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O QUE JÓ APRENDEU



Jó é o máximo sofredor do Antigo Testamento. Desde o começo do Livro de Jó,

aparece-nos como um homem de fé forte e integridade de conduta. A dor abate-se sobre ele como uma montanha que desaba: perde todos os filhos e todos os bens, perde a saúde e a honra, fica como um mendigo leproso que apodrece solitário no monturo.


E qual foi a reação de Jó? Não foi uma. Foram duas, uma após a outra.


A primeira foi a reação de um autêntico adorador de Deus, de um homem de fé

inabalável, que nos deixa boquiabertos: O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor [...]. Aceitamos a felicidade da mão de Deus; não devemos também aceitar a infelicidade? (Jó 1, 21 e 2, 10).


A segunda reação foi a própria de um homem sincero, acostumado a falar com Deus

de coração aberto. Reduzido a um trapo, Jó recebe a visita de três amigos, penalizados, aos quais se une depois um quarto. Todos eles tentam "explicar-lhe" com muitos argumentos o porquê da avalanche brutal dos seus sofrimentos, interpretando-os fundamentalmente como um ato de justiça de Deus, que estaria assim punindo Jó por culpas que ele não percebeu ou não reconhece. Assumem, assim, a função de "advogados defensores de Deus", um papel que o Senhor Deus não lhes havia confiado.


Diante dessa interpretação simplista e distorcida, Jó se insurge: revolta-se, brada, prorrompe em lamentos dilacerantes, increpa Deus e convoca-o para "discutir" com ele;

seus gritos chegam a raiar a blasfémia. Mas, na realidade, são os brados sinceros e

agoniados de um homem de fé absoluta, que não entende o que está acontecendo. Jó crê em Deus acima de tudo no mundo, e não pode imaginar que Ele seja injusto e o castigue como se fosse culpado por crimes que não cometeu. Os amigos escandalizam-se da sua fala. Mas Jó insiste. E, no fim, quando a discussão atinge o clímax, Deus em pessoa intervém. E o que faz o Senhor? Depois de repreender Jó pelos seus excessos verbais, dá-lhe razão, concorda com meu servo Jó e indigna-se contra os amigos sabichões, que se metem dar lições sobre o que não sabem.


Com palavras faiscantes de poesia, Deus mostra a Jó e aos amigos indiscretos quão

longe estão de compreender os planos da sabedoria, da justiça e da bondade de Deus:


Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra? [...]

Quem fechou com portas o mar,

quando brotou do seio maternal,

quando lhe dei as nuvens por vestimenta

e o enfaixava com névoas tenebrosas? [...]

Algum dia na vida deste ordens à manhã?

Indicaste à aurora o seu lugar?


(Jó 38, 4 e segs.)


Também Jesus teve que desfazer certa vez as interpretações erradas que os seus

Apóstolos faziam sobre o sofrimento. São João conta-nos uma cena que presenciou em

Jerusalém: Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram

Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu:


<< - Nem este pecou, nem seus pais, mas foi assim para que nele se manifestassem

as obras de Deus. Logo a seguir, fez o milagre de abrir os olhos àquele homem.>> (Jo 8, 1-7)


A primeira coisa que os discípulos pensaram foi que o sofrimento era um castigo,

como os amigos de Jó. Nós também. Aparece um sofrimento inesperado, uma doença, um revés, e logo nos queixamos: "Por que Deus faz isto comigo? Por que me castiga? Eu não mereço este sofrimento!"


Sempre que pensamos assim, não entendemos que, em muitíssimos casos, a dor,

nesta terra, não é um castigo de Deus, mas tem outra finalidade, mais profunda, divina e

positiva: É para que se manifestem as obras de Deus. Os caminhos de Deus não são os

nossos caminhos: Meus pensamentos não são os vossos. (Is 55, 8). Nós partimos do

preconceito de que a dor é um mal e só pode ser castigo, e Deus não pensa assim.


Sim, a dor tem um papel misterioso e altíssimo nos planos divinos, é algo que

ultrapassa de longe os esquemas mentais e as perspetivas dos humanos. Foi por isso que Deus deu razão a Jó, o homem reto que não aceitava explicações baratas nem lógicas surradas. Jó acabou percebendo o que Deus queria dizer, e por isso calou-se, pôs a mão na boca, e reconheceu: Falei, sem compreendê-las, maravilhas que me superam e que não conheço (Jó 39, 34 e 42, 3).


Em matéria de dor, a atitude mais sábia é a de Jó: calar-se, ser humilde e ouvir a Deus.

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