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Jesus, Nossa Alimentação na Mesa Eucarística: Comunhão




Para nos fortalecer nos sentimentos de confiança e de amor que nos inspiram a presença de Jesus Cristo no tabernáculo, a sua imolação sobre o altar, e para aumentá-los ainda, auxiliemo-nos com uma suposição muito simples.



Onde está o rei, aí está a corte; os anjos formavam sempre o cortejo invisível de Jesus Cristo durante a sua vida mortal; e imaginemos que o Salvador algumas horas antes de instituir a Eucaristia, houvesse feito a confidência deste desígnio aos espíritos bem-

aventurados, que o rodeavam, e que lhes falasse nos seguintes termos: Vedes que há 33 anos que habito no meio dos homens sem conseguir afeiçoar os seus corações. Os meus discursos, milagres e benefícios alcançaram-me mais admiradores do que verdadeiros discípulos. Amanhã vou morrer por eles no interesse da sua salvação, para reconciliá-los com meu Pai, para fechar o inferno debaixo de seus pés, e abrir o céu sobre as suas cabeças, vou padecer um suplício, onde o excesso da infâmia será reunido ao excesso da dor. Pois podereis acreditá-lo, espíritos celestes? Se aos trabalhos da minha vida, aos sofrimentos e ignomínia da minha morte, não acrescento alguns novos meios de vencer a sua insensibilidade para comigo, continuariam a esquecer-me, a mim e a meu Pai, levando todas as suas afeições para as criaturas.


Respondem os anjos espantados: Mas, Senhor, que podeis vós acrescentar a tantos testemunhos de amor, quando principalmente lhe houverdes posto o remate pela vossa própria imolação, que no céu produzirá admiração eterna?

Responde o Salvador: O que eu posso fazer além disso e o que vou fazer é não me separar deles, ainda morrendo por eles; é fixar-me no meio do meu povo, cativo da minha ternura, para o não deixar nunca; achar-me-ei sempre no meio daqueles que eu amo, oferecendo-lhes constantemente as consolações da minha presença, as riquezas da minha graça e todos os socorros da minha onipotência; terei uma casa contígua às suas casas, habitarei sempre aí para derramar os meus benefícios com profusão ilimitada sobre qualquer que venha adorar-me e reclamar a minha assistência.


A uma linguagem tão inesperada, afigurasse-nos ouvir os anjos exclamar no maior transporte: Ó Deus, amigo dos homens! Que invenção da vossa caridade para ganhar seus corações! Haverá algum que não seja abrasado pelo vosso amor? Ó mortais! Vós

partilhareis da nossa felicidade! E com que ardor vos encaminhareis à causa do vosso Deus! Quanto vos parecerão curtos os momentos que passardes na sua presença; com que confiança ireis dizer-lhe as vossas aflições e expandir no seu coração os vossos corações!

Que encantos terá para vós essa divina presença!


Continua o Salvador, interrompendo os anjos: Todavia, não é só isso o que quero fazer para a felicidade dos homens; o que acabo de dizer não é senão uma parte do novo favor que lhe destino; e vede até que ponto eles me são caros. Conheço a sua fraqueza; são impotentes a render a meu Pai homenagens proporcionais à sua grandeza, ações de graças correspondentes aos seus benefícios; são principalmente incapazes de satisfazer à sua justiça pelos pecados que cometerem. Vou deixar-lhes um sacrifício, que suprirá tudo o que lhes falta; serei a um tempo vítima e sacerdote. O mistério da minha morte que vos parece, com razão, o mais perfeito testemunho do meu amor, vou continuá-lo e perpetuá-lo no meio deles. Todos os dias, sobre milhares de altares, serei oferecido aos olhos de meu Pai no estado de imolação, em que Ele me verá amanhã, exalando o último suspiro sobre uma cruz, pelos interesses da sua glória e salvação dos homens; mas não param ainda aqui os desígnios da minha ternura em favor daqueles que adoto para meus irmãos. É nos seus corações, é no centro do seu corpo, que vou estabelecer a minha morada; serei o seu alimento, comerão a minha carne e beberão o meu sangue; transformarei a sua vida humana na minha vida divina. E esse favor não será só concedido aos meus sacerdotes, mas a todos os meus discípulos de qualquer classe e condição que sejam; nenhum será excluído do meu real banquete, salvo quem assim o quiser.


