BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO PERSEGUIDOS POR CAUSA DA JUSTIÇA
- Conteúdos Católicos

- 8 de jun.
- 16 min de leitura

Se fordes ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vós (1 Pe 4, 14).
Com efeito, é coisa agradável a Deus sofrer contrariedades e padecer injustamente (1Pe 2,19).
E até sereis felizes, se padecerdes alguma coisa por causa da justiça! (1Pe 3,14).
O discípulo e o mestre
Eis que chegamos às duas últimas bem-aventuranças, a oitava e a nona, as quais têm o mesmo objeto: a perseguição por causa da justiça. Oito é o número da ressurreição, do acontecimento escatológico do Reino, mas trata-se de um advento que passa pela paciência da gestação e pelas dores do parto, que tem seu símbolo no número nove.
«Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!
Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos Céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós (Mt 5, 10-12)».
Na expressão perseguidos por causa da justiça (perseguição identificada com a perseguição por causa de Cristo na frase seguinte), a palavra «justiça» deve ser tomada, é claro, no sentido em que meditamos por ocasião da quarta bem-aventurança: é mais do que a justiça nas relações humanas, designando antes a verdade e a fidelidade de Deus em vista da salvação do homem.
Essa bem-aventurança tem uma importância particular.
Ela é a última, a conclusão. Como no caso da primeira, a recompensa prometida é a posse do Reino, isto é, que o amor de Deus reinará inteiramente em nossa vida. É possível sonhar mais alto?
Nós a encontramos ainda uma segunda vez, agora de maneira amplificada, dirigindo-se de modo mais pessoal do que antes aos discípulos e ouvintes de Jesus: «Bem-aventurados sois vós...»
Encontramos aí, levado ao seu ponto mais alto, o paradoxo das bem-aventuranças, a afirmação de uma felicidade (que vai até a exultação: no gáudio e na alegria!) no âmago da situação menos humanamente agradável que existe: aquela em que somos objeto de
perseguição, de insulto, de palavras infames.
Ela apresenta a conclusão do caminho proposto pelas bem- aventuranças em geral, o ápice da obra do Espírito Santo na vida humana: tornar-se capaz de acolher o sofrimento por Cristo como uma felicidade, de acolher a cruz como um presente. Este é o grau último da maturidade e da liberdade espiritual, bem como o mais forte dos testemunhos dados aos olhos do mundo.
A perseguição sempre fez parte da vida da Igreja.
Sabemos que hoje ela é mais frequente do que em qualquer outra época da história. Os últimos cem anos (desde o começo do genocídio armênio até as execuções mais recentes do Estado Islâmico) fizeram entre os fiéis de Cristo mais vítimas do que todos os séculos anteriores da história da Igreja, e isso em todas as confissões cristãs. O ecumenismo do sangue é um dos traços da Igreja de hoje.
A perseguição pode assumir modalidades extremamente diversas: o martírio sangrento, as restrições de liberdade e as discriminações sociais que os fiéis sofrem em certos lugares, a apresentação caricatural da fé cristã na mídia, a vontade de isolar a religião numa esfera exclusivamente privada, o desprezo sofrido pelo estudante que se afirma cristão, as incompreensões e combates dentro do âmbito familiar contra aquele que deseja realizar sua vocação, etc.
Em particular no Ocidente de hoje, a perseguição se reveste de formas muito insidiosas: não há perseguição aberta, mas antes a desconsideração e a rejeição dos valores cristãos. Os cristãos, é claro, devem ficar atentos para não cair num «complexo de perseguição» nem fechar-se numa espécie de gueto em relação ao mundo moderno, mas é preciso reconhecer que viver em conformidade com os valores do Evangelho e com o ensinamento da Igreja não é fácil hoje em dia. Sabem disso muito bem os pais que são dolorosamente confrontados com o contraste entre a
educação que tentam transmitir aos filhos no ambiente familiar e aquela que estes recebem na escola e da mídia!
Jesus anunciou claramente:
«Mas, antes de tudo isso, vos lançarão as mãos e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores, por causa de Mim. Isto vos acontecerá para que vos sirva de testemunho (Lc 21, 12-13)».
