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  • Foto do escritorConteúdos Católicos

Fim e Forma da Educação Cristã



O fim próprio e imediato da educação cristã é cooperar com a graça divina na formação

do verdadeiro e perfeito cristão, isto é, formar o mesmo Cristo nos regenerados pelo Batismo, segundo a viva expressão do Apóstolo: «Meus filhinhos, a quem eu trago no meu coração até que seja formado em vós Cristo». Pois que o verdadeiro cristão deve viver a vida

sobrenatural em Cristo: «Cristo que é a vossa vida», e manifestá-la em todas as suas ações:

«a fim que também a vida de Jesus se manifeste na vossa carne mortal».


a) Formar o verdadeiro cristão


Precisamente por isso a educação cristã abraça toda a extensão da vida humana, sensível,

espiritual, intelectual e moral, individual, doméstica e social, não para diminuí-la de qualquer

maneira, mas para a elevar, regular e aperfeiçoar segundo os exemplos e doutrina de Cristo.

Por isso o verdadeiro cristão, fruto da verdadeira educação cristã, é o homem sobrenatural que pensa, julga e opera constantemente e coerentemente, segundo a sã razão iluminada pela luz sobrenatural dos exemplos e doutrina de Cristo; ou antes, servindo-nos da expressão, agora em uso, o verdadeiro e completo homem de carácter. Pois que não é qualquer coerência e rigidez de procedimento, segundo princípios subjetivos, o que constitui o verdadeiro caráter, mas tão somente a constância em seguir os eternos princípios da justiça, como confessa o próprio poeta pagão quando louva, inseparavelmente, «o homem justo e firme em seu propósito». Por outro lado não pode haver justiça perfeita senão dando a Deus o que é de Deus, como faz o verdadeiro cristão.


Tal fim eterno da educação cristã afigura-se aos profanos uma abstração, ou antes, irrealizável, sem a supressão ou atrofiamento das faculdades naturais, e sem a renúncia às obras da vida terrena, e por consequência alheio à vida social e prosperidade temporal, adverso a todo o progresso das letras, ciências e artes, e a qualquer outra obra de civilização.

A semelhante objeção nascida da ignorância e preconceito dos pagãos, mesmo cultos, de

outrora - repetida infelizmente com frequência e insistência nos tempos modernos - havia já

respondido Tertuliano: "Nós não somos alheios à vida". Recordamo-nos bem do dever de

gratidão para com Deus, Nosso Senhor e Criador; não repudiamos nenhum fruto das suas obras; somente nos moderamos para não usar deles mal ou descomedidamente. E assim não vivemos neste mundo sem foro, sem talhos, sem balneários, sem casas, sem negócios, sem estábulos, sem os vossos mercados e todos os outros tráficos. Nós também convosco navegamos e combatemos, cultivamos os campos e negociamos, e por isso trocamos os trabalhos e pomos à vossa disposição as nossas obras. Verdadeiramente não vejo como podemos parecer inúteis aos vossos negócios com os quais e dos quais vivemos.


b) Que é também o cidadão mais nobre e útil


Por consequência o verdadeiro cristão, em vez de renunciar às obras da vida terrena ou

diminuir as suas faculdades naturais, antes as desenvolve e aperfeiçoa, coordenando-as com a vida sobrenatural, de modo a enobrecer a mesma vida natural, e a procurar-lhe utilidade mais eficaz, não só de ordem espiritual e eterna mas também material e temporal.