Admirados com que acabam de ouvir, só com o silêncio podem os anjos exprimir o seu espanto. Mas que acontece ainda? Afastemos por um momento o nosso espírito de uma lembrança tão contristadora, para só pensar na união contraída por Jesus Cristo com a alma fiel, que o recebe na comunhão. Considerá-la-emos por três modos diversos: em si mesma, e veremos quanto é intima e inefável; em Jesus Cristo, e seremos arrebatados pelo desejo ardente, que ele tem, de contraí-la connosco; em nós mesmos, e compreenderemos com que ardor devemos desejá-la.


Falamos da intimidade dessa união considerada em si mesma. Uma reflexão, que não pode escapar a uma alma atenta é que a palavra de que nos servimos para exprimir a

participação da mesa eucarística não contém outra ideia senão a da união, porque é o efeito próprio e direto que produz o adorável sacramento naqueles que o recebem; a comunhão é a aliança ou união do homem com Jesus Cristo. Mas a intimidade dessa união e os seus laços apertados não encontram na linguagem humana palavras para defini-la; e nós não compreenderemos na terra até que ponto ela é estreita.


O Salvador nos tinha já enobrecido pelas gloriosas relações, que estabeleceu entre nós e a sua divina pessoa. Já Ele tinha achado meios de aproximar estes dois extremos, a nossa baixeza e a sua infinita grandeza; já nos havia unido da qualidade de Mestre como

discípulos, em qualidade de amigo como amigos, por que se dignou dar-nos este nome e desempenhou para connosco todos os deveres da mais perfeita amizade.

Poderíamos nós pensar que tantas alianças, contraídas com a nossa mísera natureza, seriam suficientes para contentar o desejo, que Ele tinha, de avizinhar-se de nós sendo apenas o prelúdio da união eucarística mil vezes mais espantosa? Quando a Escritura

nos mostra o Senhor conversando familiarmente com o primeiro homem nos dias da sua inocência; quando no-lo representa na série dos séculos despojado dos esplendores da sua glória, revestido da nossa carne percorrendo a cidade e os campos, aproximando-se

dos pequenos e dos grandes, indo Ele mesmo procurar os pecadores e chamando para a volta de si todos os que sofriam, admiro nisto uma condescendência e uma bondade que deveriam triunfar de todos os corações; mas que essa infinita majestade se faça nosso alimento, se identifique de alguma forma connosco, numa palavra, se una a nós como pão, que comemos, se une ao nosso corpo, poderíamos crê-lo ou imaginá-lo? Eis, todavia, o que a nossa fé nos ensina sobre o que a menor dúvida seria um crime. Não se

trata aqui só de uma união moral, tal como a amizade que liga dois corações, quais foram os de Jônatas e Davi, dos quais se dizia que a alma de um estava colada à alma do outro.


Não é só essa união sobrenatural, que Deus contrai connosco pela graça santificante, e por virtude da qual nos tornamos os templos, que Ele habita, os filhos, que Ele ama. Estas duas uniões morais e sobrenaturais são bem necessárias como preparação àquela de que falamos, mas esta última excede-as infinitamente. É uma união substancial, cujo apoio é Jesus Cristo, vida e alma da nossa alma de modo tal que não fazemos senão um com Ele; e, segundo a expressão de Santo Agostinho, o cristão, assim divinizado com a sua união com Jesus Cristo, não é senão um mesmo Cristo com Jesus Cristo mesmo. Os Santos Padres e os mestres da vida espiritual serviram-se de diversas comparações para explicar esta união tanto quanto é possível. A mais conhecida é a de São Cirilo de Alexandria: "Quando se fundem juntamente dois pedaços de cera ficam reunidos em um só; é o que sucede na comunhão eucarística: Jesus Cristo está em nós, e nós estamos n'Ele; a nossa alma torna-se a mesma com a de Jesus, o nosso corpo o mesmo corpo com o d'Ele."


