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AS PAIXÕES E O IDEAL CRISTÃO

Abordar este trabalho, o mais importante, seguramente, é lembrar os termos precisos em que se apresenta atualmente o difícil problema da educação do caráter.

De um lado, possuímos o ideal para o qual devemos tender. Este, porém, como um refletor possante, limita-se a projetar sobre nós sua luz e a indicar-nos o caminho.

No extremo oposto, na região agitada e tenebrosa da sensibilidade, topamos com as forças violentas e cegas que nos desorientariam se fossem abandonadas a si mesmas.

Seria simples a solução do problema da educação do caráter, se, por si só, o ideal fosse capaz de dominar essas forças. Infelizmente, a experiência mostra-nos como a ideia, mesmo sendo cristã, é, por si, impotente diante da brutalidade das nossas tendências.

Intervém então a vontade. E' ela, sem dúvida, destinada a nos fazer realizar a ideia cristã.

Como agirá? Desapegada, com efeito, desse ideal, pelo fato da herança do pecado original, não sente por ele a mesma atração, os mesmos sentimentos de amor.

Para se prender a esse ideal, amá-lo, querê-lo enfim, necessita do auxílio divino da graça. Ainda assim é indispensável o esforço pessoal.

Curados pelo batismo, não deixamos de ser convalescentes, incapazes de recuperar a energia senão ao contato do ar livre da ação. Ora, qual a ação própria para estimular a vontade, para dar mais vigor a seus sentimentos, mais intensidade ao amor do ideal divino que a solicita?

Talvez a ação desse ideal? Vimos, porém, que ele não é capaz de exercer mais força sobre a vontade, para fazê-la agir, do que sobre os impulsos passionais, para moderá-los.

Não acharemos, então, alguma solução, e a educação do caráter será uma burla? Absolutamente não, pois o remédio está no seio do próprio mal.

A vontade, insisto, é uma força sentimental. O seu fundamento é o amor. Ora, o amor chama o amor. Em vez de ordens luminosas, porém frias, apresentemos ordens sentidas, quentes, coloridas de paixão e logo havemos de vê-la obedecer, de todo o "coração", em tudo.

Não será possível prender ao ideal cristão paixões fortes, impulsos cavalheirescos, capazes de excitar a vontade e fazê-la agir com eficácia? Esse processo existe e a própria vontade tem o poder de realizá-lo. No fundo, é apenas uma questão de tática, que já Aristóteles

intitulava: arte de filosofar com as paixões.

Antes, porém, de indicar em pormenores em que consiste precisamente esta arte, devo dizer uma palavra sobre a natureza das paixões.


I- As paixões


Praticamente, as paixões designam as emoções agradáveis ou desagradáveis que experimentamos constantemente na região sensível da alma. Quando se fala do fogo

das paixões, é em alusão ao caráter espontâneo, violento, dessas emoções. Basta muito pouco para acender esse fogo: um encontro, uma lembrança, uma imagem; basta uma

fagulha para fazer saltar um depósito de pólvora.

Em geral, os moralistas dão uma significação pejorativa à palavra paixão, que entendem por desregramento, excesso. Com efeito, há paixões que se podem tornar desregradas e excessivas, pelo abuso. Mas não é isso motivo para anatematizá-las todas. E' possível

abusar das melhores coisas; não haveria, então, nada de bom neste mundo.

As paixões são, pois, emoções agradáveis ou desagradáveis da sensibilidade. Eis as formas gerais pelas quais se traduzem essas emoções; apenas insisto em relembrá-las.

O amor próprio acha-se na origem de todas as paixões. E' uma fonte contínua que as alimenta todas.

"O ódio que se sente por qualquer objeto, observa Bossuet, tem sua razão de ser no amor que se tem por outro objeto oposto. Se tenho aversão por alguém será porque essa pessoa é um obstáculo à posse do que desejo".

"O desejo é um amor que se estende a um bem não possuído. A alegria é o amor da posse".

"A aversão e a tristeza não são mais do que um amor que se afasta do mal pelo qual está privado de um bem, e sofre disso."



"A audácia é um amor que empreende o que há de mais difícil para garantir a posse do objeto amado; e o temor é um amor inconsolável pelo objeto perdido para sempre, sucedendo-se um abatimento invencível.

A cólera é um amor irritado pelo fato de lhe pretenderem tirar o bem, e que se vinga contra o culpado.

Enfim, se suprimirmos o amor, não haverá mais paixões; com ele, nascem todas".