É inevitável que o discípulo às vezes conheça o destino de Seu mestre: «Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se Me perseguiram, também vos hão de perseguir (Jo 15, 20)».
Observemos que, entre as previsões de Jesus quanto à perseguição de Seus discípulos, uma tem hoje particular atualidade: «Virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus (Jo 16, 2)».
Continuidade com a Antiga Aliança
Assim como as outras bem-aventuranças, a oitava tem sua raiz na Antiga Aliança. A realidade da perseguição se encontra ali sob diferentes formas: na figura do justo perseguido porque é fiel no viver e anunciar a palavra de Deus (o profeta Jeremias é um belo exemplo), no povo de Deus que sofre por causa de sua singularidade (as diferentes perseguições que Israel sofre ao longo de sua história, no livro do Êxodo, no livro de Ester ou no livro dos mártires de Israel...). Aí já constatamos aquilo que é próprio da
perseguição: certa hostilidade que não encontra sua causa última em razões históricas, sociais, políticas, etc., mas no ódio ao Senhor, na tentativa do Inimigo de destruir o plano de Deus atacando Seus filhos. Odiaram a Mim e a Meu Pai.
Mas foi para que se cumpra a palavra que está escrita na Sua Lei:
«Odiaram-Me sem motivo (Jo 15, 24-25)», diz Jesus no Evangelho de João, citando um Salmo (cf. Sl 69, 5). Não se trata apenas de vicissitudes humanas, mas de um combate espiritual, de uma luta feroz do mistério do Mal contra os planos de Deus. O demônio não suporta a eleição de Israel nem a fundação da Igreja, assim como não suporta todas as outras manifestações da misericórdia divina voltadas à salvação dos homens. O ódio a Israel, assim como o ódio aos cristãos, até pode ser explicado por certas razões humanas, mas estas razões permanecem insuficientes; sua raiz profunda é de ordem espiritual, consistindo numa hostilidade contra Deus mesmo e contra Sua obra como Criador e Redentor. Essa hostilidade vem expressa já no começo do livro dos Salmos: «Erguem-se, juntos, os reis da terra, e os príncipes se unem para conspirar contra o Senhor
e contra Seu Cristo (Sl 2, 2)».
Por ocasião de uma das primeiras perseguições contra os apóstolos, relatada nos Atos, eles citarão em sua prece este Salmo para confiar-se a Deus. Então, após rezarem com fervor, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram com intrepidez a palavra de Deus (At 4, 31). O Espírito Santo vem socorrer aqueles que sofrem pelo Reino.
No Antigo Testamento, a figura do profeta ou do justo perseguido, objeto da hostilidade e do ódio de todos por causa do seu pertencimento a Deus e da palavra de que é testemunha, encontra sua expressão mais profunda nos cânticos do Servo encontrados no livro de Isaías. Trata-se de um Servo que designa ao mesmo tempo um povo e um indivíduo, mas com uma extraordinária mensagem de
esperança: os sofrimentos do justo serão causa da salvação de todos, inclusive daqueles que se encarniçam contra ele...
Justificará muitos homens, e tomará sobre si suas iniquidades (Is 53, 11). O Evangelho de João, citando o profeta Zacarias, dirá: Olharão para aquele que transpassaram (Jo19,37). Segundo o mesmo profeta, a morte do justo abre uma fonte de graça e de conversão:
«Naquele dia jorrará uma fonte para a casa de Deus e para os habitantes de Jerusalém que apagará os seus pecados e suas
impurezas (Zc 13, 1)».
O sofrimento do justo, culminando na Cruz de Jesus, é um escândalo, mas misteriosamente faz parte da história da salvação e do plano de Deus. É ao mesmo tempo julgamento e salvação; coloca em foco o pecado humano e é fonte de cura para ele.
A graça de sofrer pelo Cristo
Segundo o Novo Testamento, longe de ser causa de inquietude ou tristeza, a perspectiva da perseguição deve tornar-se fonte de confiança (confiança na fidelidade e na assistência de Deus) e até de alegria (por causa da proximidade com o Cristo que ela permite viver e da recompensa futura que acarreta). São Tiago começa sua
epístola com as seguintes palavras: «Considerai que é suma alegria, meus irmãos, quando passais por diversas provações (Tg 1, 2)».