Isto é provado por toda a história do cristianismo e das suas instituições, a qual se

identifica com a história da verdadeira civilização e do genuíno progresso até aos nossos dias; e particularmente pelos Santos de que é fecundíssima a Igreja, e só ela, os quais conseguiram em grau perfeitíssimo, o fim ou escopo da educação cristã, e enobreceram e elevaram a convivência humana em toda a espécie de bens. De fato, os Santos foram, são e serão sempre os maiores benfeitores da sociedade humana, como também os modelos mais perfeitos em todas as classes e profissões, em todos os estados e condições de vida, desde o camponês simples e rude até ao sábio e letrado, desde o humilde artista até ao general do exército, desde o particular pai de família até ao monarca, chefe de povos e nações, desde as simples donzelas e esposas do lar doméstico até às rainhas e imperatrizes. E que dizer da imensa obra, mesmo em prol da felicidade temporal, dos missionários evangélicos que juntamente com a luz da fé levaram aos povos bárbaros os bens da civilização, dos fundadores de muitas e variadas obras de caridade e de assistência social, da interminável série de santos educadores e santas educadoras que perpetuaram e multiplicaram a sua obra, nas suas fecundas instituições de educação cristã, para auxílio das famílias e benefício inapreciável das nações?


c) Jesus, Mestre e Modelo de Educação


São estes os frutos benéficos sobre todos os aspetos da educação cristã, precisamente

pela vida e virtude sobrenatural em Cristo que ela desenvolve e forma no homem; pois que Jesus Cristo, Nosso Senhor, Mestre Divino, é igualmente fonte e dador de tal vida e virtude, e ao mesmo tempo modelo universal e acessível a todas as condições do gênero humano, com o seu exemplo, particularmente à juventude, no período da sua vida oculta, laboriosa, obediente, aureolada de todas as virtudes individuais, domésticas e sociais, diante de Deus e dos homens.


Conclusão


E todo o complexo dos tesouros educativos de infinito valor, que acabamos de mencionar, embora de passagem, é de tal modo próprio da Igreja que constitui a sua substância, sendo ela o corpo místico de Cristo, a Esposa imaculada de Cristo, por isso mesmo Mãe fecundíssima e Educadora soberana e perfeita. À vista disto o grande e genial S. Agostinho -de cuja feliz morte estamos para celebrar o décimo quinto centenário - prorrompia, cheio de santo afeto por tal Mãe, nestas expressões: «Ó Igreja Católica, Mãe veríssima dos Cristãos, vós com razão pregais, não só que se deve honrar puríssima e castíssimamente o próprio Deus, cuja consecução é vida felicíssima, mas também de tal modo exerceis o vosso amor e caridade para com o próximo que, junto de vós, se encontra poderosamente eficaz, todo o remédio para os muitos males de que por causa dos pecados sofrem as almas. Vós adestrais e ensinais, com simplicidade as crianças, com fortaleza os jovens, com delicadeza os velhos, segundo as necessidades do corpo e do espírito. Vós, quase diria, por livre escravidão submeteis os filhos aos pais e dais aos filhos, como superiores, os pais com domino de piedade. Vós, com o vínculo da Religião, mais forte e mais íntimo que o do sangue, unis irmãos a irmãos...

Vós não só com o vínculo de sociedade, mas também de certa fraternidade, ligais cidadãos a cidadãos, povos a povos, numa palavra, todos os homens com a lembrança dos comuns proto parentes. Ensinais aos reis que atendam bem aos povos; admoestais os povos que

obedeçam aos reis. Com solicitude ensinais a quem se deve honra, a quem afeto, a quem respeito, a quem temor, a quem conforto, a quem advertência, a quem exortação, a quem

correção, a quem censura, a quem castigo, mostrando em que modo, mas não a todos, tudo se deve, a todos porém a caridade, a ninguém a ofensa».

Elevemos, ó Veneráveis Irmãos, os corações e as mãos suplicantes ao Céu, «ao Pastor e

Bispo das nossas almas», ao Rei Divino, «que dá leis aos governantes», a fim de que nele

com a sua virtude omnipotente faça que estes esplêndidos frutos da educação cristã se colham e multipliquem «em todo o mundo», sempre para maior vantagem dos indivíduos e das nações.


Carta Encíclica Divini illius magistri do Papa Pio XI: sobre a Educação Cristã da Juventude (31 de dezembro de 1929)


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