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A fragilidade fecundada pela confiança e pelo abandono



Confiante até morrer de amor


Todos os elementos estão reunidos para que Santa Teresinha do Menino Jesus sintetize sua vida de confiança num ato de engajamento radical: o ato de oferecimento ao amor misericordioso. Seu abandono total ao amor a livra definitivamente de sua fragilidade psíquica. O ano de 1895 prepara esse ato e lhe apresenta certo número de chaves de interpretação. Diante dela surge uma alternativa decisiva: "Morrer de amor" ou morrer na justiça divina, como sugeria o clima religioso da época. Oferecer-se à justiça de Deus era, com efeito, moeda corrente nos conventos, para desviar os castigos reservados aos pecadores sobre as pobres vítimas de expiação que são as consagradas ao Senhor. Longe de rejeitar o valor de uma teologia da expiação, isto é, da substituição; entretanto, é necessário colocar em seu devido lugar essa lógica de justiça. A justiça de Deus não é o momento de uma vingança divina nem a satisfação de um Deus enfurecido que derramaria sua cólera sobre as infelizes vítimas. Não, para Teresinha, oferecer-se à justiça de Deus é ajustar-se ao Seu amor pela confiança, arrepender-se para se reorientar pelo chamado primordial do amor: porque «Deus ama o pecador arrependido mais ainda do que antes de seu pecado».


O projeto de Deus é introduzir novamente Suas criaturas em Seu plano de amor.

Eis por que a justiça sempre está unida à misericórdia, que a supera em todos os aspetos. Não é então uma justiça severa que esmagaria os pecadores, mas uma justiça divina "justa" que conhece as fraquezas de cada um. Se existe uma justiça rigorosa, é a do próprio homem que se pune recusando-se em seu orgulho a retornar à fonte do amor gratuito. A justiça severa é obra do próprio homem, enquanto a justiça de Deus é divina exatamente porque é feita somente de amor.

O bom Deus é como um bom caçador: «Um rei partiu para a caça perseguindo um coelho branco que seus cães logo iriam alcançar, quando o pequeno coelho, sentindo-se perdido, voltou rapidamente e saltou nos braços do caçador. Este, comovido por tanta confiança, não quis mais se separar do coelho branco, não permitindo que ninguém nele tocasse, reservando-se o cuidado de nutri-lo».

Esse exemplo do coelho muda totalmente a conceção de justiça: já não é mais o medo diante de um caçador de pecado; é a confiança diante de alguém cheio de misericórdia.


Como receber essa misericórdia senão com as "mãos vazias"? Como ter confiança senão tendo verdadeiramente confiança, isto é, assumindo o único e verdadeiro caminho do amor: «Para vos amar como me amastes, preciso emprestar o vosso próprio amor, Jesus». Seu amor é um amor incalculável. O amor de Deus busca somente a confiança em Seu amor, de tal sorte que o bom Deus não pode mais julgar a pessoa, mas somente amá-la. Isto significa apresentar-se diante de Deus com as mãos vazias: «Encontra o modo de forçar a Deus não te julgar», diz Teresinha à Irmã Maria da Trindade, «te apresentando diante dele com as mãos vazias, quer dizer, não guarda nada para ti; conforme for adquirindo teus méritos, doa todos às almas, assim o bom Deus não poderá mais julgar o que não te pertence [...]. Nosso Senhor não poderá julgar tuas más ações se não julgar as boas! Fica tranquila; para as vítimas do amor não haverá julgamento».


Oferecer-se ao Amor misericordioso


Ter as mãos vazias é reconhecer que todo bem que se faz "tem", em primeiro lugar, sua origem em Deus e que todo mérito provém, em definitivo, da gratuidade de Deus. Eis por que só a confiança pode presidir uma forma de julgamento, no sentido positivo: confiança no perdão de Deus, quer dizer, em Sua misericórdia infinita; reconhecimento da gratuidade de Sua graça que torna possível o bem que fazemos; aceitação da presença de Deus no coração de nossa fragilidade. Se há cooperação entre natureza e graça, é porque acontece uma resposta à graça pela ação da graça: daí despontam o louvor e a caridade.

Somente essa perspetiva nos permite falar de "obras boas". Voltaremos a esse assunto.

Doravante teremos duas pistas para aprofundar o pensamento teresiano: o Ato de

Oferecimento ao Amor misericordioso (9 de junho de 1895) e o Hino à Caridade no coração da Igreja (8 de setembro de 1896).

Por ora, comentemos apenas a primeira pista, que só pode ser vivida na ausência de toda complacência. Teresinha se oferece ao Amor misericordioso, e a Ele se consagra sob a forma de um "martírio de amor". Este foi o último dom de si antes da fase final de sua vida em que o amor terá a forma de semana santa. O ato de oferecimento é consequência da confiança total na misericórdia divina.

Teresinha passa, de certo modo, da teologia espiritual para a teologia prática, sendo o oferecimento uma nova consagração em que a confiança oferecida envolve, doravante, toda a sua consagração religiosa.


O texto fala por si mesmo: «Para viver num ato de perfeito amor, eu me ofereço como vítima de holocausto ao vosso amor misericordioso, suplicando-vos de me consumir sem cessar, fazendo transbordar em minha alma as ondas de ternura infinita em vós contidas, e que assim eu me torne mártir do vosso amor, meu Deus! Que este martírio, após ter me preparado para comparecer diante de vós, me faça enfim morrer e que minha alma se lance, sem demora, no eterno abraço de vosso amor misericordioso... Quero, ó meu Bem-Amado, a cada batimento de meu coração, renovar este oferecimento infinitas vezes, até que, dissipadas as sombras, eu possa renovar meu amor num face a face eterno!» .

Esse texto marca, paradoxalmente, não só a expansão do amor na vida de Teresinha, mas, assim como disse anteriormente, o ponto de partida de sua vida pascal: «Minha alma suspira pelo Amor; Ele é seu astro luminoso; o Amor será seu martírio; o Amor lhe abrirá os céus».


Os acontecimentos se desenrolam aceleradamente. A saúde de Teresinha se deteriora; só lhe restam dois anos de vida. Mais profundamente ela entra na provação da noite obscura, provação em que sua confiança vai ser posta a dura prova para "amar até morrer de amor". O ato de oferecimento vai aumentar a confiança da jovem de vinte e dois anos; ele será o clímax no qual todos os acontecimentos serão vividos. Teresinha quer que, diante da loucura da Cruz, sua confiança não tenha limites: o verdadeiro abandono tem esse doce

preço. Ela se coloca em espírito ao pé da Cruz, engajando sua vida no seguimento de Cristo, rumo ao holocausto de sua Páscoa.


Da Obra: "A confiança faz milagres" de Tanguy Marie Pouliquen







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