Um dos mais belos textos nesse sentido encontra-se na Primeira Epístola de São Pedro:
«Caríssimos, não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária.
Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada Sua glória. Se fordes ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus repousa sobre vós. Que ninguém de vós sofra como homicida, ou ladrão, ou difamador, ou cobiçador do alheio. Se, porém, padecer como cristão, não se envergonhe; pelo contrário, glorifique a Deus por ter este nome (1Pe 4,12-16)».
Em que a perseguição, de modo particular a aceitação do martírio, pode ser considerada uma graça?
Em primeiro lugar, ela é um fogo que purifica. Conduz a uma decisão, a uma ruptura radical e definitiva com o mundo do pecado. Faz entrar diretamente na santidade de Deus. Deste modo se exprime São Pedro: «Assim, pois, como Cristo padeceu na carne, armai-vos também vós deste mesmo pensamento: quem padeceu na carne rompeu com o pecado (1Pe 4,1)».
Como já ocorria na Antiga Aliança, o martírio é percebido como o cumprimento do mais alto mandamento, o Shemá Israel que todo judeu piedoso recita duas vezes por dia, de noite e de manhã:
«Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças (Dt 6,5)».
O sofrimento pelo Cristo leva ao grau mais incandescente a fé, a esperança e a caridade. A aceitação do martírio testemunha a fé total na fidelidade de Deus. Ela manifesta com força a esperança na ressurreição da carne e na vida eterna. Trata-se da expressão do mais alto amor: é possível amar a Deus mais do que a própria vida. «Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos (Jo15, 13)». Esse é o maior ato de amor por Deus e pelos irmãos que se pode realizar – amar até o extremo, como Jesus: «como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou (Jo13,1)», diz o Evangelho de João.
A Encarnação e a Paixão de Cristo nos mostram até que ponto Deus amou o homem. A aceitação do martírio revela até que ponto o homem, pela graça de Cristo, torna-se capaz de amar a Deus. No tempo do Natal, a passagem do branco ao vermelho, da festa da Natividade à de Santo Estêvão, é muito drástica. Um dia depois da festa jubilosa do nascimento do Salvador, que manifesta até que ponto Deus se aproxima de nós por amor, há a festa de Santo Estêvão, o primeiro mártir. Deus Se dá totalmente a nós para que possamos, por nossa vez, nos dar totalmente a Ele. Ele nos ama sem medida para que possamos amá-Lo sem medida, mais do que nossa própria vida.
O martírio é também um ato supremo de amor ao próximo: o mártir cristão perdoa, reza por aqueles que o fizeram sofrer e oferece sua vida por sua salvação. Ele leva ao extremo o amor pelos inimigos a que o Evangelho exorta.
Todavia, nunca esqueçamos que o martírio não é expressão de um heroísmo humano, de uma grandeza humana, mas o testemunho do poder de Deus que se desenvolve na fraqueza do homem, como diz o prefácio da Missa dos Santos Mártires: «Vossa misericórdia sustenta a fragilidade humana e nos dá coragem para sermos as
testemunhas de Jesus Cristo, vosso filho e Senhor nosso».
Várias vezes encontramos, nas atas dos mártires dos primeiros séculos, o asceta seguro de si, que se apresenta espontaneamente ao juiz durante uma época de perseguição e acaba por negar Cristo sob tortura, enquanto uma frágil mocinha que todos julgavam não aguentar cinco minutos nas mãos dos carrascos, como Santa Blandina de Lyon, revela-se a mais corajosa de todos.
O que faz a beleza e a graça do martírio, a felicidade secreta que nele se oculta, é a profundidade da comunhão com Deus que ele exige. «Deixai que eu seja pasto das feras, por meio das quais me é concedido alcançar a Deus», diz Santo Inácio de Antioquia em sua Carta aos romanos. Sofrer o martírio é ter a certeza de entrar para sempre na casa do Pai: «Dentro de Mim, há uma água viva, que murmura e diz: Vem para o Pai», exclama o mesmo. Viver com o Cristo é a comunhão e a configuração mais profunda possível; aí se realiza o «por Cristo, com Cristo e em Cristo» que dizemos a cada Eucaristia. No martírio, é o Cristo mesmo que sofre e reproduz Sua Paixão. Conhecemos a resposta de Santa Felicidade. Presa em Cartago no ano de 202, ela gemia ao parir sua filha na prisão pouco antes do martírio. Ao carcereiro que lhe dizia: «Se gemes agora, o que irás fazer quando exposta às feras?», ela respondeu: «Agora sou eu que sofro; naquele momento haverá outro em mim que sofrerá por mim, porque é por Ele que sofro agora».
