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Oração e Contemplação


O esclarecimento desta relação depende do modo como entendemos os seus dois termos. Se damos à "oração" o sentido lato que, abrangendo os momentos em que não fazemos mais do que orar, se estende, para além deles, à atitude interior de amor de Deus em tudo o que fazemos, a oração coincide praticamente com a "contemplação na ação" no sentido igualmente mais vasto, pois orar é também uma atividade vital. Se damos às duas expressões um sentido restrito em que a "oração" se refere aos momentos vitais em que apenas oramos, e a "contemplação na ação" à vida orante consequente a esses momentos, levanta-se a pergunta: o que é mais importante, - a "oração" ou a "contemplação na ação"?...

Neste caso, a resposta parece suficientemente clara: assim como é mais importante viver do que comer, pois comemos para viver, também é mais importante a "contemplação na ação" do que a "oração": oramos precisamente para podermos viver em "contemplação na ação", na qual consiste a verdadeira santidade de vida.


Se sobrevalorizamos a oração, desligando-a da vida, sem dúvida estamos fazendo uma oração inútil, ou mesmo prejudicial, semelhante à "oração do fariseu" (Lc 18,9-14).

Reagimos correndo então o risco de nos voltarmos para a ação como se ela, só por si, fosse verdadeira oração. Viver não é ainda alimentar-se; e precisamos de nos alimentar para viver: agir não é ainda orar, e precisamos de orar para que a ação se transforme em oração - vida no Espírito - e se realize em cada qual, no sentido mais pleno, o conselho premente de Cristo "é preciso orar sempre" (Lc 18,1).

É certo que nem toda a ação é oração, pois há até ações pecaminosas, - por sua natureza ofensivas do amor e, por isso, contrárias à oração. Há muitas ações suscetíveis de serem impregnadas de oração; mas estas recebem a sua seiva a partir dos momentos privilegiados em que não fazem mais que orar, - relacionarmo-nos com Deus num amor sincero para que este amor vitalize espiritualmente a vida em ordem a podermos transformar em amor tudo o

que fazemos.

Será uma ilusão orar sem que as ações da vida se transformem em oração, atingindo-se assim o cerne da "contemplação na ação". É igualmente ilusório pretender conseguir a atitude interior de contemplativo na ação, ou de tudo transformar em oração, sem alguns momentos dedicados exclusivamente a orar.


Discernir qual a duração e quais os modos de utilizar esses momentos, ultrapassa as dimensões desta exposição.

Não duvidamos que o "modo" de orar é mais importante do que o "tempo" dedicado à oração; mas não pode haver um "modo" adequado sem um "tempo" proporcionado. A cada qual corresponde a tarefa de discernir pessoalmente como e quando deve orar na vida, atendendo a que o importante é que a vida se desenvolva numa atitude íntima de amor, - em "contemplação na ação".


UNIÃO DE VIDA E ORAÇÃO


Facilmente, tanto em teoria como até na prática, cindimos a nossa vida. Assim falamos de vida material e espiritual, - de vida natural e sobrenatural, - de vida religiosa, ou oração, e de vida profana ou profissional... Não negamos certas vantagens sistemáticas que estas distinções envolvem.

Só conseguimos exprimir-nos através de aspetos que encaramos separadamente para melhor clarificarmos o todo. Precisamos contudo de nos acautelar para não considerarmos esses aspetos como realidades estanques, como se a nossa vida fosse composta por compartimentos justapostos, à maneira de um edifício mais ou menos belo.

A beleza da nossa vida consiste na sua unidade, em que não há compartimentos estanques e em que todos os aspetos se compenetram. Assim a verdadeira valorização da vida humana consiste na abertura da mesma às culminâncias do amor. Só amando atingimos a felicidade. Só uma atitude íntima e profunda de amor pode garantir-nos a felicidade, que atinge a culminância na felicidade divina.


É em Cristo e por Cristo que esta "utopia" se converte em realidade possível de obter. Por isso importa, acima de tudo, viver em amor com Deus em tudo o que somos e fazemos, enquanto oramos no sentido estrito da palavra e enquanto realizamos qualquer outra atividade.

Se a "contemplação na ação" se entende como esta atitude orante que invade toda a nossa vida, então é nela que se levantam as perturbâncias daqueles momentos de holocausto em que o amor se manifesta como valor supremo e por si mesmo valioso, e não fazemos mais que orar.

Não podemos contudo exagerar estes momentos contemplativos como se a eles se devesse coactar a nossa vida.

Embora imprescindíveis, como salientámos, não são nem podem ser exclusivos. O amor é como um fluxo de cuja beleza e excelência fazem parte estas alternâncias ativas.

Por isso, se quisermos buscar um termo comparativo daquilo que será a felicidade consumada na posse de Deus, julgo que o devemos antes encontrar na "contemplação na ação" do que na "oração", se esta se restringe só a certos momentos privilegiados.


No Céu haverá a fusão destes dois aspetos numa superação para além da coincidência dos mesmos. Mas o preferível termo analógico da comparação, a fim de antevermos o que será a sua misteriosa culminância, será antes a "contemplação na ação", porque no Céu, faça-se o que se fizer, se viverá continuamente em perfeita "contemplação na ação".

Então não se falará mais na necessidade de "orar" para ser "contemplativo na ação" porque, em perfeita comunhão de amor com Deus e com os irmãos, se atingirá em tudo a culminância desse mesmo amor.

Na Terra caminhamos para essa culminância através das alternativas de momentos em que não fazemos mais que orar para que, garantindo-se pela "oração" (contemplação) a nossa "contemplação na ação", a vida terrena seja toda ela caminho progressivo para a plenitude da Vida.


Padre Júlio Fragata S.J.



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