A INQUIETAÇÃO
- Conteúdos Católicos

- há 4 dias
- 7 min de leitura

A inquietação não é simplesmente uma tentação, mas uma fonte de muitas tentações; por isso é necessário que diga algumas palavras sobre esse assunto.
A tristeza não é mais do que o pesar que sentimos de algum mal de que somos vítima – seja ele exterior, como a pobreza, doenças, o desprezo; ou então interior, como a ignorância, securas espirituais, repugnâncias ao bem, tentações.
A alma, pois, ao sentir-se em vista de algum mal, sente desgosto nisso, e eis aí a tristeza. O desejo de se livrar desse mal e de ter os meios necessários para isso a segue imediatamente; até aqui é razoável o nosso procedimento, porque todos fogem, por natureza, do mal e desejam o bem.
Se é pelo amor de Deus que a alma procura os meios de se livrar de seus males, os procurará decerto com paciência e doçura, com humildade e tranquilidade, esperando esse favor muito mais da amabilíssima providência de Deus do que de sua indústria, meios e trabalhos. Ao contrário, se é o amor-próprio que leva a procurar alívio, ele se revelará numa grande inquietação e desassossego, como se esse bem dependesse mais dele do que de Deus. Não digo que o amor-próprio pense assim, mas age como se pensasse assim.
Caso não se encontre imediatamente o que se deseja, torna-se irrequieto e impaciente; e, como essas inquietações, longe de aliviar o mal, o aumentam ainda por cima, a alma é dominada por uma grande tristeza, que, perdendo ao mesmo tempo a coragem e a força, faz com que os males cresçam sem remédio.
Estás vendo, pois, que a tristeza, por mais justa que seja ao princípio,
produz inquietações, e estas, por sua vez, tanto podem aumentar a tristeza que ela se torne extremamente perigosa.
A inquietação é o maior mal da alma, com exceção do pecado; assim, pois, como as sedições e as revoluções civis de um Estado o desolam inteiramente e o impedem de resistir aos inimigos exteriores, também o espírito inquieto e perturbado não tem força bastante nem para conservar as virtudes adquiridas, nem para resistir às tentações do inimigo, que envida então todos os seus esforços para pescar, como se diz, em águas turvas.
Provém o desassossego de um desejo desregrado de se livrar de um mal que se sente ou de adquirir um bem que se não possui; e, no entanto, nada há que mais aumente o mal e dificulte a aquisição do bem que exatamente a inquietação e a precipitação; assim como acontece aos passarinhos que, caindo numa armadilha, tanto mais se emaranham quanto mais se mexem.
Ao sentires, portanto, o desejo de te subtraíres a algum mal ou de alcançar algum bem, antes de tudo procura acalmar-te, tranquiliza teu espírito e teu coração, e só então segue o movimento do teu desejo, empregando calmamente e com ordem os meios conducentes ao teu intento. Dizendo, porém, calmamente, não entendo com isso negligentemente, mas sem precipitação e desassossego; de outra forma, longe de adquirir os teus intentos, perderias o tempo, só conseguindo te embaraçar mais e mais.
Minha alma, Senhor, está sempre em minhas mãos e não tenho esquecido Vossa lei, dizia Davi. Examina, Filoteia, mais de uma vez ao dia, principalmente pela manhã e à noite, se tens, como ele, a alma entre as mãos ou se alguma paixão ou desassossego te arrebatou. Considera se o teu coração ainda se submete sempre ao teu domínio ou se ele se tem escapulido de tuas mãos para se entregar a amores desregrados, à raiva, à inveja, à avareza, ao temor, à tristeza, à alegria; e se ele tem escapado, vai logo em sua procura e reconduze-o brandamente à presença de Deus, submetendo todos
os teus afetos e todos os teus desejos à obediência e beneplácito de Sua divina vontade. À semelhança daqueles que, temendo perder alguma coisa que lhes é muito preciosa, a guardam sempre em suas mãos, também nós, imitando o profeta rei, devemos dizer continuamente: Ó meu Deus, minha alma está em perigo de perder-se; por isso eu a trago sempre em minhas mãos e isso me impede de me esquecer de vossa santa lei. Jamais te deixes inquietar por teus desejos, por poucos e insignificantes que sejam; porque aos
pequenos seguirão os grandes, que acharão o teu coração bem-disposto à tristeza e ao desregramento. Sentindo-te, pois, inquieta, recomenda-te a Deus e toma a resolução de nada fazer daquilo que o desejo pede, se é que se possa adiar, enquanto não passar todo o desassossego; se a demora, porém, for prejudicial, então te esforça suavemente para reprimir ou moderar o teu desejo e faze então o que pensas que a razão e não o que o desejo exige de ti.
Se te é possível descobrir o teu desassossego ao teu confessor ou ao menos a um amigo confidente ou devoto, acharás imediatamente a calma, porque essa expansão de um coração agitado e inflamado o alivia tanto como uma sangria atenua a violência da febre de um doente; esse é o melhor remédio para o coração. Sim, diz o Rei São Luís a seu filho, tendo alguma coisa que te pese no coração, confia-a imediatamente ao teu confessor ou a alguma pessoa devota, porque a consolação que receberes te ajudará a suportar mais suavemente os teus trabalhos.
Dos escritos de São Francisco de Sales
O texto acima nos ajuda a refletir melhor quando a alma está inquieta e não convém tomar decisões precipitadas que possam causar arrependimentos depois.