O martírio é a experiência mais forte da assistência do Espírito Santo. Já pudemos citar a frase de São Pedro: «Se fordes ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus repousa sobre vós (1Pe 4,14)».
Os relatos dos mártires dos primeiros séculos ressaltam grandemente esse aspecto «carismático» do martírio. A presença do Espírito Santo, que repousa naqueles que sofrem por Jesus e lhes dá a força necessária, se manifesta em palavras de sabedoria, em profecias, em visões que com frequência acompanham o momento do martírio. O relato dos Atos dos Apóstolos diz, a respeito de Santo Estêvão:
«Cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus: Eis que vejo, disse ele, os céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus (At 7, 55-56)».
Tive recentemente a oportunidade de ler o testemunho do casal de idosos que presenciou o assassinato do Pe. Jacques Hamel. Esse velho sacerdote foi degolado por dois jovens jihadistas quando, em Saint-Étienne-du-Rouvray, celebrava a Eucaristia para um pequeno grupo de fiéis, dentre os quais esse casal. Os jihadistas mandaram o marido filmar o assassinato do padre com um telefone celular. Isso foi para ele muito duro. Em seguida, bateram nele; ele caiu no chão e ficou estirado, fingindo estar morto. Eis como conta sua experiência:
«Eu estava certo de que ia morrer, mas rezava.
Contemplava minha vida e estava tranquilo. Nunca estive tão sereno. Completamente em paz. Não tinha remorso nenhum, somente o amor em mim. Na verdade, foi um momento de
grande felicidade».
Sentir tanta paz e tanta felicidade num momento tão trágico só pode ser obra do Espírito Santo, conferida no instante mesmo da perseguição. Esse testemunho manifesta o quanto as promessas de Jesus são verdadeiras.
Como praticar essa bem-aventurança?
Para nós, que levamos uma vida «normal», fora dos contextos de perseguição que conhecem hoje certas comunidades cristãs, de modo especial no Oriente Médio, o que significa colocar em prática essa bem-aventurança?
Significa, em primeiro lugar, ficarmos vigilantes. Jesus nos diz no Evangelho: «Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora (Mt 25, 13)». Do mesmo modo: «Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26,41)».
Com as formas modernas da perseguição, não existe local protegido; a possibilidade de ser assassinado por nossa fé pode chegar a qualquer momento e em qualquer lugar.
Temos de estar prontos para tudo. Isso não quer dizer, porém, que devamos nos inquietar. Jesus insiste neste ponto:
Não precisamos preparar nossa defesa; o Espírito Santo nos será dado no momento necessário. Todavia, devemos viver fielmente nossa vocação cristã; perseverar na oração e nos apegar a Cristo mais do que a qualquer outra coisa.
Parece-me que também podemos atentar para as seguintes atitudes:
• Primeiro, rezar pelos cristãos que sofrem. Nós nos beneficiamos de seu sacrifício. É um dever mencioná-los sobretudo em nossas orações. Se um membro sofre, todos os membros compartilham seu sofrimento, diz São Paulo (cf. 1Cor 12, 26). Com frequência, eles são demasiadamente esquecidos (na época da perseguição comunista nos países da Europa Oriental, o sofrimento de nossos irmãos ali
encontrou, por vezes, bem pouco eco nas comunidades cristãs do Ocidente).
• Em seguida, aceitar que a vida cristã é um combate: combate de fidelidade, combate de resistência às tentações, combate de conversão permanente, combates diversos pelo serviço de Deus e pelo anúncio do Evangelho. «Suporta comigo os trabalhos, como bom soldado de Jesus Cristo (2Tm 2, 3)», diz Paulo a Timóteo. Todo pregador tem a experiência de que, chegada a hora de anunciar a Palavra de Deus, não faltam os combates: problemas materiais, angústias interiores, fadigas e tentações de todos os tipos...
