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A Cruz em relação a nós

Atualizado: 6 de ago.


Pintura clássica da crucifixão de Jesus Cristo, mostrando Jesus pregado à cruz sob um céu escuro iluminado por raios de luz. Ao pé da cruz, três figuras expressam devoção e dor: uma mulher ajoelhada abraça a base da cruz, outra reza olhando para Jesus, e um discípulo contempla com a mão sobre o peito. Um soldado com lança aparece ao fundo. Texto sobreposto: “A Cruz é o molde do amor eterno” e “Conteúdos Católicos

Enquanto espera o grande dia do seu triunfo no Juízo Final, a Sabedoria eterna quer que a Cruz seja a insígnia, a marca e a arma de todos os Seus eleitos.

Ela não reconhece como filho quem não a tiver como Sua insígnia, nem como discípulo quem não trouxer na fronte a Sua marca e sem disso se envergonhar, sem protestar no coração ou com os ombros e sem arrastar ou rejeitar. Ela diz: “Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-Me”.

Ela não aceita como soldado quem não a toma como arma para se defender, para atacar, para abater e esmagar todos os seus inimigos dizendo-lhes: “Soldados, tende confiança: Eu venci o mundo! Eu, o vosso capitão, venci os Meus inimigos pela Cruz, e vós também havereis de vencê-los com o mesmo sinal: “in hoc signo vinces”.


Ela concentrou na Cruz tantos tesouros, tantas graças, tanta vida e alegria que não a dá a conhecer senão aos Seus mais favoritos.

Ela revela frequentemente aos Seus amigos, por exemplo, aos Seus apóstolos, todos os Seus outros segredos, mas não certamente os da Cruz, a não ser que os tenham merecido por uma grande fidelidade e muitas fadigas.

Oh! Como é necessário ser humilde, pequeno, mortificado, interior e desprezado pelo mundo, para se conhecer o mistério da Cruz que, ainda hoje, e não apenas entre os judeus e os pagãos, os maometanos e os heréticos, os sábios do mundo e os maus católicos, mas também entre as pessoas consideradas até muito devotas, continua a ser objeto de escândalo, de loucura, de desprezo e de fuga, e isto, não é especulação, apesar de nunca como hoje se falar e se escrever tanto acerca da beleza e da excelência da Cruz, mas isto é bem real, uma vez que se tem medo, uma vez que se chora, se desculpa e se foge, sempre que seja preciso sofrer qualquer coisa.


Certo dia, contemplando a beleza da Cruz, assim se exprimiu a Sabedoria encarnada num arrebatamento de alegria:


“Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos”.


Se o conhecimento do mistério da Cruz é já uma graça tão excelsa, que dizer do júbilo em gozá-la e possuí-la na realidade! Mas, isso é um dom que a Sabedoria eterna concede apenas aos seus maiores amigos, e isso, após muitas preces, desejos e súplicas. Por mais excelente que seja o dom da fé, pelo qual agradamos a Deus, aproximamo-nos Dele e vencemos os Seus inimigos, e sem a qual condenar-nos-íamos, a Cruz é um dom bem maior ainda.


S. Pedro, diz S. Crisóstomo, foi bem mais feliz por ter estado na prisão por Jesus Cristo do que por ter estado na glória do Tabor: sentiu maior glória por ter trazido cadeias a seus pés do que pelas chaves do Paraíso em suas mãos.

E S. Paulo considera também ser maior glória o fato de ser acorrentado pelo Seu Salvador do que ser arrebatado ao terceiro Céu. Deus concedia maior graça aos apóstolos e aos mártires, dando-lhes a Sua Cruz para ser carregada nas humilhações, na pobreza e nos tormentos mais cruéis do que dando-lhes o dom dos milagres e da conversão do mundo inteiro.


Todos aqueles a quem a Sabedoria eterna foi comunicada, desejaram a Cruz, procuraram-na e abraçaram-na e, quando se lhes proporcionava alguma ocasião de sofrer, do fundo do seu coração exclamavam com Santo André: “Ó Cruz amada, há tanto tempo desejada”!


A Cruz é boa e preciosa por uma infinidade de razões:



1_ Porque nos torna semelhantes a Jesus.


2_ Porque nos torna filhos dignos de Deus Pai, membros dignos de Jesus Cristo e templos dignos do Espírito Santo. Deus Pai corrige todos aqueles que adota como filhos. É uma questão de princípio: “O Senhor corrige os que ama, e castiga todos aqueles que reconhece como filhos”.