Lois de Blois serve-se duma comparação, expondo esta aliança sagrada, que dá ideia justa dos seus felizes efeitos. Cita este texto de São Paulo: "Aquele que adere a Deus, que é o que faz a alma que comunga, não é senão o mesmo espírito com Deus (1Cor 6, 17)." E continua:

"Ligando-se a Deus, despoja-se o homem do que tinha de terrestre e humano em excesso; liberta-se das más inclinações viciosas para assumir as divinas, transforma-se e muda-se, por assim dizer, em Deus. Veja-se o ferro quando se tira da fornalha; quanto é diferente do que era quando entrou! Um brilho substituiu a ferrugem que o cobria; estava duro e agora é candente; estava duro e agora é flexível. Será ferro ou fogo? É ferro que tomou as propriedades do fogo. Assim a alma, que se une a Deus pelo uso frequente da Santa Comunhão, perde insensivelmente as suas imperfeições e defeitos; morre para si e para todas as coisas criadas; vive só em Deus e para Deus: de frouxa. que era. tornou-se cheia de um celeste ardor, para ela a luz substituiu as trevas; a sua dureza e indocilidade mudaram-se em ternura e em docilidade aos movimentos da graça. Compenetrou-se da divina essência."


Mas de todas as comparações a mais perfeita, sem contradição, é a que emprega Jesus Cristo mesmo quando disse: "Como meu Pai, que me enviou, está vivo, e como eu vivo por meu Pai, assim aquele que me come viverá por mim. (Jo 6, 57)"

A mesma vida que eu recebo de meu Pai, meus discípulos a recebem de mim; eu vivo de meu Pai e eles vivem de mim; tudo que Ele me dará, e tudo que eu sou, dou-o aos meus discípulos.


E quem não poderá agora admirar-se das magnificas promessas, ligadas pelo Salvador à Santa Comunhão? Lembremos uma: "Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e ressuscitá-lo-ei no último dia. (Jo 6, 54)"


Pesemos estas últimas palavras, Jesus não diz que este feliz discípulo terá vida eterna, mas sim que ele a tem; adquiriu a propriedade dela pela comunhão; e no deixar esta triste vida entrará na posse dessa rica herança, que já lhe pertence. O justo só morre aparentemente; na realidade ele adormece no seio da paz. O que parece uma morte aos olhos dos insensatos não é senão um sono. (Sb 3, 2). Jesus o despertará no dia da ressurreição e cada comunhão, que ele faz, é um penhor que recebe da sua gloriosa imortalidade.


Um doutor da Igreja pergunta como há espíritos tão pouco sensatos que recusem a esperança da vida eterna aos corpos que tiveram a honra de comer a carne de um Homem-Deus, no qual reside a origem da imortalidade. O Senhor não permitirá que uma carne consagrada tantas vezes pela sua união com a d'Ele, alimentada com a sua própria substância, permaneça sempre no estado e corrupção, ao qual vai reduzi-la a morte (SI 15 (16), 10). Ele não sofre que estes santuários da sua divindade caiam para nunca mais se erguerem na degradação do túmulo. A morte consolar-se-ia de ver a Deus um instante debaixo do seu império se ela pudesse reter eternamente aqueles que Deus fez semelhantes a si na participação do seu sacramento. Nós temos com Deus relações tão profundas e tão íntimas que a nossa gloriosa ressurreição é a consequência necessária da de Jesus Cristo. Que mais é necessário para fortalecer a nossa esperança e tornar impossível todo o desalento?

Eis, todavia, um motivo de confiança e de amor que excede tudo quanto havemos dito sobre o mistério da Eucaristia.




Padre Pierre Chaignon


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