Não é preciso ver combate espiritual por toda parte (se um computador não funciona, talvez seja só porque não recarregamos a bateria a tempo!), mas é inegável que, por trás das vicissitudes da vida a serviço de Cristo, não há só causalidades humanas. Tendo a pensar que as pessoas que não creem no demônio são pessoas que nunca viveram ou pregaram seriamente o Evangelho. Em seu famoso capítulo sobre o combate espiritual, São Paulo diz o seguinte, em termos que julgo mais atuais do que nunca:
«Finalmente, irmãos, fortalecei-vos no Senhor, pelo Seu soberano poder. Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do
mal (espalhadas) nos ares. Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos dias maus e manter-vos inabaláveis no cumprimento do vosso dever (Ef 6,10-13)».
Não se trata de ter medo, nem de ver o demônio por toda parte (seria fazer-lhe honra demais!), mas de ser lúcido quanto à realidade do combate que vive a Igreja e de nos apoiarmos nas promessas de Deus com absoluta confiança.
Como diz Paulo a Timóteo, o coração do combate é o bom combate da fé (1Tm 6,12). Gosto muito da atitude de Santa Teresa de Lisieux e de sua oração a Jesus: «Como criança cheia de ternuras, [...] qual valente soldado, atiro-me ao combate!».
Parece-me que um dos aspectos desse combate deve ser bem ressaltado: o de aceitar, às vezes, sofrer a injustiça.
Naturalmente, é necessário lutar contra todas as formas de injustiça, e é legítimo reivindicar e defender, ademais, nossos direitos. No entanto, não podemos nunca querer ser tratados de maneira perfeitamente justa em todas as circunstâncias da vida. Eis o que diz São Pedro aos escravos cristãos, ousando afirmar que faz parte da vocação deles ter, às vezes, de suportar a injustiça com paciência, com amor e por imitação de Cristo:
«Com efeito, é coisa agradável a Deus sofrer contrariedades e padecer injustamente, por motivo de consciência para com Deus. Que mérito teria alguém se suportasse pacientemente os açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isto é coisa agradável aos olhos de Deus. Ora, é para isto que fostes chamados.
Também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca. Ele, ultrajado, não retribuía com idêntico ultraje; Ele, maltratado, não proferia ameaças, mas entregava-se
àquele que julga com justiça. Carregou os nossos pecados em Seu corpo sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça. Por fim, por Suas chagas fomos curados. Porque éreis como ovelhas desgarradas, mas agora retornastes ao Pastor e guarda das vossas almas (1Pe 2,19-25)».
Devemos, pois, operar este discernimento: às vezes devemos nos defender, sendo isto uma necessidade e um dever; ao mesmo tempo, podemos ser chamados, por amor a Jesus, a aceitar certas injustiças – ainda mais porque frequentemente nos acontece de, exigindo ser tratados com perfeita justiça, acabamos por ser injustos com os outros, como já se mencionou. Mais vale sofrer o mal do que
cometê-lo.
O último convite que eu gostaria de propor quanto à última bem-aventurança e à questão do combate espiritual, e que será também a conclusão deste livro, é o de nos confiarmos a Maria. Ela é nosso auxílio mais poderoso e mais eficaz no combate. Seu coração é um porto de paz e de esperança para todos os que se refugiam Nela; Sua intercessão é onipotente junto a Deus; Sua presença e Seu apoio são uma força imensa nas nossas lutas e nas nossas tentações; Sua ternura maternal é uma doce consolação na tribulação. Sua fé, Sua humildade e a pureza de Seu amor tornam-Na inexpugnável no combate espiritual; Ela é temível como um exército em ordem de batalha (Ct 6, 4), segundo a expressão do Cântico dos Cânticos. Se nos confiamos a Maria, se vestimos o uniforme que Ela nos propõe (e que nada mais é do que a libré branca da fé, verde da esperança
e vermelha do amor, como fala São João da Cruz), se nos deixamos alistar nessa milícia de pobres e de pequenos que Ela, para o combate dos últimos tempos, convoca e reúne hoje sob Seu Manto, nada nos poderá vencer:
Sempre teremos a graça de nos reerguer e de retomar a luta até a
vitória última do Amor.