Devemos confiar os nossos planos e desejos a Deus acima de tudo e com o coração sossegado e tranquilo, pensar no que é melhor fazer.
Mentes preocupadas e inquietas devem se acalmar e nada melhor que a oração para se adquirir as virtudes da paciência e prudência para somente depois dar o seguimento das coisas.
Uma pessoa também dada à ira fácil, irá agir sem cautela alguma e sofrerá as consequências no futuro.
Realmente que nada precipitado é bom. O necessário é respirar calmamente, voltar a se tranquilizar interiormente e repensar no que se deverá agir.
A impulsividade nas ações tem muito haver com a inquietação de mente e quem sofre deste mal, deve seguir atentamente esses ensinamentos.
Finalização de Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos
✅ Síntese do Conteúdo
A Inquietação da Alma e o Caminho da Paz Interior
Uma reflexão pessoal inspirada em São Francisco de Sales
Partilho hoje algo que brota do íntimo da minha alma, a experiência viva da inquietação. Não como quem observa de fora, mas como alguém que já sentiu a alma tremer diante de males reais ou imaginados, internos ou externos e que aprendeu às vezes pela dor, que a inquietação é mais do que uma simples tentação. Ela é uma fonte de muitas outras. Quando permito que ela se instale, percebo como se abre a porta para a impaciência, o desânimo, a precipitação e até mesmo para decisões que mais tarde reconheço como imprudentes.
Com o tempo compreendi que a tristeza, quando nasce do sofrimento, não é em si mesma um mal. Ela é o pesar natural diante daquilo que nos fere, uma doença, uma perda, uma humilhação, uma aridez espiritual, uma tentação persistente. A alma sente o golpe e reage com dor. Até aqui, tudo é humano. Tudo é compreensível.
Mas é no passo seguinte que descubro onde meu coração realmente repousa. Quando busco livrar-me do mal por amor de Deus, encontro em mim uma força suave, paciência, humildade, confiança. Sinto que caminho, mesmo ferido, apoiado na Providência. Porém, quando é o amor-próprio que toma a dianteira, tudo muda. A alma se agita como se dependesse apenas de si mesma para resolver o que a aflige. Não digo que eu pense conscientemente assim, mas ajo como se pensasse. E é aí que a inquietação nasce.
Quando não encontro imediatamente o que desejo, a impaciência cresce. E quanto mais me agito, mais percebo que o mal aumenta. A inquietação rouba a coragem, enfraquece a alma e abre espaço para tentações que, em tempos de paz interior, eu facilmente venceria. É como se o inimigo esperasse exatamente esse momento para “pescar em águas turvas”.
Aprendi, pela experiência, que a inquietação é um dos maiores males da alma, perdendo apenas para o pecado. Ela me desorganiza por dentro, como uma revolução interna que impede o espírito de resistir aos ataques exteriores e paradoxalmente, quanto mais me agito para sair de um mal, mais preso fico nele, como um pássaro que, tentando escapar da armadilha, se enreda ainda mais.
Por isso, quando sinto o desejo de me livrar de um sofrimento ou alcançar algum bem, preciso antes de tudo acalmar o coração. Não se trata de negligência, mas de ordem interior. Se ajo movido pela pressa, quase sempre me arrependo. Se ajo movido pela paz, mesmo que lentamente, avanço com segurança.
Davi dizia: “Minha alma está sempre em minhas mãos e não me esqueço da vossa lei.” Essa frase tornou-se para mim um exame diário. Pergunto-me pela manhã e à noite: a minha alma está realmente em minhas mãos? Ou já a entreguei à ira, ao medo, à tristeza, à ansiedade, à avareza, à inveja, à impaciência? Quando percebo que meu coração escapou do meu domínio, procuro recuperá-lo com doçura, trazendo-o de volta à presença de Deus. Não com violência, mas com firmeza amorosa.
Descobri também que não devo desprezar as pequenas inquietações. Elas são como pequenas rachaduras que, se ignoradas, se tornam brechas por onde entram tempestades. Se cedo nos pequenos impulsos, cedo nos grandes. Por isso, quando me sinto agitado, procuro não agir imediatamente. Recomendo-me a Deus e espero, sempre que possível, até que a alma volte ao seu lugar. Se não posso adiar, esforço-me para agir não segundo o desejo inquieto, mas segundo a razão iluminada pela fé.
Outra graça que aprendi a valorizar é a confidência espiritual. Quando abro meu coração a um confessor ou a um amigo verdadeiramente devoto, encontro alívio imediato. É como se a alma respirasse. São Luís aconselhava seu filho a fazer exatamente isso e hoje entendo por quê, a inquietação cresce no silêncio fechado, mas diminui quando exposta à luz.
Ao final de tudo isso, reconheço que a inquietação é um combate diário. Não desaparece de uma vez. Mas posso enfrentá-la com armas espirituais: oração, paciência, prudência, confiança e humildade. E, sobretudo, com a certeza de que Deus conduz minha vida com mais sabedoria do que eu jamais poderia.
Hoje, quando percebo que a alma se agita, respiro fundo, volto-me para Deus e recordo: nada que nasce da precipitação é bom. A paz interior é o terreno onde a graça floresce, é nela que desejo permanecer.
Que o Senhor nos conceda um coração tranquilo, dócil e confiante, capaz de discernir com serenidade e agir com sabedoria.
Conclusão de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
Outros Artigos que podem ser do seu interesse:















Comentários