O homem mau odeia a si mesmo
Atualizado: 17 de set.

Diz-se que o homem é um ser, pelo que há nele de principal; ora, o que há de principal no homem é o espírito racional, sendo secundária a natureza sensitiva e corpórea. E desses dois elementos o Apóstolo chama ao primeiro homem interior, ao segundo, exterior. (II Cor., 4). Os bons consideram como o que tem de principal a natureza racional, ou, o homem interior; e assim julgando, consideram-se como sendo o que são. Os maus, porém, julgam ter como elemento principal a natureza sensitiva e corpórea, isto é, o homem exterior. Por onde, não se conhecendo a si mesmos, a si mesmos não se amam verdadeiramente, mas se amam pelo que se julgam ser. Ao contrário, os bons, conhecendo-se verdadeiramente a si mesmos, verdadeiramente a si mesmos se amam. E isto se prova por cinco elementos próprios à amizade:
1º. Todo amigo quer que o amigo exista e viva;
2º. Quer-lhe bens;
3º. Faz-lhe bens;
4º. Tem prazer em conviver com ele;
5º. Concorda com ele, alegrando-se e entristecendo-se ambos com as mesmas coisas.
E assim sendo, os bons amam-se a si mesmos, no concernente ao homem interior, por quererem conservá-lo na sua integridade. E lhe desejam os bens próprios dele, que são os espirituais; e também se esforçam para que os consiga. E tem prazer em se concentrar no seu espírito porque nele encontram os bons pensamentos, no presente, a memória dos bens passados e a esperança dos futuros, que lhes é causa de prazer. Semelhantemente, não padecem dissensão na vontade, porque toda a sua alma tende para um mesmo fim. Os maus não querem conservar a integridade do homem interior; nem lhe desejam os bens espirituais; nem se esforçam por tal; nem tem prazer em conviver consigo mesmos, concentrando-se no seu espírito, porque nele encontram males presentes, passados e futuros, que aborrecem.
Nem vivem em concórdia consigo mesmos, por causa da consciência que os remorde, conforme aquilo da Escritura (XLIX, 21): “Arguir-te-ei e te porei diante da tua cara”. E pela mesma via pode-se provar que os maus se amam a si mesmos, no concernente à corrupção do homem exterior. Ora, em tal sentido, os bons não se amam a si mesmos.
Assim, pois, o amor a si, que é o princípio do pecado, é próprio dos maus e chega até o desprezo de Deus; porque os maus amam os bens externos a ponto de desprezarem os espirituais.
(Santo Tomás de Aquino, S.T. 2ª 2ae, q. XXV, a. 7)
Texto transcrito e elaborado por Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos
✅Síntese do Conteúdo
A verdadeira amizade consigo mesmo: quando o homem interior ilumina o exterior
Começo por referir que o artigo original apresenta uma distinção decisiva para compreender o coração humano, no interior do homem temos a sua alma racional e no exterior do homem a sua dimensão sensitiva e corpórea. A partir dessa diferença, torna-se possível perceber por que o homem bom ama-se verdadeiramente e por que o homem mau, ainda que pense amar-se, acaba por odiar-se naquilo que é essencial. Esta distinção não é apenas conceptual, mas existencial, definindo o modo como cada pessoa se percebe, se conduz e se relaciona consigo mesma. Quando o homem se identifica com o que é secundário no corpo, os seus impulsos, as suas paixões e no que toca nos bens exteriores, ele passa a amar uma imagem distorcida de si, uma sombra que não corresponde à sua verdadeira dignidade. Assim, o amor próprio torna-se ilusório, porque se dirige ao que é passageiro, frágil e incapaz de sustentar a vida interior. O homem mau, ao recolher-se ao silêncio da alma, encontra inquietação, lembranças que o ferem, culpas que o acusam e temores que o perseguem; por isso evita a interioridade, foge de si mesmo e busca refúgio no exterior, onde acredita encontrar alívio, mas apenas prolonga a própria desordem.
O homem bom, ao contrário, reconhece que o essencial é o espírito racional, onde reside a verdade do seu ser. Ele ama-se verdadeiramente porque ama aquilo que é permanente, aquilo que o liga a Deus e que o torna capaz de virtude. Conserva a integridade do homem interior, deseja-lhe os bens espirituais e esforça-se por alcançá-los. Quando se recolhe ao próprio espírito, encontra paz e concórdia: a memória dos bens passados, a presença dos bens atuais e a esperança dos futuros formam nele uma harmonia que o sustenta. A sua vontade não se dispersa, mas converge para um único fim, e por isso vive unificado, inteiro, amigo de si mesmo. A alma torna-se lugar de repouso, não de tormento; de luz, não de acusação.
Desta forma, compreende-se que o amor próprio desordenado, vê-se naquele que nasce da identificação como o homem exterior, é o princípio do pecado. Ele conduz ao desprezo dos bens espirituais e finalmente, ao desprezo de Deus. O homem mau ama tanto os bens exteriores que sacrifica por eles aquilo que é eterno, tornando-se escravo daquilo que deveria servir apenas como instrumento. O homem bom, porém, ama-se de modo ordenado: ama o espírito, ama a verdade, ama o bem, e por isso ama também a Deus, que é a fonte de tudo o que o torna verdadeiramente humano. Amar-se corretamente é reconhecer que a alma é mais valiosa que qualquer aparência, que a verdade é mais sólida que qualquer sensação e que Deus é mais íntimo ao homem do que o próprio homem exterior.
Diante desta distinção entre o homem interior e o homem exterior, torna-se evidente que toda a vida espiritual é uma obra de retorno ao centro. O homem não se perde porque enfrenta o mundo, mas porque se dispersa dentro de si. Quando a alma deixa de ser o lugar da verdade e da escuta, o exterior torna-se tirano e o coração, que deveria ser templo, transforma-se em campo de batalha. Por isso, o caminho da conversão não começa por abandonar o mundo, mas por reencontrar-se; não começa por rejeitar o corpo, mas por recolocar cada coisa na sua ordem; não começa por grandes gestos, mas por um olhar honesto para dentro, onde Deus espera silenciosamente.
O homem bom não é aquele que não tem fragilidades, mas aquele que aprendeu a habitar a própria alma. Ele sabe que a verdadeira paz não nasce da ausência de conflitos exteriores, mas da presença de Deus no interior. Sabe que o amor verdadeiro não é sentimentalismo, mas ordem; não é impulso, mas verdade; não é fuga, mas permanência. E porque ama o que é essencial, torna-se capaz de amar também o que é secundário sem se deixar escravizar por ele. O homem bom é livre porque ama corretamente; o homem mau é escravo porque ama desordenadamente.
Assim nos leva a compreender esta dinâmica interior, não é apenas um exercício intelectual, mas uma chave para a vida espiritual. Quem descobre o valor do homem interior aprende a caminhar com firmeza, a discernir com clareza e a amar com profundidade. Quem se reconcilia consigo mesmo abre espaço para que Deus o transforme, porque a graça só atua plenamente onde encontra verdade. No fim, toda a santidade é deixar que Deus ordene o coração, para que o amor próprio se torne caminho para o amor divino.
Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
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