O Filho aceita como Seus somente aqueles que carregam a Cruz. O Espírito Santo talha e dá polimento a todas as pedras vivas da Jerusalém Celeste, isto é, aos predestinados.


3_ A Cruz é boa porque ilumina a inteligência, dando-lhe mais compreensão do que todos os livros do mundo. “O que não foi posto à prova, pouco sabe”.


4_ A Cruz, quando carregada dignamente, torna-se causa, alimento e prova de amor. Ela acende o fogo do amor divino no coração, desapegando-se das criaturas; conserva e aumenta esse amor e, assim como a lenha alimenta o fogo, assim também a Cruz é alimento do amor. Ela é a prova mais segura do amor de Deus, já que foi essa, a prova que o próprio Deus usou, para provar, o Seu amor para com o homem; e é ainda a prova que Deus nos pede para Lhe testemunhar que O amamos.


5_ A Cruz é boa porque é uma abundante de toda espécie de doçuras e consolações, e faz brotar na alma a alegria, a paz e a graça.


6_ Por último, ela é boa porque prepara, para aquele que a carrega, uma riqueza incomparável de glória eterna.


Se conhecêssemos o valor da Cruz, mandaríamos rezar novenas, como fez S. Pedro de Alcântara, para alcançar essa deliciosa porção do Paraíso. Diríamos, aliás, com Santa Teresa de Ávila: “ou sofrer ou morrer”; ou com Santa Maria Madalena de Pazzi: “não morrer, mas sofrer”; com S. João da Cruz pediríamos apenas a graça de sofrer algo por Jesus: “padecer e ser desprezado por Ti”.


Entre todas as coisas da terra, a única que é estimada no Céu é a Cruz, disse esse Santo, numa aparição após a sua morte, a uma serva de Deus.

E disse Nosso Senhor a um dos Seus servos: “Tenho Cruzes tão preciosas, que são o maior dom que Minha Mães, na Sua onipotência pode obter de Mim para os fiéis servos”.


Ó sábios do mundo! Ó homens ilustres da terra! Vós sois incapazes de entender esta linguagem misteriosa. Vós estais demasiadamente apegados aos prazeres, preocupai-vos excessivamente com as vossas comodidades, apreciais em demasia os bens deste mundo, tendes muito medo dos desprezos e humilhações, enfim, numa palavra, sois muito inimigos da Cruz de Jesus.


É verdade que até estimais e louvais a Cruz, mas em abstrato, na generalidade; mas da vossa, em particular, vós fugis dela o mais que podeis ou a arrastais a contragosto, murmurando, impacientando-vos com ela e queixando-vos.

Faz-me lembrar as vacas que, a contragosto, mugindo, puxavam o carro com a Arca da Aliança, onde se encontrava encerrado o que de mais precioso havia no mundo: “as vacas tomaram diretamente o caminho e seguiam mugindo”.


O número dos néscios e dos infelizes é infinito, diz a Sabedoria, porque infinito é o número daqueles que não conhecem o valor da Cruz e que a carregam a contragosto.

Vós, porém, discípulos verdadeiros da Sabedoria eterna, que passastes por muitas tentações e aflições, que sofreis muitas perseguições por amor à justiça, que sois tratados como a escória do mundo, consolai-vos! Alegrai-vos, rejubilai, já que a Cruz que carregais é um dom precioso que faz inveja aos próprios bem aventurados, uma vez que eles já não podem carrega-la.


Tudo que há de honra, glória e virtude em Deus e no Seu Espírito Santo repousa sobre vós, porque a vossa recompensa é grande no Céu e até sobre a terra, pelas graças espirituais que a Cruz vos obtém.

Bebei amigos de Jesus Cristo, bebei do Seu cálice de amarguras, e tornar-vos-ei cada vez mais amigos Seus. Sofrei com Ele e com Ele sereis glorificados. Sofrei com paciência e, até mesmo, com alegria! Esperai ainda algum tempo e depois, por um átimo de sofrimento, recebereis uma eternidade feliz.


Não vos deixeis enganar: pois, desde o momento que se tornou necessário que a Sabedoria encarnada tivesse de entrar no Céu, passando pela Cruz, também para nós, para lá entrar após Ela, é necessário seguir pelo mesmo caminho.

Seja para qual for o lado para onde te voltares, diz a Imitação de Cristo, encontrarás a Cruz.

