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O QUE EM NOSSO CORPO É ENFERMO COM TEU PODER ETERNO REVIGORA



O Espírito Santo prepara a redenção do nosso corpo


Irmão corpo e irmã alma


São Cirilo de Jerusalém, na semana que se seguira à anterior catequese, voltava a falar aos seus catecúmenos sobre o Espírito Santo, e dizia-lhes: «Para não cansar os ouvintes, naquela circunstância, tivemos de reprimir o nosso entusiasmo, pois nunca se falaria demais sobre o

Espírito Santo».

Antigamente, era costume esta máxima ser usada em relação a Nossa Senhora: de Maria nunquam satis, dizia-se: sobre Maria nunca se fala demais. Isso mesmo devemos afirmar também, e com mais razão, do Espírito Santo. Vou procurar imitar este antigo Padre da Igreja, reprimindo também eu o entusiasmo, para não alongar em demasia nenhuma destas pequenas catequeses atuais sobre o Espírito Santo.

Depois de nos apresentar o Espírito em conexão com a mente e com o coração do homem, a presente estrofe do Veni creator apresenta-no-Lo também em sua relação com o corpo humano. O "irmão corpo", como o denominava São Francisco de Assis, não está excluído do grande banquete do Espírito!


Pelo contrário, participa nele de pleno direito. Para a Bíblia, o corpo não é um desprezível apêndice do ser humano; ele é parte integrante de nós mesmos. O homem não tem um

corpo; ele é um corpo. O corpo foi criado diretamente por Deus, feito e plasmado com as suas próprias "mãos", foi assumido pelo Verbo na incarnação e foi santificado pelo Espírito

no batismo. Ele é, além disso, "templo" do Espírito Santo (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19).

Se observarmos superficialmente aquilo que o Novo Testamento e, especialmente, São Paulo dizem sobre a relação corpo/Espírito, há o perigo de cairmos no erro. Essa relação

não é apenas negativa, de conflito irredutível; ela é também positiva e de cooperação. A carne está ao serviço do Espírito, e o Espírito é que sustém a carne. É justamente através do

corpo - ou seja, do elemento que mais intimamente liga o fiel a este mundo - que nos fiéis se manifesta o Espírito. O fiel é chamado a glorificar a Deus com o seu corpo e com a sua carne mortal. A obra do Espírito é, pois, a de santificar a carne, e não apenas a de combatê-la; a de promovê-la, e não a de neutralizá-la.


O primeiro a sentir a necessidade de realçar este aspeto melindroso da revelação foi Santo Ireneu, não obstante os seus escritos deixarem transparecer ainda uma certa oscilação entre o espírito, elemento espiritual do composto humano, e o Espírito Santo propriamente dito. Contra os gnósticos, que reconduziam a própria existência do corpo a um Deus distinto e inferior ao Deus pregado por Jesus Cristo, escreve o autor: «O homem perfeito é composto de três realidades: a carne, a alma e o Espirito. Um, o Espirito, salva e forma; a carne é salva e formada. A restante, a alma, que se acha entre estas duas, ora segue o Espirito e, graças a Ele, levanta voo, ora obedece à carne, e cai em desejos terrestres».


Santo Ireneu ilustra a relação entre o corpo e o Espírito com a imagem do enxerto: na frágil carne foi enxertado o Espírito, e é graças a este principio novo que ela poderá produzir frutos "espirituais".

Não são a carne nem o sangue - explica o autor - que ficam excluídas da herança do reino de Deus (cf. 1 Cor 15, 20), mas só quem satisfaz as más tendências da carne e do sangue. O mal não é viver na carne, mas viver segundo a carne. Santo Ireneu chega a afirmar que «o fruto visível do Espírito invisível é o de tornar o corpo do homem maduro e capaz de acolher a incorruptibilidade».

Esta relação positiva entre alma e corpo, entre espírito e matéria, era a que prevalecia no principio, pelo menos no projeto de Deus, agora, ela está oculta, sob o conflito cuja visibilidade maior a submerge. No final, todavia, triunfará sobre todo o antagonismo aquela relação positiva, numa reconciliação plena e definitiva. A hostilidade entre a carne e o espírito do homem está destinada a cessar, para que a sua união persista para sempre. No bem e no mal.


«Deste modo, o corpo e a alma são como duas mãos juntas. Ambos hão de entrar juntos na vida eterna para serem duas mãos juntas. Ou então, ambos cairão juntos, como dois pulsos ligados, para um cativeiro eterno».

Foi graças à incarnação do Verbo que a amizade originária entre o corpo humano e o Espírito de Deus, dissolvida pelo pecado, se restabeleceu e alcançou a esperança de triunfar para sempre. A comunhão com o corpo eucarístico de Cristo é o sinal (segno) e o penhor (pegno) de tudo isso: «Ele dá-nos o seu corpo para que nós, unidos a Ele, possamos participar no Espirito Santo. O motivo pelo qual, na verdade, o Verbo de Deus veio até nós com um corpo e, como diz o Evangelho, Se fez carne (cf. Jo 1, 14), é o de podermos participar n'Ele como carne, já que não podemos participar n'Ele como Verbo (...). É em

virtude desta comunhão no Espírito de Cristo que os nossos corpos devem ser tratados com santidade (cf. 1 Ts 4, 4), quais membros do próprio Cristo»".


Frei Raniero Cantalamessa O.F.M.


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