Maria viveu perfeitamente cada uma das bem-aventuranças. Ela nos ajuda de maneira eficaz a compreendê-las e praticá-las. O tesouro da mãe pertence ao filho, como diz Teresa de Lisieux; e, se nos damos inteiramente a Ela, Ela se dá totalmente a nós e partilha conosco todas as riquezas que recebeu de Deus. Por Ela, nos tornaremos pobres de coração, humildes e mansos; em Seus braços, seremos consolados; Ela nos dará fome e sede de Deus, nos tornará bons e misericordiosos, nos comunicará a pureza de Seu coração, nos estabelecerá numa paz profunda, que poderemos compartilhar ao nosso redor; Ela nos dará a graça de sermos fortes no combate e de acolhermos a Cruz como uma graça. Ela escancarará para nós as portas do Reino e da verdadeira felicidade.
Texto transcrito e elaboração textual de Claudia Pimentel dos Conteúdos Católicos
✅ Síntese do Conteúdo
A Graça de Sofrer por Cristo: A Última Bem-Aventurança
Ao contemplarmos a bem-aventurança dos que são perseguidos por causa da justiça, somos conduzidos a um ponto decisivo da vida espiritual, o lugar onde a fidelidade a Cristo deixa de ser apenas uma escolha moral e se torna uma entrega total, uma configuração real ao Seu Coração. A perseguição, em suas múltiplas formas, revela aquilo que há de mais profundo no discípulo: sua adesão ao Evangelho, sua confiança na promessa do Senhor e sua disposição de permanecer firme mesmo quando tudo parece contradizer a lógica humana. É precisamente aí que a graça age com maior força, porque é no despojamento que o amor se torna puro e é na provação que a esperança se torna luminosa. Quem aceita sofrer por Cristo entra num caminho de verdade que o mundo não compreende, mas que o Céu reconhece como sinal de eleição. A cruz acolhida por amor torna-se fecunda e o sofrimento unido ao de Cristo transforma-se em fonte de vida para muitos. Cada lágrima oferecida, cada humilhação suportada, cada silêncio guardado por fidelidade ao Evangelho participa misteriosamente da obra redentora que continua na história. Assim, a bem-aventurança dos perseguidos não é um convite ao sofrimento pelo sofrimento, mas à união com Aquele que, sendo inocente, entregou-Se por nós. É um chamado à maturidade espiritual, à coragem humilde, à perseverança silenciosa que brota da certeza de que Deus vê, conhece e sustenta cada passo do Seu servo. E sobretudo, é um convite à confiança, nada do que é vivido por Cristo e com Cristo se perde, tudo é recolhido pelo Pai e transformado em graça para o mundo. Por isso, quem sofre por causa da justiça não caminha sozinho, caminha acompanhado pelo Espírito de glória, que repousa sobre ele e o fortalece no combate. E ao lado do Espírito, caminha também Maria, Mãe dos perseguidos, que guarda sob o seu manto aqueles que permanecem fiéis. Nela encontramos o refúgio seguro, a ternura que consola, a fortaleza que sustenta e a luz que orienta. Ela, que viveu cada bem-aventurança com perfeição, ensina-nos a transformar a dor em oferta, a perseguição em fidelidade, a cruz em amor. E conduz-nos, passo a passo, até o Reino prometido aos que permanecem firmes.
Que estas palavras despertem em teu coração estimado leitor, o desejo de viver com mais profundidade esta bem-aventurança tão exigente e tão luminosa. Que te ajudem a reconhecer, nas pequenas e grandes provações do cotidiano, a presença discreta de Cristo que te chama à fidelidade. E que te levem a meditar, com serenidade e coragem, sobre o mistério da perseguição por causa da justiça, para que, iluminado pelo Espírito e amparado por Maria, possas descobrir a verdadeira alegria prometida aos que permanecem firmes no amor.
Finalização e aperfeiçoamentos de Paulo Pimentel dos Conteúdos Católicos
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