Encontrarás a do predestinado, se a aceitares como deves, ou seja, com paciência e alegria, por amor a Deus; ou a do réprobo, se a carregares com impaciência e má vontade como fazem tantos, duplamente infelizes, que serão obrigados a dizer por toda a eternidade, no inferno: trabalhamos e sofremos tanto no mundo e, afinal, eis-nos condenados! Percorremos desertos intransitáveis.


A verdadeira Sabedoria não se encontra na terra nem no coração daqueles que vivem a seu bel prazer. Ela estabeleceu de tal maneira a sua morada na Cruz que, fora dela, não será possível encontra-la algures neste mundo; identificou-se de tal maneira à Cruz que se pode afirmar, em verdade: A Sabedoria é a Cruz e a Cruz é a Sabedoria.



"O amor da Sabedoria eterna" de S. Luís Maria de Grignon Monfort


Síntese do Conteúdo

A Cruz: Morada da Sabedoria e Caminho dos Predestinados


A Cruz, segundo a tradição espiritual apresentada por São Luís Maria Grignion de Montfort, não é apenas um símbolo externo da fé cristã, mas a própria forma interior da Sabedoria eterna. Ela é insígnia, marca e arma dos eleitos, porque a Sabedoria não reconhece como seus, aqueles que não a trazem como sinal de pertença, nem como discípulos aqueles que se envergonham dela ou a rejeitam. Cristo nos chama, e devemos escutar o Seu convite com o coração desperto, “Se alguém quer vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-Me”, não é apenas uma palavra dirigida aos discípulos de outrora, mas a própria respiração da vida cristã. É o gesto com que Ele nos introduz no Seu caminho, a forma interior pela qual a graça vai talhando o nosso coração, despojando-o do que é velho, purificando-o do que é estreito e afinando-o ao ritmo do Seu próprio Coração. Seguir Cristo não é apenas imitá‑Lo exteriormente, mas permitir que Ele nos configure por dentro, até que a Cruz, longe de ser peso estranho, se torne o lugar onde a nossa vida encontra sentido, direção e comunhão com a Sabedoria eterna. A Cruz é também uma arma de defesa, de ataque e de vitórias. Cristo venceu o mundo pela Cruz, é com esse mesmo sinal que os Seus discípulos vencerão os inimigos espirituais: in hoc signo vinces,. A Cruz concentra tesouros, graças e alegrias que a Sabedoria só revela aos seus mais íntimos, porque o mistério da Cruz não se entrega a quem vive na superfície da fé, mas aos humildes, aos pequenos, aos mortificados, aos desprezados pelo mundo. Quando falamos da Cruz, parece sempre escandaloso e até loucura aos olhos do mundo, no entanto, esse escândalo não se limita aos pagãos, aos judeus ou aos heréticos, também alcança muitos que se consideram devotos. A Cruz é celebrada nos discursos, exaltada nos escritos, ornamentada nas paredes, mas quando ela se apresenta na forma concreta de um sofrimento, de uma renúncia ou de uma humilhação por amor a Deus, muitos recuam, desviam o olhar, procuram atalhos. Fala-se muito da Cruz, mas foge-se dela quando é preciso abraçá-la, é precisamente aí que se revela o coração, não na teoria da Cruz, mas na coragem de carregá-la. Cristo bendiz o Pai por revelar este mistério aos pequeninos, porque a Cruz não se compreende pela inteligência natural, mas pela humildade do coração que se deixa iluminar pela Sabedoria encarnada. Quem conhece o mistério da Cruz, já é graça excelsa, possuí-lo e gozá-lo é dom ainda maior, concedido apenas aos amigos mais íntimos de Deus, depois de muitas preces e súplicas. A Cruz supera até o dom da fé, porque enquanto a fé nos aproxima de Deus, a Cruz nos une a Ele de modo configurativo, transformador e esponsal, como testemunham Pedro, que foi mais feliz na prisão por Cristo do que na glória do Tabor e Paulo, considerou maior glória ser acorrentado pelo Salvador do que ser arrebatado ao terceiro Céu. Deus concedia maior graça aos apóstolos e mártires dando-lhes a Cruz para ser carregada nas humilhações, na pobreza e nos tormentos, do que concedendo-lhes o dom dos milagres ou da conversão das multidões. Por isso, todos aqueles a quem a Sabedoria eterna foi comunicada desejaram a Cruz, procuraram-na e abraçaram-na, como Santo André que exclamava: “Ó Cruz amada, há tanto tempo desejada!”. A Cruz é boa e preciosa porque nos torna semelhantes a Jesus, porque nos faz filhos dignos do Pai, membros dignos do Filho e templos dignos do Espírito Santo, que talha e polimenta as pedras vivas da Jerusalém celeste, isto é, os predestinados. A Cruz também ilumina a inteligência, mais do que todos os livros do mundo, porque “o que não foi posto à prova, pouco sabe”. Ela acende o fogo do amor divino, desapega das criaturas, conserva e aumenta esse amor, sendo a prova mais segura do amor de Deus por nós e também a prova que Deus nos pede para testemunharmos o nosso amor por Ele, fazendo brotar de alegria, paz e graça na alma, para que cada coração se encha de esperança.


