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Como entendermos o valor das dificuldades e das tentações?




AS DIFICULDADES FIRMAM-NOS NO BEM



As dificuldades firmam-nos no bem, dão-nos têmpera moral.

Na vida do esportista, cada dificuldade é um "desafio". Não costuma ser assim infelizmente na vida moral. Basta às vezes o aparecimento de uma dificuldade um pouco maior para sentirmos a tentação de deter a marcha e olhar para trás; de desistir ou, pelo menos, de recuar.


Esta tentação nota-se especialmente quando fazemos bons propósitos de mudança.

Começamos bem, animados e esperançosos: desta vez, as coisas vão melhorar. Mas lá vem logo, como um balde de água fria, uma dificuldade não esperada, pelo menos não esperada tão cedo.


Imaginemos um pai de família que um belo dia se propõe sair do seu proverbial mutismo e ultrapassar as habituais respostas monossilábicas e secas. Tenta, mais ou menos desajeitadamente, dizer umas palavras especialmente amáveis à esposa e aos filhos. Não se sabe se pelo insólito do caso, ou porque o diabo meteu o rabo, o fato é que a mulher e filhos reagem mal: "Você não se sente bem?", "Pai, o que é que deu no senhor?" Imediatamente, o pai-caramujo, ferido nas suas melhores intenções, sente o irresistível impulso de se enfiar no mais profundo da sua carapaça e dizer: "nunca mais!..".


É muito comum os propósitos murcharem por tropeçarmos com dificuldades. Não nos

esforçamos por ser mais afáveis porque nem sempre somos bem compreendidos. Não perseveramos na oração diária porque nos distraímos com facilidade e temos a impressão de estar perdendo o tempo. Não mantemos os horários de trabalho e os planos de aproveitamento do tempo porque desanimamos com os imprevistos que os alteram. Não prosseguimos na luta por ser humildes porque não conseguimos evitar que as pontadas do amor-próprio pipoquem a cada passo.


Na realidade, cada dificuldade que surge no caminho dos nossos bons propósitos nos põe à prova. É um teste de sinceridade. Porque a dificuldade, incitando-nos a desistir ou a recuar, obriga-nos a tomar uma posição, a determinar se queremos ou não. Com efeito, cada dificuldade provoca uma certa hesitação, e por isso mesmo nos exige uma decisão. A nossa vontade deverá inclinar-se ou pelo lado do ideal moral dos valores e das virtudes cristãs - ou pelo lado da facilidade.


Certamente a dificuldade nos abala. Mas também é como se, por assim dizer, nos obrigasse a fixar o olhar num valor moral superior: um valor difícil, mas autêntico. Tendo-o inequivocamente diante dos olhos, não temos outro jeito senão optar e dizer um "sim" ou um "não", pondo assim à prova se queremos o bem acima de tudo ou se apenas o desejamos de um modo relativo e sem compromisso. Cada dificuldade, portanto, permite uma autoavaliação da nossa qualidade moral.


Se, no exemplo do pai de família acima mencionado, o protagonista desiste dos seus bons propósitos estará optando nelo orgulho (não estará disposto a sofrer uma pequena humilhação pelo bem); pelo contrário, se persevera no esforço, optará pelos valores cristãos da humildade e do amor; e, na medida em que prosseguir: por melhorar a sua caridade, por abrir um espaço novo ao amor na rispidez do seu caráter, estará firmando em si uma nova e mais alta qualidade moral, crescerá em estatura espiritual e se tornará, no sentido mais profundo e verdadeiro do termo, um homem melhor.


Quando sentimos, portanto, o desânimo que, perante uma dificuldade, nos impele a pensar que "não dá", devemos convencer-nos de que a verdade se encontra na posição contrária: somente assim é que dá. Isto é, somente enfrentando e superando uma dificuldade colocada no caminho da virtude é que a mesma virtude se consolida e se torna forte.