Amor, desejo, alegria, ódio, aversão, tristeza, audácia, temor, esperança, desespero, cólera, eis a escala das paixões. Assim como com todas as notas da escala se pode obter música boa ou má, também, com as notas das paixões, se pode, sob o ponto de vista moral, atingir um resultado bom ou mau.

Tudo depende da moralidade do objeto para o qual tendermos. Por si mesmas, com efeito, as paixões não são boas nem más, pois a bondade ou a malícia, sob o ponto de vista moral, só começam com a intervenção da vontade inteligente.

Disse São Gregório que, assim como o ferro aquecido toma a forma que lhe imprime o ferreiro, e, prestando-se ao emprego ao qual o destina, se transforma em espada nobre ou ferramenta vulgar, acontece o mesmo com as paixões. Submetidas à vontade do homem, tornam-se instrumentos de virtude ou de vício, conforme este as submete à razão ou aceita-lhes o jugo, abdicando da razão.

Se é uma vantagem ter saúde excelente, bons olhos, músculos sólidos e um cérebro bem equilibrado, não é menor a de possuir um coração ardente, uma alma cheia de paixões enfim, com a condição, bem entendido, de que elas se limitem a servir e não pretendam dar ordens.

Sobretudo, os rapazes sentem ferver, dentro de si, essas paixões. Tanto melhor, se estiverem dispostos a utilizá-las convenientemente. Pois essas emoções sensíveis, apanágio peculiar da mocidade viril, podem tornar-se as molas vivas da sua conduta. Habilmente dirigidas e alimentadas, constituem para o homem de caráter um estímulo que não teme obstáculos. Essa tecla sensível, essa efervescência que a paixão empresta ao amor, é um móvel poderoso da vontade e um auxiliar precioso da virtude.


II- Sentimentos e paixões


Há, no entanto, em tudo isso, uma condição essencial a toda a questão da educação do caráter, isto é, o acordo possível entre as paixões e os sentimentos próprios da vontade.

Encontramos, com efeito, na vontade, uma escala de sentimentos correspondente à das paixões. A vontade ama, deseja, goza; odeia, afasta-se, sofre; espera e desespera; teme ou é audaciosa; é calma ou se zanga.

Enquanto, porém, as paixões, para exultar ou se queixar, rir ou chorar, vão, às cegas, buscar inspiração nos bens de toda espécie, apresentados com vivas cores pelos sentidos e pela imaginação, vemos os sentimentos ou emoções da vontade só se atirarem sobre a sua presa

guiados pela luz da inteligência.

A vontade poderá, sem dúvida, desprezando o ideal cristão que se impõe à sua atividade, comprazer-se em bens sensíveis, ou, com mais precisão, poderemos, por seu intermédio, saturar o corpo de gozos, com prejuízo da alma; será sempre, no entanto, com conhecimento de causa, livremente, senão razoavelmente. Sob o influxo da vontade, as nossas paixões recebem dela o cunho moral, que pode ser pró ou contra o ideal cristão; tornam-se boas ou más ao contato dos atos da vontade, e, por uma reação compreensível, comunicam aos sentimentos, sob uma forma mais intensa, a bondade ou a malícia recebida.

Toda a questão está, pois, em saber até que ponto os sentimentos cristãos atingidos de anemia, desprovidos de amor, como os da nossa vontade, decaída, podem receber das paixões fortes, mas cegas, um pouco do sopro de vida que lhes é necessário para fazer com que a vontade, solidamente presa ao ideal cristão, reine soberana sobre todas as energias.

A alma é como um órgão de dois teclados: o das paixões sensíveis e o dos sentimentos voluntários. Servindo-nos de um termo técnico, seria possível emparelhar esses dois teclados de modo que uma nota emocional da sensibilidade fizesse ecoar a nota correspondente da vontade e vice-versa? No caso afirmativo, será possível a educação do caráter. Como observei acima, o caráter é a harmonia da alma; e essa harmonia deve consistir justamente no acordo da vontade e da sensibilidade.

Quando, pois, à custa de habilidade e perseverança, chegarmos a conhecer a fundo o nosso instrumento, a estabelecer um acordo entre paixões fortes e sentimentos cristãos, a assegurar, por meio de hábitos sólidos, o seu funcionamento quase automático, não teremos mais de temer dificuldades. Nossos dedos correrão sobre o teclado duplo, como espontaneamente, com surpreendente agilidade; multiplicar-se-ão os acordes cada vez mais ricos e sonoros; a vida inteira será então uma longa sucessão de atos harmoniosos, encadeados uns dos outros, formando, pela sua continuidade, a grande sinfonia do caráter.