Se conhecêssemos o valor da Cruz, pediríamos a graça de sofrer por Cristo, como Santa Teresa de Ávila que dizia “ou sofrer ou morrer”, ou como Santa Maria Madalena de Pazzi que pedia “não morrer, mas sofrer”, ou como São João da Cruz que suplicava “padecer e ser desprezado por Ti”. Entre todas as coisas da terra, a única estimada no Céu é a Cruz, porque ela é o maior dom que Cristo concede aos Seus servos fiéis, dom tão precioso que até os bem-aventurados o invejam, pois já não podem carregá-lo. Nem os sábios do mundo entenderiam esta linguagem, porque estão demasiado apegados aos prazeres, às comodidades e aos bens terrenos, o maior medo é serem desprezados e humilhados, louvando a Cruz em abstrato, mas fogem da sua própria Cruz concreta, arrastando-a a contragosto, murmurando e queixando-se, como as vacas que mugiam enquanto puxavam a Arca da Aliança. Infinito é o número dos que carregam a Cruz a contragosto, diz a Sabedoria, porque não conhecem o seu valor, mas os verdadeiros discípulos, que sofrem perseguições por amor à justiça e são tratados como escória do mundo, devem alegrar-se, porque a Cruz que carregam é dom precioso que faz inveja aos santos do Céu e sobre eles repousa tudo o que há de honra, glória e virtude em Deus, pois sua recompensa é grande no Céu e também na terra, pelas graças espirituais que a Cruz obtém. Quem bebe do cálice de amarguras de Cristo torna-se Seu amigo íntimo; quem sofre com Ele será glorificado com Ele; quem suporta com paciência e até com alegria receberá uma eternidade feliz por um átimo de sofrimento. Não há outro caminho, Cristo entrou no Céu pela Cruz, e nós só entraremos seguindo o mesmo caminho, porque a verdadeira Sabedoria estabeleceu a sua morada na Cruz, fora dela não se encontra. A Sabedoria é a Cruz e a Cruz é a Sabedoria. Compreender a Cruz é compreender o próprio coração de Deus, abraçá-la é entrar na lógica do amor eterno, onde cada dor se transforma em oferta, cada humilhação em humildade, cada perda em liberdade, cada lágrima em esperança. A Cruz não é um obstáculo, mas o caminho; não é um peso inútil, mas o molde da alma que deseja Deus; não é derrota, mas vitória; não é fim, mas princípio. Quem a abraça encontra a alegria que o mundo não pode dar, porque encontra Cristo.


Caro leitor, desejo que vivas na verdade que liberta e ilumina. Recorda que a Cruz nunca é abstrata, ela se inscreve nas pequenas e grandes situações da tua vida, nos gestos escondidos, nas renúncias silenciosas, nas dores que ninguém vê. Não basta carregá-la por obrigação, é preciso aprendê-la por dentro, até amá-la como caminho de união com Cristo. Cinco minutos diante de um crucifixo em silêncio, sem pressa, iluminam mais do que longas reflexões, porque ali o coração fala ao Coração. Cada sofrimento pode tornar-se oferta, cada contrariedade pode transformar-se em semente de graça. A Cruz é sempre temporária, mas a glória que prepara é eterna. Quando a alma se dispõe a viver a Cruz com alegria discreta, sem murmurações, ela se torna leve, quase luminosa, sobretudo quando nada fizer sentido, quando o caminho parecer estreito demais, basta levantar os olhos para Cristo crucificado, ali está a chave de tudo, o sentido de tudo, o amor que sustenta tudo. A Cruz é o selo dos amigos de Deus e quem a abraça, encontra a alegria que o mundo não pode dar.


 
 
 

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