As tentações nos experimentam



Este é também o sentido das tentações que nos assaltam. Pelo menos, é um dos seus

principais significados positivos, dentro dos planos de Deus.

Entendemos por tentação tudo aquilo que, vindo de dentro ou de fora de nós, nos incita à prática - por pensamentos, palavras, ações ou omissões - de um mal moral, de um pecado.


Mas a circunstância de a tentação nos inclinar para o mal não significa que ela - quer

proceda dos nossos desejos desordenados, quer dos outros, quer do tentador - seja algo negativo aos olhos de Deus. Se prestarmos atenção ao texto do Pai Nosso, perceberemos que, nesta oração, Cristo nos ensina a pedir de modo absoluto: "livrai-nos do mal". Mas não ensina mesmo em relação às tentações. Não nos faz pedir a Deus Pai que as elimine da nossa vida, mas que não nos "deixe cair" nelas. Parte da base de que as tentações hão de existir, e de que o que importa é que Deus nos ajude a vencê-las.


Isto porque a tentação, que é uma dificuldade na prática da virtude, pode ser-nos muito útil - como acontece com as outras dificuldades - para firmar-nos no bem. É um "beneficio" que a própria palavra tentação sugere, pois a sua tradução mais exata seria "prova": uma prova, um teste da virtude. É neste sentido que São Tiago diz, cheio de otimismo: <<Feliz o homem que suporta a tentação. Porque depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus promete aos que O amam>> (Tg 1, 12).


<<A tentação prova-nos como o fogo prova o ouro, escreve São Pedro>> (1 Pe 1, 7). É a mesma ideia que se encontra no Livro da Sabedoria: falando dos justos que tiveram de enfrentar sofrimentos e provações, afirma que Deus os provou e os achou dignos de Si: <<Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto>> (Sab 3, 5-6).


As nossas virtudes estão sendo testadas constantemente. Todos os dias encontramos

incentivos para agir mal: para perder a paciência, para abandonar um dever, para nos ferirmos uns aos outros com palavras ou atitudes, para nos deixarmos arrastar pela sensualidade e pelas desordens do coração.

Aqueles que se esforçam por viver uma vida cristã digna, lamentam-se com frequência desta presença constante das tentações, que parecem desbaratar os melhores propósitos. Pensam: "Estas tentações só me atrapalham e me perturbam". Deus, com certeza, pensa de outra forma. Bem sabe Ele a finalidade por que permite as tentações: não para que nos impeçam a prática do bem, mas para que, testando-nos, nos incentivem a praticá-lo com mais força e com maior autenticidade nos movam a tornar mais puro - mais decidido e consciente - o ouro das virtudes.


Se na vida tudo discorresse suavemente, sem que nada nos incentivasse a praticar o mal, seria muito fácil acomodarmo-nos numa bondade inercial, e imaginar que estávamos caminhando bem, quando na realidade talvez nos estivéssemos afogando insensivelmente na rotina. Não fosse a tentação - a prova - que vem despertar-nos do sono, seria fácil entregarmo-nos à sonolência e até mesmo à morte espiritual, da mesma maneira que se entrega à morte física, sem o perceber, aquele que à noite aspira dormindo as emanações de um escapamento de gás. A tentação sacode, desperta,

obriga-nos a lutar e, com a graça de Deus, a vencer.




Enquanto vivermos seremos provados e tentados. Não há como escaparmos. Devemos sim, é nos firmarmos no Amor de Deus e atingirmos o grau necessário de virtudes para a prática do bem. Somente de virtude em virtude conquistadas e vividas com empenho, poderemos atravessar cada obstáculo tentador ou provação que nos suceda.

Peçamos à Deus Pai que aumente em nós esse desejo e que se concretize em nós as capacidades para adquirirmos as virtudes que nos faltam e a graça de lutarmos no dia a dia contando sempre com o Seu auxílio e a nossa entrega à Ele.



Texto do Padre Francisco Faus e com Adaptação de Claudia Pimentel - Conteúdos Católicos


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