III- As paixões e o ideal cristão


As paixões são, pois, movimentos de sobressalto da sensibilidade, que, sob a forma de amor ou ódio, de desejo ou aversão, de temor ou audácia, de alegria ou tristeza, nos levam espontaneamente para os bens sensíveis ou nos afastam deles.

Antes, porém, de verificar se a vontade está em condições de soldar praticamente essas emoções passionais ao ideal cristão, para avivar, fortificar nela o amor desse ideal e estabelecer-lhe o domínio absoluto, é mister resolver uma questão preliminar. O ideal cristão, longe de poder acomodar-se com as paixões, não terá como função própria

exterminá-las, e sobre essas ruínas estabelecer o seu império?

Porque, enfim, o ideal cristão consiste em viver de uma vida divina, sobrenatural por essência e, portanto, cada vez mais desprendida da matéria. Ora, o objeto das paixões é todo material: apela somente para os sentidos; provoca uma emoção sensível, a qual, quanto mais espontânea, violenta, mais nos afasta das alturas divinas onde resplandece o ideal cristão.

No correr dos séculos foram dadas respostas bem diferentes a essa questão. Seja-me permitido lembrar aqui, em poucas palavras, as principais, a fim de esclarecer melhor a que considero mais de acordo com a doutrina católica.


O IDEAL ESTÓICO. - Os estoicos, na antiguidade, por motivos que não temos a discutir aqui, sustentaram serem as paixões radicalmente más, devendo consistir o ideal do homem - a fortiori o ideal do cristão! - em extingui-las na fonte.

Segundo Zenon de Citium e seus discípulos, o sábio deveria conseguir o domínio de si mesmo. Não, porém, como um rei pacífico que reforma súditos indisciplinados, assim firmando a sua submissão, mas como um tirano que os reduz e suprime sem piedade.

O verdadeiro estoico foge às suas emoções sensíveis, tanto aos gozos como aos sofrimentos; paralisa-lhes as influências; não as reforma, fá-las desaparecer; o seu

ideal é a impassibilidade.

"Diante da leviandade do seu povo, os desmandos e a traição dos capitães, a deserção dos soldados, o crime da esposa e a morte dos filhos, os atos celerados de seu filho Cômodo, o aviltamento dos caracteres, a prostituição do casamento, o desaparecimento da coragem, a despreocupação pelo bem público, o reino da superstição, diante, enfim, do desmoronamento e da vergonha do exército, da família e do império, Marco Aurélio domina-se contra a indignação, a cólera e a tristeza; gaba-se, qual o promontório inabalável batido pelas tempestades, "de viver isento de dor, insensível aos golpes de hoje, inacessível ao temor de amanhã."

Essa solução radical e inumana do problema das paixões devia acarretar outra, não menos radical, além de diametralmente oposta. Não me demorarei em fazer-lhe o histórico; acha-se exposta em todos os manuais de moral.


O IDEAL EPICURISTA. - Epicuro é tido como pai desse ideal e Rousseau como padrinho. Eis a que se reduz: a natureza humana é excelente no fundo; todas as tendências aí originadas, como em fonte límpida, participam dessa excelência. O que é mau e contra a natureza é querer impor limites às suas expansões.

Era de prever o acolhimento entusiasta da massa por uma doutrina tão agradável aos apetites de toda espécie.

"Das paixões, os pagãos fizeram deuses aos quais consagraram templos, festas, dando assim à terra não somente o espetáculo e o escândalo de suas desordens, mas promovendo na humanidade os excessos neles personificados. Como se a natureza humana pervertida não fosse capaz de se exceder bastante, as saturnais, as bacanais, as

festas da grande deusa vinham abrir às almas os horizontes de uma libertinagem infinita; os mortais desciam do céu para estimular as consciências enojadas, impondo a obrigação de honrá-los por meio de orgias de que se proclamavam os verdadeiros autores".

Substitua-se a palavra deus pela palavra ciência e facilmente reconhecemos na teoria acima uma certa doutrina contemporânea da glorificação das paixões. Falsos doutores preconizam, hoje, em nome da ciência, o mesmo que os pagãos pregavam em nome dos deuses.

