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A instituição da Eucaristia como revelação do sentido teológico do Calvário




A PAIXÃO DE JESUS INICIOU-SE na última ceia. Ao instituir a Eucaristia, Ele revelou o sentido teológico do Calvário. Sem a instituição da Eucaristia, o Calvário teria sido a expressão do fracasso da missão de Jesus. Ainda mais: para os judeus, a crucificação era sinal de que a pessoa tinha sido abandonada por Deus e por Ele amaldiçoada. Ao instituir a Eucaristia, Jesus revelou o sentido teológico do Calvário. Na Cruz, Ele iria realizar uma nova aliança. Por amor iria oferecer a sua vida ao Pai, mas oferecê-la em nosso favor, para nossa salvação. Ao tomar o pão e o cálice com vinho em suas mãos e pronunciar as palavras da instituição, Jesus recapitulou também toda sua vida como dom e serviço:

<< - (...) o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.>> (cf. Mt 20,25)


Após a instituição da Eucaristia, Jesus caminhou com os seus apóstolos para o lugar onde tinha o costume de se reunir com eles: o Monte das Oliveiras (cf. Mc 14,26). Enquanto caminhavam, Jesus fez duplo anúncio. No primeiro, se referiu ao abandono dos discípulos por ocasião da Paixão e, ao mesmo tempo, o encontro com eles após a ressurreição:


<< - Todos vós vos escandalizareis, porque está escrito: "Ferirei o pastor a as ovelhas se dispersarão" (palavras significativas, que anunciam o abandono total de Jesus) Mas, depois de ressurgir, eu vos precederei na Galileia.>> (Mc 14,27-28)


Pedro fez então uma afirmação categórica: <<- Ainda que todos se escandalizem, eu não o farei>>. (Mc 14,29)


A seguir, Jesus faz mais um anúncio dirigido diretamente Pedro: <<- Em verdade te digo que hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes me negarás.>> (Mc 14.30)



Mas Pedro não se deu por vencido e "reafirmou com mais veemência": << - mesmo que tivesse de morrer contigo, não te negaria.>>(Mc 14,31)

O evangelista acrescenta: << - e todos diziam o mesmo.>>


No Evangelho de Lucas, existe um pormenor significativo: quando Jesus anunciou a negação de seu principal discípulo, chamou-o pelo próprio nome: <<- Simão, Simão>>. (Lc 22,31).

Mas, quando ele, apesar do anúncio de Jesus, lhe responde manifestando confiança em si mesmo: << -Senhor, eu estou pronto para ir contigo até mesmo à paixão e à morte.>>(Lc 22,33)


Jesus o admoestou, chamando-o agora pelo nome que sua missão designa de fundamento visível da Igreja: << -Pedro (isto é, pedra, rocha), eu te digo que hoje, antes que o galo cante, três vezes negarás.>> Com essa advertência, Jesus recorda que ele não deve confiar em si para ser a rocha do edifício da Igreja. Ele, enquanto Simão, é apenas um monte de areia. Só a graça o poderá tornar Pedro, isto é, rocha.


Quando chegaram ao Getsémani. Jesus enfrentou a última tentação de sua trajetória messiânica, anunciada pelo evangelista Lucas já no início de seu ministério público. No deserto, ao preparar-se para sua missão, Jesus passou pela prova da tentação, que procurava afastá-lo de sua trajetória de Messias redentor. o caminho traçado por Deus.


Depois de narrar as três tentações, Lucas afirma que o diabo retirou-se para voltar no tempo oportuno (Lc 4,13). Este tempo oportuno foi o momento da Paixão. E satanás voltou com todas as suas forças: procurou sacudir os discípulos á semelhança do ceifador que peneira o trigo:


<<-Simão, Simão, eis que satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo: eu, porém, rezei por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu uma vez convertido, confirma os teus irmãos.>>


Este fato mostra que o ser humano pode tornar-se instrumento do mistério do mal no mundo. Também se pode dizer o mesmo a respeito das instituições políticas como o Império Romano (Ap. 12,3-9). Mas a ação de satanás não anula a liberdade. Lutando contra a tentação e vencendo-a, o ser humano se torna mais forte na fé. Por isso, no Pai Nosso, não pedimos a Deus que afaste de nós a tentação, mas que Ele nos dê força para vencê-la.


No momento da Paixão, ele realiza o último ataque contra Jesus, que o reconhece como aquele que tem o poder das trevas e age nas trevas: <<- Essa é a hora e o poder das trevas.>> (Lc 22,53) O poder das trevas agiu para que Jesus voltasse atrás no dom da vida realizado na instituição da Eucaristia. Tentação, pois, de interromper a trajetória de sua vida colocada a serviço. Jesus enfrenta a tentação buscando força na oração:

<<- Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice: contudo, não seja como eu quero, mas como Tu queres.>> (Mt 26,39)


Esta é uma oração que expressa, de um lado, a condição humana de Jesus e, de outro

lado, a sua intimidade única com o Pai, expressão da consciência que Ele tinha de sua filiação divina.


O contexto psicológico (solidão, angústia) torna ainda mais dramática e profunda a oração de Jesus:


Levando Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e angustiar-se. Disse-lhes então: <<-A minha alma está triste até a morte. Permanecei aqui e vigiai comigo>>. (Mt 26,31-38)


Afirma o evangelista que Ele "suava sangue" (Lc 22,44), expressão que designa seu esforço, sua luta interior, sua solidão e angústia.

Diante do sofrimento de Jesus, seus discípulos permaneciam indiferentes e mudos. O sono que toma conta dos discípulos significa ausência total, falta de compreensão da gravidade do momento, sinal de dureza de seus corações. Jesus interrogou Pedro:


<<- Simão, estás dormindo; não foste capaz de vigiar uma hora?>> (Mc 14.37)

Jesus se dirige a Pedro de modo particular, porque ele é o discípulo principal, o porta-

voz dos outros discípulos.


O evangelista Marcos afirma que Jesus "caiu por terra" e orava para que, se possível, se afastasse dele esta hora (Mc 14,35). Os judeus oravam de pé. A oração de joelhos ou com o rosto colado à terra era rara e tinha o objetivo de expressar humildade. A esse respeito, observa um exegeta: "Aqui aparece toda verdade de sua humanidade, o que faz Dele nosso irmão e nosso salvador no mais profundo de nossa miséria."


O autor da Carta aos Hebreus resume a oração de Jesus no Getsémani com estas palavras: "... elevou preces com veemente clamor e lágrimas.(5,7-9) O que o autor quer dizer é que Jesus orava soluçando. Na hora da angústia e solidão, Jesus invoca a Deus como Abbá, Pai Querido, conformando-se inteiramente com a Sua vontade. Esta é, de fato, a finalidade da oração: fazer com que a nossa vontade se torne uma só

realidade com a vontade de Deus. A aceitação da morte é o ato derradeiro de nossa total confiança em Deus.



Dom Benedito Beni dos Santos (Bispo Emérito)

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