como rezar. Agostinho havia sugerido: "Se o texto é oração, rezai; se é gemido, gemei; se é reconhecimento, ficai felizes; se um texto de esperança, esperai; se exprime o temor, temei. Porque as coisas sentidas no texto bíblico são o espelho de vós mesmos".

Então, articularei minha oração de várias formas: pedido de perdão, agradecimento, louvor e bênção, intercessão, pedido de ajuda. E tudo com relação a Deus, a mim mesmo, à realidade histórica da comunidade na qual estou inserido, ao mundo inteiro.


a) Necessidade de ser perdoado, antes de tudo. Do confronto com a Palavra, aguça-se em mim o sentido da minha pobreza, da minha situacão de pecado, o desejo de intensificar o caminho da conversão.


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