Em presença destas duas teses contraditórias, uma exaltando desmedidamente as paixões, outra condenando-as com severidade excessiva, qual a atitude conveniente para um católico?


O IDEAL CRISTÃO. - Zenão e sobretudo Epicuro - não nos iludamos - tiveram entre nós, avisados e cristãos, alguns discípulos inconscientes.

Quantas vezes teremos ouvido em torno de nós, em ambientes que se dizem católicos, alguns sofismas que desapontam, e dos quais se abusa com o fim de encobrir desmandos deploráveis: A mocidade precisa divertir-se? Não será isto puro epicurismo?

A mocidade precisa divertir-se! Praticamente, significa que um rapaz, apenas porque é jovem, e não porque é homem, deve ceder ao impulso das paixões, sem tentar vencê-lo ou orientá-lo no sentido de um ideal superior.

Trata-se, não de negar a impetuosidade das paixões, sobretudo na mocidade; mas de saber se, só pelo fato de ser jovem, será permitido abandonar-se a elas sem constrangimento, e mesmo de caso pensado. Nada mais contrário aos ensinamentos da razão e da fé.

Esses rapazes não serão um dia homens? E, se o ideal do homem consiste no domínio das paixões, será possível crer que, de um dia para outro, decretado o fim da mocidade, um jovem seja capaz de, por um simples fiat de uma vontade desamparada, opor um dique irresistível às vagas tumultuosas que ele voluntariamente desencadeou?

Eis os resultados nefastos de uma moral toda livresca que sacrifica de boa vontade a realidade a abstrações! Não, cem vezes não, a mocidade não se deve divertir no sentido

dado pelo mundo. Repito ainda: a educação do caráter não é obra de um dia. Depois de escravos das paixões durante vinte anos ou mais, não dependerá de nós livrar-nos

subitamente desse jugo e dominá-lo.

Quererá isso dizer que, em nome do ideal cristão, devemos visar uma impassibilidade quimérica, sufocar as paixões no início, a fim de assegurarmos o domínio sobre nós mesmos?

Essa atitude estoica, tal como a precedente, nada tem de humano: é contra a natureza - disse Pascal, e a experiência vem prová-lo.

Ora, toda a força e atrativo do ideal cristão vem de que esse ideal é humano por excelência. A graça só nos é dada para aperfeiçoarmos nossa natureza. Tudo aquilo que for

contra a natureza é, por isso mesmo, anticristão.

Não precisamos de outra prova além do exemplo de Jesus Cristo, nosso modelo. Basta abrir o Evangelho para verificar que o Filho do homem não foi isento de paixões.

Os exploradores do povo, os fariseus, excitaram-lhe a cólera; ele chorou sobre Jerusalém infiel e sobre o túmulo de seu amigo Lázaro; na agonia, sofreu as emoções terríveis do temor; na última ceia, demonstrou pelos discípulos uma ternura intensa, desejou ardentemente comer a páscoa com eles; amou o sofrimento; teve enfim a loucura

da cruz.

Tudo isso não será uma prova evidente de que nem toda paixão é repreensível e que o ideal humano encarnado no Cristo não constitui um exemplo apenas para a vontade intelectual, mas também para o cérebro, os nervos, os músculos, o coração, para todas as forças que nos foram concedidas, para a carne e para o sangue?

Não quer isso dizer que todas as paixões sejam boas, seja qual for a direção que tomem ou os excessos em que caiam. As paixões são boas quando nos permitem tomar de assalto o ideal proposto pela fé à nossa atividade; são más quando dele nos afastam e nos paralisam a vontade.

Eis a doutrina católica sobre as paixões. Não é acanhada demais nem excessivamente larga: é conforme à verdade. E a verdade é que as paixões fortes, como as da mocidade, se forem bem orientadas, e ligadas pela vontade ao ideal cristão, poderão facilitar-nos a ascensão para esse ideal, dar um brilho ao olhar, uma auréola à fronte que seduzam os homens e possam restituir o vigor aos mais fracos e aos mais insensíveis.

Não temamos as paixões. Elas devem servir de trampolim para nos lançarmos à conquista do caráter. Há, sem dúvida, em tudo isso, algumas condições a examinar; há uma tática a observar. Mas, para pô-la em prática, já é bastante saber que a vida cristã não age sobre um cadáver humano e que não é necessário - muito ao contrário - ter aniquilado em nós o homem, para ter o direito de nos proclamarmos cristãos.


Texto da Obra: "A Educação do Caráter" de Padre Gillet, O.P.

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